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segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Padre Mororó, herói da Revolução

Gonçalo Ignácio de Loiola Albuquerque e Mello, que acrescentou Mororó ao seu nome durante a Confederação do Equador, nasceu no dia 24 de julho de 1778, na povoação do Riacho Guimarães, em Sobral, filho do alferes Félix José de Souza e Oliveira – escrivão e vereador da Câmara de Sobral – e Theodósia Maria de Jesus Madeira. Depois de infância dedicada ao estudo da gramática latina, segue para Pernambuco, matriculando-se, com 22 anos, no Curso de Teologia, onde se aprofunda também em ciências físicas e história natural. Ordenou-se sacerdote em 1802, no Seminário de Olinda.

 Igreja matriz de Sobral

De volta ao Ceará celebra a primeira missa na Matriz de Sobral e exerce atividades religiosas em várias cidades do interior, especialmente em Boa Viagem, Santa Quitéria e Quixeramobim. Durante três anos foi professor de latim, em Aracati.
Em 1816 profere sermão de Ação de Graças em Fortaleza, nas comemorações da elevação do Brasil à categoria de reino, ocorrida através do decreto de 16 de dezembro de 1815. A atuação eloquente de padre Mororó chama a atenção do então governador Sampaio, que o convida para participar dos “oiteiros”, reuniões literárias e artísticas, nascendo daí uma estreita amizade.
Alguns anos depois Mororó se envolve com ideias liberais, motivado principalmente pelas leituras do jornal “Correio Braziliense” publicado em Londres por Hipólito da Costa. Em 1821 Padre Mororó já demonstra afinidade com o movimento. Onde passa residir, elege-se vereador. Com a notícia da dissolução da Assembleia Constituinte, ocorrida em 12 de novembro de 1823, o padre lidera movimento de repúdio à medida autoritária do Imperador, na Câmara de Quixeramobim. O jornalista João Brígido, em trabalho publicado em 1889, na Revista do Instituto do Ceará, afirma que a Câmara, em sessão de 9 de janeiro de 1824, declarou a deposição do trono do imperador e seus descendentes. Deliberou ainda que se curasse dos meios de substituir a forma de governo convidando as demais câmaras da província para cooperarem na organização de uma república.

 Rua Conde D'Eu, antiga Rua dos Mercadores e Rua de Baixo

Por esse tempo, a exemplo de outros, o padre Gonçalo, substituiu seu cognome, de Mello para Mororó, planta brasileira. Vêm dessa época os apelidos de Araripe, Ibiapina, Sucupira, Buriti, Antas, Sussuarana e tantos outros, que se perpetuaram na província e traduzem adesões à independência.
Em 1° de abril de 1824 surge o “Diário do Governo do Ceará”, o primeiro jornal publicado na província. Padre Mororó é escolhido diretor e redator do principal veículo de divulgação dos ideais republicanos. Por esta razão, Padre Mororó é considerado o patrono da imprensa cearense.
No dia 16 de agosto de 1824, em Fortaleza, na sessão do Grande Conselho do Ceará, cujo secretário é Padre Mororó, sob a presidência de Tristão Gonçalves, proclama-se a República, em total adesão ao movimento iniciado em Pernambuco, que culminou com a Confederação do Equador. Apesar dos esforços militares de Tristão Gonçalves e Pereira Filgueiras, as forças imperiais retomam o poder em violenta contra-revolução. Inicia-se então, a perseguição aos revoltosos.
Preso em Fortaleza na antiga Rua dos Mercadores, hoje Conde D’Eu,  Padre Mororó é condenado à pena de morte pela Comissão Militar presidida por Conrado Jacob de Niemeyer. A pena deveria ser morte por enforcamento, tendo como carrasco um preso comum, na forma estipulada no código de Processo Criminal do Império. 

 Passeio Público em 1907 - vista do 2º plano, espaço hoje ocupado pelo quartel da 10ª região Militar. 

Mas nenhum preso aceitou o papel de carrasco do Padre Mororó. Jacob Bernardo, aborrecido com a recusa dos presos, resolve eleger para verdugo Agostinho Vieira, condenado pela justiça comum. Este, no entanto, recusa a indicação, atraindo para si imediato castigo. Dois soldados invadem a prisão, autorizados pelos carcereiros, espancam o preso até deixa-lo estendido no chão. Usando métodos ainda mais eficazes, colocam a ferros dois prisioneiros, que são ferozmente espancados, mas ainda assim,  nada conseguem. 
Indignado, Niemeyer resolve o impasse convertendo verbalmente, o suplício da forca para fuzilamento. A data da execução fica marcada para a manhã do dia 30 de abril de 1825, quando também seria executado Pessoa Anta, outro implicado na rebelião. 

 Quartel da 10ª Região Militar, antigo Quartel de 1ª. linha na Av. Alberto Nepomuceno em 1933. 

Barão de Studart relata o início da cerimônia de fuzilamento de Padre Mororó e Pessoa Anta: “saíram os dois do oratório no andar superior do quartel de 1ª. Linha, guardados por grossa leva de soldados comandados por dois oficiais, em direção à Igreja do Rosário, onde ouviram missa celebrada pelo Frei Luiz do Espírito Santo Ferreira. O cortejo viera pela Rua dos Mercadores ou Rua de Baixo (hoje Conde D’Eu), e concluído o ato religioso, seguiu pelo trecho da hoje Rua Guilherme Rocha, dobrando na Rua Major Facundo e prosseguindo até o Largo de Fortaleza, lado norte do Campo da Pólvora, hoje Passeio Público, local marcado para o sacrifício".

 Igreja do Rosário, em 1908

Numa manhã de sol claro, Mororó terá a primazia. Colocado em posição de tiro, recusa a venda e pede para que não ponham no peito a fita indicativa do local de mira. Os carrascos o atendem. Em seguida, sem perder a fleuma do mártir resignado, coloca sobre o coração a mão direita e resolutamente diz: “Camaradas, o alvo é este, atirem certeiro para que não me deixem sofrer muito”. Temia certamente o conhecido “tiro de misericórdia”, suplício muitas vezes continuado e de extremo padecer. Nesse momento, as carabinas ecoam, três dedos da mão rolam por terra e o herói tomba sem vida.

Extraído do livro A História do Ceará passa por esta rua,
de Rogaciano Leite Filho
fotos do Arquivo Nirez

domingo, 16 de junho de 2013

História de Algumas Ruas do Centro – Parte 3


Até a época da construção da Alfândega Nova constituía parte do caminho da praia; com o início do funcionamento da alfândega ganha maior importância, recebendo uma linha de bondes que passava em frente, dobrando à direita na atual Rua Almirante Jaceguai com ponto final no início da Ladeira da Conceição. Em 1932 foi denominada Rua da Praia e depois Pessoa Anta, homenagem ao mártir da Confederação do Equador, fuzilado em 30 de abril de 1825. Em sua continuidade recebe o nome de Avenida Almirante Barroso.

Avenida Almirante Tamandaré


Principal via de acesso à Ponte Metálica. Por trás da alfândega foi instalada a linha férrea fazendo a ligação com a Estação Central. A construção da avenida só foi possível graças ao desmonte de uma duna existente próximo à alfândega. Inaugurada a 4 de julho de 1916, com o nome de Avenida Atlântica; em 1920 passou a ser chamada de Avenida Epitácio Pessoa; em 1932 mudou para Avenida 3 de Outubro, homenagem à revolução de 1932. 


Juntamente com os Boulevards do Livramento e do Imperador delimitavam o centro de Fortaleza no plano elaborado por Adolfo Herbster em 1888. Teve vários nomes: Boulevard da Conceição (1888); Nogueira accioly, Dom Manuel  (1934) e Avenida Dom Luís, voltando depois a chamar-se novamente Dom Manuel.

Rua Coronel Ferraz


Travessa do Colégio (1888) por passar ao lado do Colégio da imaculada Conceição; depois mudou para Travessa São Luiz e Rua Figueiras de Melo. Era a via de união com a Rua São José e uma das poucas que no final do século passado foram abertas à direita do Riacho Pajeú.

Avenida Santos Dumont


A antiga Rua do Colégio, inicialmente avançava algumas quadras até o atual Colégio Militar; chamou-se Rua Gustavo Sampaio e Boulevard Nogueira Accioly. Com o surgimento do bairro da Aldeota foi se prolongando até a alcançar a Praia do Futuro.  

Rua José Avelino


Antiga Rua do Chafariz, primitivamente instalado na esquina da Avenida Alberto Nepomuceno com General Mesquita. 

Rua Boris


Travessa da Praia, Ladeira do Solon, em setembro de 1889, o vereador Arnulfo Pamplona, propôs a mudança do nome para Rua Boris.

Rua Pinto Madeira


Antiga Rua do Córrego e depois Rua da Cavalaria, por passar em frente ao prédio que sediava o Esquadrão de Cavalaria da Polícia Militar, que após reforma foi ocupado por parte da escola de Administração, hoje está ocupado pelo Arquivo Público Intermediário.

Rua Visconde de Saboia


Antiga Travessa da Cacimba – a qual ficava localizada no leito do Riacho Pajeú – e parte a Rua da Assembleia.

fotos do Arquivo Nirez
fonte: Caminhando por Fortaleza, de Francisco Benedito

domingo, 27 de novembro de 2011

Feliciano José da Silva Carapinima, Mártir de 1824

O ideal de liberdade e independência da Confederação do Equador, movimento republicado ocorrido em 1824, motivou várias famílias cearenses a adotarem sobrenomes identificados com temas brasileiros. Feliciano José da Silva, por exemplo, ficou conhecido na história por Carapinima, assim como seus companheiros revolucionários Anta, Mororó, Ibiapina

Os confederados queriam implantar uma república no Nordeste e separar-se do Brasil de D. Pedro I

Nascido em Minas Gerais onde trabalhou em órgãos públicos, Carapinima radicou-se no Ceará, a partir de 1820, exercendo cargo de secretário do governante Francisco Alberto Robin (13 de junho de 1820-3 de novembro de 1821).

Na época, a província vivia um clima de revolta pela atitude arbitrária de D. Pedro I, que dissolveu a Assembleia Geral Constituinte instalada no Rio de Janeiro. Alguns deputados mais exaltados foram presos na ocasião, entre os quais o representante do Ceará, Padre José Martiniano de Alencar, libertado alguns dias depois. 

Para o Imperador, a Constituinte havia perjurado ao solene juramento que prestou à Nação, de defender a integridade do Império, sua independência e a dinastia. O ato, no entanto, provocou indignação no Nordeste. Pernambuco, então como centro de polarização cultural de todo o Nordeste, toma a frente da sublevação nacionalista, irradiando para as demais províncias, as diretrizes básicas que serviriam de aval político e que em breve transformarão os protestos em ação física e materialmente decisiva.

Cais de desembarque no Recife situado na atual Avenida Martins de Barros. Cartão postal editado por volta de 1910.

Em 2 de julho de 1824, instala-se em Recife, a Confederação das Províncias Unidas do Equador, que reúne inicialmente Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte. Em Fortaleza, graças ao trabalho de conscientização de Tristão Gonçalves, o Ceará também adere ao movimento republicano. No dia 26 de agosto do mesmo ano, realiza-se uma reunião do Grande Conselho, com 455 participantes. 

A fala do presidente Tristão Gonçalves, mostrou a perigosa situação em que se achava a Pátria brasileira, fazendo-se necessário salvá-la do cativeiro, apesar de todos os sacrifícios da parte de seus filhos.  Tristão apresentou em seguida um plano que contemplava uma nova forma de governo, para ser discutido livremente, e ser ou não aprovado  pelo Congresso. 

Depois da unânime aprovação da proposta, que importava na anexação do Ceará à Confederação do Equador, procedeu-se à eleição de presidente e secretário do Grande Conselho, recaindo a escolha, respectivamente em Tristão e no padre Mororó.

Tristão Gonçalves

Carapinima, favorável aos ideais republicanos, é nomeado secretário de Pereira Filgueiras, comandante das armas. Tristão Gonçalves, entusiasta e crente na vitória da causa que abraçara, partiu para Aracati, para dar combate aos adversários. Ficara a substituí-lo no comando,  José Félix de Azevedo e Sá, que escravo do medo, sob as ameaças de Lord Cochrane, que se apresentara na cidade a 17 de outubro, entregou-se sem um protesto e fez a contra revolta.  

Padre Mororó

Por toda a parte reergue-se agora a bandeira imperial, a população tenta se acalmar um pouco com a segurança da anistia garantida pelo almirante mesmo aos chefes, aos mais implicados no movimento, excetuando Tristão Gonçalves.  O ânimo de Tristão não comporta traições nem pactos com os adversários e tenta ele então a sorte das armas, mas em 31 de outubro em santa Rosa, abandonado, é batido e trucidado. 

José Pereira Filgueiras, que havia seguido com quase toda a tropa para o interior da província, depois de vários encontros com as tropas legais, sobretudo no Rio do Peixe e em Missão Velha. Recebendo a notícia da morte de Tristão Gonçalves, rendeu-se ao capitão Reinaldo de Araújo. Preso, teve de seguir para o Rio de Janeiro, mas faleceu no caminho, vitimado por uma febre típica.

Por decreto de 5 de outubro foi designada uma Comissão Militar destinada a julgar sumariamente no Ceará,  as pessoas implicadas na República do Equador. O tribunal era composto de Conrad Jacob Niemeyer (presidente),  Moraes Mayer (relator), Queiroz Carreira, Cabral de Teive, Sabino Monteiro e João Bloem  (vogais, nomeados em 16 de dezembro).

Entre os réus, estavam o padre Gonçalo Mororó, João de Andrade Pessoa AntaFrancisco Miguel Pereira Ibiapina, Feliciano José da Silva Carapinima e Luiz Ignácio de Azevedo, vulgo Bolão.

A Comissão Militar condenou os acusados à pena de enforcamento, mudada para fuzilamento porque ninguém quis servir de carrasco dos revolucionários. Carapinima foi o último a morrer, em 28 de maio de 1825, no Passeio Público, sendo considerado por o mais sofrido dos mártires de 1824.

Tendo resistido à primeira descarga, o condenado ergueu-se da cadeira, quebrando as amarras e ficando a rodopiar desnorteado. Volteia a praça em movimentos desconexos e desequilibrados, enquanto da parte dos executores, parecia não haver pressa em por fim ao espetáculo. Sob a alegação de que faltara munição, o presidente da Comissão Militar Conrad Niemeyer ordena o deslocamento de um soldado ao quartel, onde deveria recarregar as carabinas, o que é feito muito lentamente.

A esposa de Carapinima, que ao longo do cerco acompanhava o suplicio do marido, desmaia ao vê-lo naquele estado desesperador. Alguns populares a socorrem, embora naquele momento, manter-se distante dos culpados fosse a postura mais aconselhável.  Chegam novamente as munições e Carapinima recebe nova descarga.

Avenida Carapinima, no Passeio Público (foto Marciano Lopes)

O historiador R. Batista Aragão avalia que não fora o açodamento com que Niemayer condenara e levara à execução os réus, Carapinima teria escapado ao suplício, já que fora beneficiado pelo aviso ministerial que mandava suspender as execuções no Ceará, de 23 de julho de 1825, citando explicitamente os nomes de Carapinima, Antônio Bezerra e frei Alexandre da Purificação

A partir da publicação da superior deliberação, somente após o conhecimento pelo Imperador, do processo respectivo, poderia o réu ser executado. Tardia porém necessária medida, visto que muitas cabeças enfileiravam-se à espera do carrasco.

fonte:
A história do Ceará passa por esta rua, de