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quarta-feira, 11 de maio de 2022

Memórias do Cine Nazaré, no Otávio Bonfim (Farias Brito)

 

Antigamente na confluência dos atuais bairros Otávio Bonfim e Parque Araxá, havia uma lagoa denominada Lagoa da Onça, localizada a um quarteirão do Cercado do Zé Padre, na Rua Padre Graça. Naquelas imediações foi inaugurado um cinema, o Cine Nazaré, em 1945, final da guerra. Por causa lagoa, quando chovia, as ruas ficavam inundadas e o povo assistia aos filmes no Nazaré, com os pés dentro d’água, mas ninguém reclamava. O cinema se constituía a grande diversão do bairro, junto com o outro cinema, o Familiar, localizado em frente a Praça de Otávio Bonfim, que funcionava sob orientação dos frades franciscanos. Fora os cinemas, só havia as novenas e as quermesses da Igreja das Dores.


Região do bairro Otávio Bonfim, com a Igreja das Dores, e o fundo  estação da RVC
foto do arquivo Nirez

Não havia controle de acesso, todos podiam entrar, as mulheres geralmente levavam os filhos, mesmo que fossem crianças de colo, a não ser que o filme fosse censurado, no caso, aqueles de terror, ou os mais insinuantes, com mulheres de maiô ou cenas de beijos.

O Cine Nazaré foi tão marcante naquela época, que na exibição do “Ladrão de Bagad” foi necessário abrir uma segunda seção. Tinha tanta gente esperando do lado de fora e na lateral do cinema, que o muro caiu. O povo começou a se amontoar e a empurrar. Quando o muro caiu, quem já estava assistindo o filme nem ligou, continuou assistindo.

A sala cinematográfica tinha capacidade para 300 pessoas, com dois tipos de ingressos: 200 nas cadeiras com assento e encosto de madeira e 100 na geral, bem em frente a tela, com bancos sem encosto. Na geral, onde o preço do ingresso era menos de metade das cadeiras   (400 reis), quando chovia era um sufoco, a água minava do chão já que todo o terreno ao redor da Lagoa da Onça ficava encharcado.


Região onde ficava a Lagoa da Onça, nas proximidades da estação da RVC
foto Lucas Jr/Facebook/Fortaleza Antiga

Para minimizar o problema, oito pisos foram sobrepostos para aumentar o nível do chão, cuja base foi construída abaixo do nível da lagoa. Nesse caso, havia duas opções: ou o espectador ficava de cócoras sobre o banco, ou tirava o calçado e ficava com os pés na água, enquanto assistia o filme. Do lado de fora, esperando os cinéfilos para o lanche, estavam os vendedores de bolo, tapioca e café. A pipoca ainda não era moda.           

O primeiro arrendatário do cinema foi o marchante José Marcelino, que tinha uma banca de venda de carne no Mercado São Sebastião. Naquela época, final dos anos 40, início dos 50, os cinemas passaram a ser a principal diversão da cidade. E as salas se multiplicaram, havia diversas espalhadas nos bairros e no Centro. A partir dos anos 60, os cinemas fora do centro começaram a fechar: encerraram as atividades o Ventura, na Aldeota, o Dioguinho, na praça do Colégio Militar, e muitos outros. O Nazaré também fechou. Em 1968 foi a vez do Cine Familiar.


Cine Nazaré e seu proprietário Sr. Raimundo Carneiro de Araújo, no centro
foto Diário do Nordeste

O Cine Nazaré fechou e reabriu muitas vezes, capricho e menina dos olhos do seu proprietário desde 1970, o radiotécnico Raimundo Carneiro de Araújo, conhecido por Vavá. Foi durante muito tempo o único (e o último) cinema de bairro da cidade. Mas seu Vavá faleceu esse ano, em fevereiro de 2022, e levou com ele a luz que guiava os filmes de sonhos que animavam o Cine Nazaré, agora, definitivamente fechado. 


Fonte: 

Jornal Diário do Nordeste "Cine Nazaré conta a história do bairro", de 05/06/2006  

  

domingo, 3 de fevereiro de 2019

O Otávio Bonfim que eu conheci


Rua Justiniano de Serpa, próximo à Domingos Olímpio. Ao fundo, à esquerda, o muro do convento dos Franciscanos. Anos 70 - Acervo particular

Um dos mais antigos de Fortaleza, o bairro que tem nome oficial de Farias Brito – em homenagem ao filósofo nascido em São Benedito – é mais conhecido pelo apelido: Otávio Bonfim, nome de um engenheiro que trabalhou na estação ferroviária do bairro. Assim, a antiga Estação do Matadouro, recebeu o nome do engenheiro, que segundo dizem, faleceu num acidente rodoviário. Como naquela época a estação era o equipamento mais importante do bairro, acabou virando Otávio Bonfim. A estação nem existe mais, contudo, o nome ficou para a posteridade.

Sobre a estação, inaugurada em 1922, há uma crença equivocada que a mesma recebeu retirantes da seca de 1915, história contada pela própria Rachel de Queiroz, no seu romance best-seller “O Quinze”.

No mesmo atordoamento chegaram à Estação do Matadouro. E, sem saber como, acharam-se empolgados pela onda que descia, e se viram levados através da praça de areia, e andaram por um calçamento pedregoso, e foram jogados a um curral de arame onde uma infinidade de gente se mexia, falando, gritando, acendendo fogo. Só aos poucos se repuseram e se foram orientando. 
(Rachel de Queiroz - O Quinze, pág. 39)


Foto do site Estações Ferroviárias - anos 70

Conforme o site “Estações Ferroviárias, até 1917 a linha instalada pela antiga Estrada de Ferro Baturité passava por outro trajeto, que corresponde hoje a Avenida Tristão Gonçalves, até a Estação Central. A partir daí os trilhos foram arrancados e um novo trajeto foi estabelecido mais a oeste do centro, cortando os bairros do Jacarecanga, Otávio Bonfim e Porangabuçu, chegando até Couto Fernandes. Portanto, a Estação do Matadouro não teve esse protagonismo que lhe foi atribuído nesse período. 
  
As principais diversões do bairro tinham origem em dois locais: a Igreja das Dores e o Cine Familiar. A Senhora das Dores estava sempre no centro dos acontecimentos. Nos meses de Junho e Outubro, promovia as trezenas de Santo Antônio e as novenas de São Francisco, respectivamente. No último dia da festa, o dia do santo propriamente dito (13 de junho – Santo Antônio; 4 de outubro – São Francisco), havia o encerramento em grande estilo: a missa era campal, os sinos tocavam alegremente e se formava uma grande procissão, que se arrastava pelas ruas do bairro.


Igreja de N. S. das Dores ainda sem o relógio na torre,e sem o Salão Paroquial, construído ao lado da igreja em 1959. A Pracinha em frente recebeu o nome de Praça de Otávio Bonfim em 1941, e na época da foto, quase não tinha arborização. No lugar da estátua de Farias Brito, que hoje se encontra no centro da praça, existia esse busto do Almirante Tamandaré, que tinha um pedestal que imitava uma proa de navio. A praça era bem menor em relação ao seu tamanho atual. Foto do Arquivo Nirez, dos anos 50

No cortejo, um andor ricamente enfeitado, o padre e os coroinhas todos paramentados, banda de música, uma chusma de anjinhos vestidos à caráter, e todas as irmandades, com estandartes, portando suas fitas coloridas num misto de fé e comemoração: fitas vermelhas do Apostolado da Oração, Fita azul das Mães Cristãs, fita amarela para os meninos da Cruzada, uma opa marrom para os membros da Ordem Terceira Secular. 

Encerrada a parte religiosa, começava o capítulo da arrecadação de recursos, quando no pátio externo era armado um palanque de madeira para a realização de leilão. As prendas para o leilão eram arrecadadas junto aos moradores, geralmente bolos, galinhas cheias (de quê?) e outras guloseimas, e alguns objetos, tudo embalado em colorido papel de seda.
  
Cine Familiar, ficava vizinho à Igreja das Dores - foto do Arquivo Nirez

O leiloeiro era o Irapuan Lima, e acho que já era figura conhecida naquela época (anos 60), porque alguns se admiravam dele estar sempre lá, trabalhando de graça para engordar os cofres da igreja. Outro que vivia por ali no sereno dos leilões, sempre acompanhado de suas duas filhas, era o ainda hoje conhecido Vavá, atualmente proprietário do Cine Nazaré. Naquela época, Vavá era o responsável pelo funcionamento do Cine Familiar, e acho que ele ajudava (ou fazia tudo) na iluminação do pátio e instalação do som, onde se realizava o leilão. Outra tradição da Igreja, era a distribuição do pão de Santo Antônio, às 3as. Feiras. Vinha gente de longe, para receber o alimento.   

Na esquina da praça de Otávio Bonfim com Rua Dom Jerônimo, ficava a sede da SUMOV – Superintendência Municipal de Obras e Viação, órgão da prefeitura encarregado das obras e embelezamento da cidade, e que ocupava o terreno onde outrora funcionou o matadouro. A SUMOV foi extinta em 1997 e deixou um clube de futsal na orfandade. 

Rua Justiniano de Serpa, com o muro do Convento dos Franciscanos à direita. Foto do Arquivo Nirez

Na Rua Justiniano de Serpa, num larguinho no cruzamento com a Rua Bela Cruz ficava a primitiva Capela de São Sebastião, desativada desde a inauguração da Igreja das Dores, no início dos anos 30. Os moradores a chamavam de “igrejinha”, e era bastante singela, erguida em uma calçada alta, com três portas em arcos na fachada principal, uma porta lateral em cada lado, e uma cruz no alto. No seu interior, alguns bancos de escola onde eram ministradas aulas de catecismo para os meninos que estavam sendo preparados para a primeira comunhão. E num nicho meio esquecido, uma pequena imagem (ou seria um quadro?) de um São Sebastião com o corpo traspassado de flechas. Essa igrejinha, antecessora das Dores, foi demolida por volta dos anos 80. No seu lugar, construíram uma pequena praça que deram o nome de Praça Frei Teodoro, um frade franciscano alemão morador do convento, que militava nas causas sociais da igreja, e tinha grande afinidade não só com os fiéis, mas com muitos moradores do Otávio Bonfim.

Cruzamento das ruas Justiniano de Serpa e Bela Cruz, local da igrejinha demolida nos anos 80. Atual Praça Frei Teodoro. imagem google

Na mesma Rua Justiniano de Serpa, antiga Estrada do Gado, havia várias bodegas, precursoras dos atuais supermercados, cujos proprietários eram bastante populares em razão do seu ofício e por causa das facilidades que ofereciam: cadernetas de fiado e vendas a retalhos, estavam sempre na ordem do dia. Um dos mais antigos, atendia em uma casa com duas portas na fachada, vendia carvão e outros artigos hoje totalmente obsoletos. O proprietário faleceu junto com sua mulher num acidente automobilístico na Avenida João Pessoa, engrossando a estatística da via que já era conhecida por “Avenida da Morte”. O casal tinha alugado um carro no Posto Onze, que funcionava na pracinha em frente à igreja das Dores, e se dirigia para o aeroporto, quando aconteceu o acidente. 

Mas, além dessa, que algum tempo depois voltou a funcionar com outro proprietário, ainda havia várias bodegas que quebravam o maior galho dos lisos da época. Havia a bodega do "Seu" Antônio, famoso pela limpeza das instalações, que tinha umas prateleiras que ocupavam uma parede inteira com garrafas de cachaça, todas iguais, com os rótulos rigorosamente no mesmo ângulo, onde se lia “Aguardente de Cana Idealista”. Seu Antônio era casado com a dona Anísia (uma das mais fervorosas colaboradoras dos leilões) a "galinha cheia ofertada pela dona Anííísia" conforme anunciava o leiloeiro, era uma das prendas mais cobiçadas, tanto que ficava quase sempre, para o final do leilão. 

Havia ainda a Bodega de "Seu Batista", esse sim bodegueiro raiz. Vendia de fumo de rolo à meia barra de sabão. Passava o dia de pijama e sapato e vivia com Dona Judite, a esposa, que era um poço de antipatia. A bodega dos dois ficava justamente na esquina da igrejinha.

Arquivo Nirez

A Avenida Bezerra de Menezes já existia, mas não chegava até o nosso bairro. Na época o trecho entre o Mercado São Sebastião até o então Grupo Escolar Presidente Roosevelt, atual E.E.E.P. Presidente Roosevelt, chamava-se Rua Juvenal Galeno. Logo no início da Juvenal Galeno alguém construiu um pequeno açude, formado pelo represamento das águas do riacho Jacarecanga. O açudinho, como era chamado, assumia ares de grande reservatório, ganhava corpo e força quando no período de chuvas. Era bastante frequentado pelos meninos da vizinhança e alguns afogamentos foram registrados lá. Ficava no local onde hoje está a empresa Aço Cearense, quase em frente ao Mercado São Sebastião. 

Em seguida, vinham os jardins Japonês e São José, que eram atravessados por um filete de água corrente, imagino que proveniente do sangradouro do açudinho. Esses dois jardins ocupavam todo o quarteirão onde hoje se encontra o supermercado Assaí, no início da Bezerra de Menezes. 

Havia outros estabelecimentos comerciais na Rua Juvenal Galeno, como a Fábrica Siqueira Gurgel/Usina Ceará, na esquina com a Avenida José Bastos, e na outra esquina, em frente a fábrica, estava a farmácia da Dona Rosélia, acho que a única do bairro. Em 1967, inauguraram a nova avenida Bezerra de Menezes, e o piso rústico e irregular daquele trecho, sumiu junto com a Rua Juvenal Galeno, e a nova avenida revista e ampliada, passou a ter início no Mercado São Sebastião. Deve ter sido por essa época que o açudinho foi aterrado.

início da Avenida Bezerra de Menezes. à esquerda da foto, onde estão as palmeiras, ficava o Jardim Japonês. O jardim ficava abaixo do nível da via. Foto do Arquivo Nirez 

Depois da inauguração da Avenida Bezerra de Menezes, não sei se foi o Otávio Bonfim que, pouco a pouco começou a perder sua identidade, ou se fui eu que, como diria Milton Nascimento, “partiu por outros assuntos”. O fato é que muita gente se mudou, muito comércio novo apareceu, os jardins fecharam e deram lugar ao primeiro supermercado da área – o Mercantil São José – a Siqueira Gurgel também virou supermercado, a Renovadora de Pneus Batista, que ficava na esquina da Justiniano de Serpa com a Rua Larga, ardeu numa monumental fogueira de fumaça preta, que chegou a clarear a noite do bairro, e causou enorme apreensão por causa da proximidade com o posto de gasolina, localizado em frente, do outro lado da avenida. O Cine Familiar deixou de exibir as chanchadas da Atlântida nas manhãs de domingo, e por isso, virou colégio, o Padre Champagnat. O discreto piso de mosaico da Igreja das Dores foi substituído por um espalhafatoso porcelanato branco, que deixou o templo com cara de shopping center. 


foto Fortaleza em Fotos/2011

Hoje, andando por lá, não reconheço quase nada e apenas algumas poucas pessoas. O Otávio Bonfim que eu conheci, perdeu-se nas brumas do passado.  

(redigido por Fátima Garcia com o precioso auxílio de alguns dos seus inúmeros irmãos)

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

O Pré-Carnaval dos anos 60

Muitos acreditam que o pré-carnaval de Fortaleza é coisa recente, iniciada nos anos 80 com os blocos que desfilam na Praia de Iracema e no Benfica. Ledo engano. Lá pelos anos 60, o Bloco Prova de Fogo já fazia a festa no bairro Otávio Bonfim e adjacências. Quer saber como era? então leia a crônica do Tarcísio Garcia. 
  
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O ENSAIO DA PARADINHA
 (Tarcísio García)

No começo do ano começava a festa. Lá de casa dava para ouvir o baticum. Os ensaios de janeiro eram um pouco tímidos devido à falta de entrosamento dos músicos, afastados desde o ano anterior. À medida que se entendiam na execução, porém, passavam a tocar com mais desenvoltura, fazendo uma verdadeira algazarra que atraía a atenção dos moradores de toda a redondeza. Aos primeiros acordes da noite a gente se entreolhava, largava o que estava fazendo e começava a frenética e animada preparação para nossa participação no ensaio. Num entra e sai sem fim, driblávamos a vigilância dos pais e escondíamos no jardim de muro baixo, os saquinhos de carteira de cigarro com o material garimpado especialmente para a ocasião.


No repertório revezavam-se dois estilos distintos: marchinha e samba. No primeiro predominava o som dos metais, que se ouvia a quilômetros. No outro, o samba, onde todo arranjo deixava a música parecida com “eu vou pra Maracangalha”, do Dorival Caymmi. Só tinha uma diferença: em todo samba eles botavam uma paradinha, tivesse ou não no original. Até hoje acho graça sozinho quando ouço uma paradinha. Era assim: faziam a introdução, cantavam a letra e depois de um caprichado solo de cornetas, o mestre da bateria dava três apitos e a charanga fazia um breque. Mais dois apitos e novo breque. Mais dois apitos e novo breque. Por último, mais dois apitos, novo breque, dessa vez acompanhado de um frivião no repique, e só então o samba recomeçava.

O cidadão comum, morador de subúrbio não contava ainda com o feitiço da televisão que o anestesia e imobiliza na cadeira, de modo que as noites nesta época, eram dedicadas ao convívio social e à vadiação. Quem não estudava à noite, divertia-se com conversas, flertes e brincadeiras ao ar livre. Velhos, adultos, adolescentes e crianças, todos ocupavam democraticamente as beiras de calçadas. Nossa rua tinha uma posição estratégica que fazia dela um corredor bastante concorrido, ligava a Av. Treze de Maio à antiga Rua Juvenal Galeno, hoje, Bezerra de Menezes. Além disso, passava por ali toda sorte de novidades; de prosaicas boiadas a caminho do matadouro, a tropas de soldados do 23º BC, que iam acampar nas dunas do Papicu.


Nos meses de maio, junho e outubro, por ocasião das festas da igreja, os moradores cortavam as flores dos seus jardins e jogavam os ramalhetes na via pública para enfeitar a passagem das procissões de Nossa Senhora das Dores, Santo Antônio e São Francisco. Com uma vocação cultural dessas, nada passava despercebido ao olhar treinado dos moradores. Até o mais inocente vendedor de algodão doce com sua indefectível lamparina, era avistado de longe, parado pela freguesia e só liberado quando acabava a última colherada de açúcar.

Pois bem... nas semanas que antecediam o carnaval, o Bloco "Prova de Fogo" saía às ruas para corrigir as falhas do desfile, com destaque para a coreografia da paradinha, que depois de exaustivamente ensaiada no coração da Praça Tabajara, passava então para a etapa final da preparação: o ensaio em movimento. Neste propósito, o bloco enchia as noites do Otávio Bonfim com o mais autêntico e acalorado pré-carnaval. O primeiro sinal de que o bloco ia sair do Beco dos Pintos e passar na rua, era o volume do som, que de repente mudava de direção. Estava longe, ficava perto, sumia e voltava, como se estivesse sendo tangido pelo vento. Ficava mais nítido e ia se aproximando gradativamente até alguém na calçada anunciar sua visualização e a dúvida se transformar em certeza, despertando a vontade incontrolável de correr porta afora.


No abre alas, vinha o estandarte preto, enfeitado de espelhos e ostentando o nome do bloco. Carregada pelo porta-bandeira, uma caveira de uns três metros, sacudia braços e pernas de madeira ao sabor das evoluções. Os passistas veteranos seguiam na frente mostrando o estilo para aos jovens aspirantes a folião. Trajavam calça branca, blusa vermelha de mangas compridas e um colete preto adornado com lantejoulas vermelhas. Na cabeça, outro símbolo: um artefato metálico que lembrava ao mesmo tempo, um elmo das armaduras medievais e um capacete de bombeiro. Envolto numa nuvem de poeira, iluminado pelos faróis dos carros que pediam passagem, lá vinha o ensaio da "escola", solto na buraqueira, tomando conta da rua, arrastando a multidão.


Da calçada era possível avistar a silhueta do cortejo se aproximando. Uma piracema de gente acompanhava o desfile, correndo, pulando e achando graça, somando-se aos que se posicionavam em suas casas para ver de perto a performance dos passistas. Num crescendo medonho, o som da charanga cada vez mais alto, invadia todos os espaços, sacolejava a caixa dos peitos, afrouxava o risador. As cadeiras das calçadas eram recolhidas para dar passagem, as mulheres casadas corriam para as janelas pra evitar as mãos bobas, os muros das casas transformavam-se em camarotes cheios de gente de todas as idades. Crianças de braço eram alçadas às cacundas dos pais, as maiores fervilhavam de contentamento, os cachorros latiam inutilmente, os adultos se dividiam: uns torciam a cara achando aquilo uma fuleiragem, outros se empolgavam com a fanfarra e dançavam na calçada. A atmosfera cheirava a poeira, sovaco e cloretil, e o Prova de Fogo agora estava passando na porta de casa.  O povo acompanhava disputando um lugar perto da orquestra. A rua invadida. A música troando. Não sobrava lugar para uma pitomba. 

Ao som ensurdecedor dos tambores e das cornetas, a gente grelava os olhos nos passistas que dançavam de olho grelado no maestro, que no tempo certo da música levantava a batuta e regia a paradinha: pi- pi- piiiiiiiii!!! E todo mundo se abaixava: pi- piiii! Davam um pulinho e mudavam de pose: pi- piii! Mudavam de novo:  pi- pi- paracatum-paracatum-paracatum...e saíam saracoteando alegremente movidos por uma força misteriosa que lhes revigorava o ânimo. Felizes da vida seguiam pela Rua Justiniano de Serpa afora, indiferentes à nossa provocativa participação: uma chuva de areia provocada pelos saquinhos que eu e meus irmãos jogávamos sobre o desfile toda vez que os passistas se abaixavam ensaiando a paradinha.

fotos do arquivo Nirez e Diário do Nordeste
Tarcísio Garcia é cearense de Fortaleza, artista plástico e escritor, autor dos livros
Nó na Língua (1998)
Dicionário do Ceará - as palavras, as expressões e como usá-las - (2000) 
Auto-ajuda na Ruma - neurolinguística cearense (2000)

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

A Mula Sem Cabeça do Cercado do Zé Padre

Localizado no bairro Farias Brito (mais conhecido por Otávio Bonfim), o Cercado do Zé Padre sempre foi um reduto de pobreza. Seu acesso era pela Avenida Bezerra de Menezes, logo no início, na esquina onde hoje existe uma agência do Bradesco, por uma via chamada Rua Larga. Hoje, é a continuação da Rua Justiniano de Serpa. Sua origem remonta às décadas de 1920/30, por conta de um grande terreno tomado pelo mato, do qual Dona Beliza G. Matos usufruía o direito de propriedade. 

imagem do site jangadabrasil.com.br/revista/galeria

O terreno foi dividido em pequenos lotes e arrendado para famílias vindas do interior, em sua maioria fugidas da seca no sertão, para a construção de casebres, com a condição de que o arrendamento fosse pago em dia. Sem alinhamento, sem pavimentação ou qualquer melhoria, o aglomerado urbano foi crescendo e se expandindo tornando-se uma grande comunidade.

O fato de que se trata aconteceu por volta por anos 30. Na praça em frente a Igreja das Dores, no quarteirão da Avenida Bezerra de Menezes já havia umas trinta casas centenárias, com formato de rótula e duas portas de frente cada uma, de propriedade do Poeta Juvenal Galeno. O fundo dos terrenos dessas casas confinavam com o Cercado do Zé Padre, assim conhecido. 

O nome do lugar deve-se a um dos primeiros moradores, que não era padre, mas era reconhecido como um homem casto, recatado e de aprimorado devotamento as coisas celestiais, levando vida parecida com a dos padres. Não bebia, não fumava nem frequentava lugares pouco recomendáveis. Estabelecimentos como bordéis e boates,  nem pensar, sequer conhecia tais lugares. Seu trabalho e preocupação se resumiam a cuidar do Cercado, cultivar hortas, flores e legumes como meio de sobrevivência na terra que lhe fora aforada para tais explorações.

Assim vivia Zé Padre, naquele aprazível pedaço de terra de considerável dimensão (seu lote era bem maior do que os demais), quando de repente surgiram as primeiras invasões por parte de pessoas que ergueram seus barracos, desrespeitando as marcações do terreno e invadindo o lote maior, em poder do morador mais antigo.

Com o passar dos anos, a coisa se agravou. Foi quando Zé Padre passou a ser molestado pelos invasores, que começaram a vigiar seus passos, pesquisando sua vida de carola; e o rapaz passou a ser seguido e observado de perto por todos quanto moravam no Cercado. Era uma vida atormentada por indagações e insinuações maldosas.

Avenida Bezerra de Menezes em foto dos anos 70 - O Cercado do Zé Padre é essa área verde, no canto inferior, à direita da avenida. 

Por essa mesma época um fenômeno tido como sobrenatural veio a atormentar as noites dos moradores: tratava-se de uma “visagem” que percorria todo o Cercado, metendo medo nos moradores, que tomavam proporções de pavor, a ponto de ninguém se atrever a permanecer fora de casa além do horário habitual, naquele até então calmo e sossegado recanto.

Assim a história da aparição foi se espalhando, com os moradores divulgando, invocando santos, rezando novenas, dezenas e trezenas, fazendo promessas para tudo quanto era sagrado, para descobrir que fenômeno era aquele que metia medo, espantando e recolhendo toda a comunidade do Cercado do Zé Padre, antes que a noite caísse completamente.

Até que numa noite, o mais destemido morador do cercado apresentou-se como voluntário para descobrir o tal mistério, mas não obteve sucesso porque seu intento foi divulgado, e naquela noite, o monstro não apareceu. No entanto, tudo estava previamente preparado para desvendar o significado daquela entidade, identificada como uma "mula sem cabeça", que perambulava pelo Cercado quase todas as noites. 

E a vigília continuou. No momento certo, depois da meia-noite, onde somente a escuridão era maior, tendo o céu e as estrelas como testemunhas, surge a certa distância o “monstro sem cabeça” cujos olhos melancólicos impediam a visão dos aterrorizados. Pedia passagem em desabalada carreira, envolvido em espessa capa preta, com um lampião aceso a sinalizar, e com ardente impetuosidade, corria em direção ao intrépido morador, com um chocalho pendurado no pescoço, o que foi suficiente para o pobre espectador, em pânico total, invadir sua choupana a gritar: – mulher...me acode, é a burra do padre que está solta aqui no Cercado. 

imagem google
Mal sabia que aquele aparecimento tinha endereço certo, direto pra a casa de um amor proibido que se localizava na quadra vizinha, numa das casas de frente para a Praça da Igreja das Dores, onde Zé Padre e sua amante, conhecida Madame, proprietária de bem montada pensão, decidiram manter absoluto sigilo sobre a ardente paixão que os consumia. Apesar de ser comparado a santo, Zé Padre era astucioso e gostava de correr durante a noite fazendo “visagem” no Cercado que levava seu nome.


Extraído da crônica A Burra do Cercado do ZePadre, de Zenilo Almada  
fotos do Arquivo Nirez 

segunda-feira, 19 de maio de 2014

O Desmatamento continua, agora na Bezerra de Menezes


 A atual Avenida Bezerra de Menezes antes da urbanização: sítios, chácaras, poucos moradores, muitas árvores e os trilhos do bonde do Alagadiço (foto do arquivo Nirez)

A Avenida Bezerra de Menezes passou por uma grande reforma, iniciada em 2008 e concluída em meados de 2012, quando dentre outras melhorias, ganhou novas calçadas e o canteiro central ganhou uma ciclovia. Quando da inauguração, ciclistas reclamaram da presença de árvores no canteiro central, o que reduzia o espaço para bicicletas. Mas, à época, o gestor da obra, o Transfor, alegou que as árvores eram muito antigas e importantes para projetar sombra sobra a rodovia. 

 A última reforma, que construiu a ciclovia no canteiro central, já dizimou boa parte da vegetação

Na verdade, o projeto original previa a retirada das árvores do canteiro central,  o que só não foi concretizado em razão da atuação do então vigário da Igreja de N.S. das Dores em Otávio Bonfim, Frei Humberto Wallschlag, que era contra a retirada da já escassa cobertura vegetal da avenida, mobilizou vários segmentos sociais, e os gestores se viram obrigados a modificar o projeto.
Desde os anos 70, quando a via passou pela primeira reforma (na segunda metade dos anos 60), a Bezerra de Menezes transformou-se  em importante polo comercial, aglutinando grande diversidade de negócios. 
  
Em qualquer projeto de intervenção, por mais simples que seja, uma das primeiras análises envolve o comportamento de variáveis envolvidas no problema: se modificarmos uma variável, como se comportarão as outras? Essa premissa básica, elementar, não parece fazer parte dos projetos da prefeitura. Ao isolar as faixas da direita da pista para facilitar o escoamento de coletivos,  dificultou o acesso aos comércios o que determinou a falência de vários comerciantes.
 
Mas a realidade desses comerciantes começou a mudar a partir do início de 2014, quando, visando melhorar a mobilidade e aumentar a velocidade média da avenida, a prefeitura implantou o sistema de faixas exclusivas para ônibus e vans, o que dificultou a circulação e a parada de veículos de passeio nas faixas da direita. A dificuldade de acesso, esvaziou os estabelecimentos, e determinou a quebra de vários comerciantes, que viram a clientela desaparecer. Hoje, há muitos pontos desocupados, disponíveis para vendas, aluguel, etc.
Agora, diante do desastre do comércio da Bezerra de Menezes, os gestores resolveram fazer uma nova intervenção, qual seja, deslocar as paradas de ônibus para o canteiro central, e a circulação de coletivos para a pista da esquerda, onde ocorrerão embarque e desembarque de passageiros. 
Ao que parece tudo será feito como das outras vezes, intempestivamente, açodadamente, se vai dar certo, se vê depois.

 
A Avenida em dois momentos: antes e depois da sinalização com as faixas exclusivas. A faixa azul que aparece à direita deverá ser deslocada para a esquerda. Espera-se que os ilustres planejadores tenham adotado medidas de segurança para a travessia de pedestres para os pontos de ônibus, que serão localizados no canteiro central, e não esperem o aumentar o número de mortes por atropelamento para começarem a agir

E para viabilizar o novo projeto, vão realizar uma das ações que já se anuncia como uma das prediletas dos nossos atabalhoados governantes: a retirada de cerca de 100  árvores da avenida. As árvores que o saudoso Frei Humberto defendeu com tanta garra e convicção; as árvores que dão um pouco de sombra e frescor a uma via tão desumanizada, árida e feia.  Mais uma vez é reafirmada a prioridade dos carros em detrimento de pessoas, seus meios de sobrevivência, seu bem estar, sua segurança, ao ter que atravessar as faixas de uma avenida que apresenta condições tão adversas.

fotos de Rodrigo Paiva e Raquel Garcia
mar/2013/abril/2014 
por Fátima Garcia