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terça-feira, 16 de agosto de 2022

Fortaleza Bela e Suja ( Mais suja do que bela)

 

Fortaleza, acredito que seja o único lugar em que se usa a expressão “rampa” como sinônimo para acúmulo de lixo. Herança do passado onde o lixo da cidade era jogado no declive da ladeira da Misericórdia, entre a muralha do Gasômetro e as primeiras casinhas do Arraial Moura Brasil. Conhecida pela população como “rampa”, e reduto dos primeiros catadores de lixo, tomava toda a frente da Cadeia Pública. Por determinação da Intendência, o lixo urbano, transportado em carroças, era despejado todos os dias, entre as nove e as onze horas.



A "Rampa" ficava na antiga Ladeira da Misericórdia, e tomava toda a frente da Cadeia Pública, atual Emcetur.  

Nos dias atuais a rampa, apesar oficialmente não mais existir, está presente, multiplicada por toda a cidade. Fortaleza virou um lixão, cada rua tem seu monte. Tem lixo nas areias das praias, nos parques, nos espaços de lazer, nas praças, ao redor dos prédios públicos. Tudo sujo.

 

Lá um belo dia, algum “luminar”, um “talento desperdiçado” desses que abundam em cargos públicos, decidiu que a cidade não precisava mais de varrição, exceto o centro e talvez alguns bairros mais turísticos. O resto que se virasse. 


Ninguém se lembrou de promover alguma campanha de educação e orientação da população, por mais comezinha que fosse. Igualmente ninguém lembrou que há resíduos que são naturalmente produzidos, tipo folhas, restos deslocados pelas chuvas, mato nas coxias e terrenos baldios. Tampouco se lembraram que a cidade está tomada de moradores de ruas, que produzem resíduos que são descartados lá mesmo onde vivem. Quem não souber ou não viu, é só dar uma passadinha nas Praças do Ferreira e Clóvis Beviláqua, que já tem uma boa ideia. Então ficou tudo por isso mesmo, tudo ao deus-dará. Antes a preferência para formação dos lixões se concentrava nas calçadas de prédios abandonados ou em terrenos baldios. Agora, brotam em todos os cantos. 

  

Tem de tudo nas rampas: lixo doméstico, restos de móveis, papel, objetos de plástico, vidros, entulhos, animais mortos; de quebra, o cheiro característico e insuportável, os insetos, escorpiões e roedores que habitam esses ambientes. A sujeira se espalha pelas calçadas, sobe muros, escala monumentos e fachadas, pela ação nefasta de pichadores.

 


Na minha rua, predominantemente residencial, com alguns comércios, há muito que não existe limpeza da rua, os próprios moradores é que se encarregam de varrer as frentes de suas casas. Uma vez na vida, aparecem os garis da prefeitura, varrem, cortam os matos, juntam na porta de algum felizardo, e vão embora. O caminhão (que nunca aparece) virá recolher depois. Com a ventania, o monturo se desfaz e volta a ser democraticamente distribuído nas portas das casas.

  

Os moradores se mostram bem incomodados, mas, geralmente dão sua contribuição para o aumento do problema. As soluções propostas pelo poder público – coleta três vezes por semana e a criação de Ecopontos – tem se mostrado ineficientes, seja pela falta de comprometimento dos moradores, seja pela dificuldade de transporte para grandes volumes como poda de árvores ou restos de materiais de construção. Assim, vale a via mais fácil, e tudo vai parar no meio da rua.



Por outro lado, é público e notório que a prefeitura não está dando conta da tarefa, Fortaleza nunca esteve tão suja, com forte aspecto de abandono, fedida, cheia de mato, cheia de lixo. O serviço contratado para limpeza presta um péssimo serviço, e não parece passar por nenhum tipo de fiscalização. É urgente então que o poder público saia desse estado de torpor, acorde dessa leseira institucionalizada, e que os gestores saiam do conforto dos gabinetes e ponham a máquina para funcionar, porque é para isso que eles foram postos lá. Fortaleza não merece essa cara que estão querendo lhe impor. 

M. Fátima Garcia 

   

domingo, 13 de julho de 2014

No Tempo dos Lampiões de Gás

A primeira cidade a ter iluminação a gás carbônico foi Londres, em 1812,  utilizando o gás extraído da hulha ou carvão-de-pedra. O Rio de Janeiro inauguraria essa modalidade de iluminação em 1854, quarenta e dois anos  depois de Londres. 

 Rua Floriano Peixoto 

Visando dotar Fortaleza desse serviço, o Presidente da província João Silveira de Souza assinou a lei nº 838, de 2 de outubro de 1857, que não se materializou. Nova tentativa ocorre em 1859, quando o contrato para a prestação do serviço é formalizado pelo presidente Silveira de Souza, na Lei 918 de 13 de setembro de 1859, sendo beneficiário da concessão Joaquim da Cunha Freire; também nada de prático resultou dessa norma.

Em 1864, é renovado o privilégio de explorar a iluminação pública pelo período de 59 anos. Dificuldades naturais levaram o empresário cearense a associar-se a Thomas Rich Brandt, com o qual procedeu a negociações internacionais em busca de soluções. Dessa negociação resulta a constituição de um grupo de investidores que, em 1865, institue a firma The Ceara Gaz Company Limited, com sede em Londres.

As operações de transferência para o grupo britânico foram aprovadas pelo governo da província, que inclusive assegurou o terreno adjacente à Santa Casa de Misericórdia, onde foi instalada a usina de gás e a residência do gerente. 


ladeira da Misericórdia, vista no sentido praia/centro com a estrutura do gasômetro e no alto, ao fundo, a Santa casa de Misericórdia

A empresa instalou-se em Fortaleza ocupando o prédio situado à Rua Formosa n° 52, com escritórios e o terreno com frentes delimitadas pelas ruas Senador Pompeu, Formosa e Senador Jaguaribe, na então chamada rampa da Santa Casa, onde foi providenciada a construção do gasômetro e usina de processamento do gás e a edificação da residência do gerente local.

A festiva inauguração oficial da iluminação a gás em Fortaleza ocorreu a 17 de setembro de 1867, após uma experiência  que a Ceara Gaz realizou no dia 7, com atendimento parcial de ruas, do Clube Cearense e outros prédios, todos no centro da cidade. Diante dos resultados positivos do contrato original com a Ceará Gaz, outros benefícios e privilégios foram concedidos pelo governo. Decretos provinciais de 1868 e 1869 concederam isenção de impostos sobre a importação de material de uso na empresa. 


 o gasômetro funcionava ao lado da Santa Casa de Misericórdia 

Fortaleza convivia com um novo serviço urbano que lhe conferia prestígio e modernidade. A aceitação popular e à seriedade com que a empresa inglesa operava o serviço, soma-se a atitude prudente do governo provincial, que transformou em lei o regulamento para fiscalização da iluminação a gás de Fortaleza (Lei n° 1578, de 18 de setembro de 1873).

O crescimento da rede de iluminação pública se processa de acordo com a expansão urbana. Em 1879, por contrato específico de 25 de novembro, é autorizada a instalação de 50 combustores no Passeio Público. No dia 27 de maio de 1888, há um acréscimo de 120 combustores. Dos novos bicos de gás, 80 são localizados no Boulevard Visconde de Cauípe (atual Avenida da Universidade), 22 na Praça de Pelotas (atual Clóvis Beviláqua), 9 na General Sampaio e 9 na Rua Major Facundo. 

 Avenida Visconde de Cauípe (atual Av. da Universidade) e a iluminação a gás

Devido aos bons resultados obtidos e o pelo reconhecimento da população aos serviços prestados, o governo continuava favorecendo o grupo inglês, tanto na isenção de impostos como na prorrogação de privilégios de exploração da iluminação pública. A Lei 1052, de 1911, prorroga o prazo de concessão até 16 de janeiro de 1958, mas estabelece uma condição que será fatal: a Ceara Gaz Company deverá substituir a iluminação a gás pela luz incandescente, a elétrica, na iluminação da capital. Nada ocorreu, entretanto, nesse sentido.

 A Praça Clóvis Beviláqua era um logradouro muito amplo e bem iluminado 

Outro fator de ameaça a Ceara Gaz surge em 1913, quando também em Londres é constituída uma nova empresa a Ceará Tramway Light and Power Company, que no ano seguinte, já instalada em Fortaleza, passa a explorar o transporte de bondes elétricos, a oferecer energia para empresas e residências e a intermediar operações comerciais de compra de motores e implementos elétricos na Inglaterra. A par disto, com a ocorrência da I Guerra Mundial, os custos operacionais cresciam e o fornecimento de gás perdia a vantagem econômica. 

 Primeiro gerador instalado pela Ceará Light em Fortaleza - foto do livro de Ary Bezerra Leite - História da Energia no Ceará 

Novas estratégias deviam ser buscadas pelos dirigentes da Ceara Gaz. Precisavam assegurar a manutenção do privilégio da iluminação pública e defender seu mercado de fornecimento de gás para consumidores comerciais e residenciais. No primeiro caso, consegue relativo sucesso, pois sobrevive por mais 20 anos, encerrando suas atividades de 68 anos a 25 de outubro de 1935. Quanto a clientela particular, é mantida pelo esforço de marketing, quando se tem registro da primeira batalha entre dois produtos concorrentes na história da publicidade no Ceará.


Extraído do livro História da Energia no Ceará
De Ary Bezerra Leite   
fotos do Arquivo Nirez
      

quarta-feira, 5 de março de 2014

Um jardim chamado Passeio Público


O areal baldio do antigo largo do Paiol transformou-se em logradouro seguidamente conhecido por denominações tais como largo da Fortaleza, praça do Hospital e praça da Misericórdia. Por fim, oficialmente denominou-se Praça dos Mártires em homenagem aos participantes da Revolução do Equador, executados no local, em 1825.

Situado na parte mais antiga da cidade, transformado em um dos seus principais equipamentos culturais, o Passeio Público se estendia pelas encostas da colina da misericórdia, ladeado pelo velho Quartel da Força de Linha e pela fortaleza consagrada a N. S. da Assunção. 
Ocupava primitivamente, uma área muito mais extensa desse elevado, hoje compreendida entre a Rua Dr. João Moreira e a Avenida Presidente Castelo Branco. 

Dispunha-se ao longo da descida da encosta, em três planos de alturas diferentes, intercomunicados por escadarias.  O primeiro plano – o único que restou do velho Passeio Público – assentado no cimo da colina, passou a ser chamado de Praça dos Mártires, por ali terem sido sentenciados os líderes da República do Equador, presidida no Ceará por Tristão Gonçalves, irmão do Senador Alencar. Nesse largo, então denominado Campo da Pólvora, Padre Mororó e Pessoa Anta foram os primeiros a serem fuzilados, em 1825.

 Avenida Caio Prado - 1908

Em 1888, nesse primeiro plano, construiu-se a bela Avenida Caio Prado, voltada para o mar.
Construído na metade da encosta, o segundo plano sustentava-se por uma muralha que lhe servia de arrimo. Entre pitombeiras e pitangueiras, uma escultura da deusa Diana no Banho, de Jean Goujon, um lago e repuxos em cascata artificial ambientavam este nível.  Por algum tempo, nele funcionou o Cassino Cearense, de Júlio Pinto – antes de sua instalação na Rua Major Facundo – com um bar famoso pelos refrescos de murici, tamarindo e outros frutos silvestres, com jogos de bilhar francês e outras diversões.

O terceiro plano, um sítio muito arborizado e com touceiras de bambus, estendia-se ao nível da Praia Formosa. Seu aprazível parque mantinha um pequeno zoológico de emas, cutias, veados, cisnes e patos, entre dois torreões encimados por domos de estilo indiano. 

 estátua de Netuno já no Parque da Liberdade

As águas do Pajeú formavam um lago, no meio do qual, sobre uma coluna de pedra, um grave Netuno de tridente em punho, olhava para o mar. Tempos depois, por volta de 1914, esse Netuno foi levado para o Parque da Liberdade, popularmente conhecido por Cidade da Criança, para ornamentar o lago que se originou da antiga Lagoa do Garrote. 

Na Praia Formosa localizava-se o Poço da Draga, um lagamar construído pelo represamento das águas do Pajeú em sua foz, formando o cais da Ceará Harbour. Servia às pequenas embarcações, às pescarias com landuá, linha e tarrafa e aos concorridos banhos de mar nas noites de lua cheia, quando o brilho do luar dispensava os combustores de iluminação da Ceará Gáz Company.  



Deveu-se  a Tito Antônio Rocha, comerciante português radicado em Fortaleza, o embelezamento do Passeio Público. Nos jardins arborizados ele instalou uma pista de patinação e um tanque circular com repuxos, adornado com jarrões de louça chinesa. Levantou uma caixa d’água de admirável arquitetura para a época, o coreto de música, com sua elegante cobertura em forma de pirâmide e o botequim no primeiro plano. Mais tarde instalou-se nesse local o café Caio Prado, de Júlio Pinto. 

Entre as réplicas de esculturas clássicas vindas da Europa, suas alamedas serviram ao footing dos fins de tarde, ao som das bandas do 15° Batalhão da 1ª Linha, do Batalhão de Segurança e da Escola de Aprendizes Marinheiros. 


Durou pouco tempo, esse espaço elegante e charmoso com suas divisões em planos. O desprezo e a descaracterização desmontaram aos poucos o conjunto paisagístico do Passeio Público, propiciando situações que redundaram na posterior cessão de partes do logradouro para usos diversos. As descaracterizações físicas, se não do 1º. Plano, mas das suas vizinhanças, já vinham de muito tempo. De fato, por volta de 1867, quando ainda não se definira a aparência do logradouro, perto do canto noroeste, do outro lado da rua Formosa, foi implantada a escura e volumosa estrutura metálica do gasômetro que garantia a iluminação da cidade.


Usina da Ceará Light e o Gasômetro, no desaparecido 3° plano do Passeio Público

A bem da verdade, deve-se pois dizer que as doações dos planos de nível inferior decorreram do próprio abandono a que desde longo tempo haviam sido relegados. No começo do século XX, o 3º. Plano do Passeio ficou completamente abandonado. Diante de tal situação, irreversível, o 3o. Plano e seu lago, desapareceram, sacrificados para construção de uma termoelétrica explorada por uma firma inglesa. Na ocasião, os fortalezenses já haviam esquecido o lago romântico, formado com as águas do Pajeú.

Avenida Carapinima, 3° Plano do Passeio Público - 1908

Desmontado o 3o. Plano, com seu lago, restou o patamar intermediário, o 2o. Plano, entretanto, já abandonado desde o início do século, como depunha Gustavo Barroso: No segundo [Plano] o mato invade tudo e o cassino cai aos pedaços. Demolido o Cassino, pouco tempo permaneceu o 2º Plano como espaço sem serventia explícita, pois logo, e por muitos anos, se transformou em palco de atividades atléticas, ou melhor, em campo de futebol de uso popular.

escadaria do 2° Plano

Em 1912, com a ocupação do 3º. Plano pela usina termoelétrica da Ceará Light, o 2º. plano perdeu sua função de acesso ao lago e à praia. Logo a área descampada ganhou novos usos, um dos quais ainda um tanto desconhecido, novidade assinalada pela imprensa: a preparação do terreno para construção do campo de futebol do Fortaleza Football Club. 

Em 1963, em dias mais próximos, o 2o. Plano foi cedido pela Prefeitura ao Exército, a fim de acolher obras militares de emergência, embora  atualmente esteja ocupado com edificações de porte, de propriedade do quartel da 10ª Região Militar. 

Atualmente, revitalizado e recuperado, o Passeio Público continua sendo palco de eventos e local de encontro dos fortalezenses e visitantes.
 

fontes:
Ideal Clube, História de uma Sociedade, de Vanius Meton Gadelha Vieira
fotos do Arquivo Nirez e do Álbum de Vistas do Ceará