sábado, 11 de agosto de 2012

Espaço Urbano de Fortaleza e distribuição espacial das Classes Sociais


O crescimento de Fortaleza se deu de forma rápida, desordenada e sem planejamento, com grandes disparidades sociais e mais recentemente, com especulação imobiliária. A própria formação espacial da cidade evidenciou a questão da segregação e diferenciação social e de classes – ou seja, áreas ocupadas por determinadas camadas sociais e com tratamento diferenciado pelo poder público.

 Familia no Passeio Público em 1908  (foto do álbum de vistas do Ceará)

 O Passeio Público foi um dos primeiros espaços segregados da cidade. No inicio do século XX, foi rodeado de grades, e dividido em três planos ou avenidas.
A elite frequentava a Avenida Caio Prado, de frente para o mar.
A classe média frequentava a parte central denominada Avenida Carapinima,e os pobres ficavam na Avenida Padre Mororó.(arquivo Nirez)
 
Os migrantes e as camadas pobres se alojavam preferencialmente na periferia da cidade, especialmente nas zonas oeste e sul, nas proximidades de ferrovias, nas estradas de acesso à cidade e nas praias. Ocorria, não raras vezes, a ocupação de dunas e das margens de riachos e lagoas, gerando complicações ambientais com a destruição daquelas áreas e problemas sociais com inundações dos casebres em épocas chuvosas. Essa situação se verificava comumente na região ribeirinha do rio Cocó, atingindo moradores do Lagamar e da Aerolândia, antigo Campo da Aviação.

parte da comunidade do Lagamar, instalada às margens do Rio Cocó (foto arquivo do Blog) 

Na região Oeste, onde as áreas até então não tinham urbanização nem contavam com infraestrutura, os terrenos tinham preços mais em conta para as massas, que em muitas oportunidades os ocupavam clandestinamente, daí a urbanização irregular, com a propagação de lotes de tamanhos irregulares, casas modestas e favelas, becos e ruas estreitas, tortuosas e sem saída, inexistência de espaços públicos e áreas de lazer.  ´

Nestas áreas era comum a existência de chafarizes com filas enormes para obter água, ou de cacimbas nos quintais,  (perto de fossas), montanhas de lixo, terrenos baldios, logradouros sem calçamento ou saneamento. A atenção do poder público era mínima.

 Rua no Pirambu (arquivo do Blog)

Na periferia, eram raros os supermercados. Os produtos essenciais e gêneros alimentícios eram oferecidos por pequenas unidades familiares de comércio, as bodegas. Normalmente o estabelecimento funcionava na frente da casa, enquanto o bodegueiro e sua família moravam na parte de trás. O sistema de pagamento era o fiado, ou seja, o freguês comprava antecipadamente, o valor era anotado em cadernetas para ser pago quando saísse o salário.

Não por acaso, nestas áreas periféricas da zona Oeste, várias fábricas se instalaram, de têxteis, de confecções e de beneficiamento de óleos vegetais, a exemplo dos bairros Antônio Bezerra, Parangaba e, sobretudo, na Avenida Francisco Sá, que na verdade corresponde ao conjunto de favelas do Pirambu.  

 Fábrica de Tecidos São José, de propriedade de Pedro Philomeno Ferreira Gomes. Instalou-se em 1926, no bairro Jacarecanga

A ideia das indústrias era aproveitar a disponibilidade de terrenos de baixo preço e explorar a farta e barata mão-de-obra da zona oeste. As indústrias instaladas, por sua vez, atraíam mais pessoas humildes em busca de trabalho, as quais, em virtude dos baixos salários, dificuldades de obter moradia própria ou pagar aluguel, acabavam se deslocando para as favelas.

 Fábrica Brasil Oiticica, que em 1934 foi instalada na Avenida Francisco Sá.(foto IBGE)

Processo parecido, de instalação de indústrias, deu-se num trecho da zona leste, no entorno do Porto do Mucuripe, pela óbvia facilidade de transporte. Também naquele trecho  surgiram vários bairros operários e favelas, visto que o Porto e as indústrias necessitavam de muitos trabalhadores braçais.

Com a construção do Porto do Mucuripe na década de 1930/40 e depois da Avenida Beira Mar, nos anos 1960, a zona de meretrício, até então localizada no entorno do Arraial Moura Brasil e Poço da Draga, foi se deslocando para a área do farol do Mucuripe (Serviluz), enquanto os pescadores eram empurrados para o alto das dunas e para a Rua Manuel Jesuíno, onde havia sido erguida em 1945, a Vila dos Estivadores.

 Casa de jangadeiro na Praia do Meireles. Nos anos 1960, com a súbita valorização da área, os jangadeiros foram obrigados a morar noutros locais. (foto IBGE)

A formação de favelas foi provavelmente, a única maneira dos migrantes ficarem em Fortaleza. Normalmente, assim que chegava à cidade, o migrante permanecia por um pequeno período em casa de amigos ou parentes. Depois, ao resolver a questão onde morar, acabavam se fixando numa favela ou ocupando um lote vago, erguendo casebres frágeis, geralmente de taipa, com cobertura de zinco ou palha. Se o Estado ou particulares não criassem problemas, a ocupação avançava, atraindo outras pessoas em situação semelhante. Acontecia também de pessoas sem renda, instalarem seus casebres em espaços públicos, destinados às ruas e Praças, situação em que os proprietários vizinhos não podiam reclamar, pois seus lotes estavam livres. 

Esta situação criava problemas de circulação e irritava os setores imobiliários, pela desvalorização da área, provocada pela proximidade da invasão. Em 1953, calculava-se em 18.100 o número de habitações do Arraial Moura Brasil e do Pirambu onde moravam, sobretudo, pescadores, operários, e outros trabalhadores sem qualificação, onde  muitas das casas ali existentes, foram erguidas sobre as dunas.

Casas construídas sobre as dunas: no Pirambu...
e na Barra do Ceará (fotos arquivo do Blog)

No início dos anos 1960 acirrou-se a disputa por terras no Pirambu. Moradores denunciavam a pressão e a violência praticadas por supostos proprietários dos terrenos, que exigiam a saída da comunidade – na verdade, era a especulação imobiliária na área, visto que a maioria das pessoas morava em terrenos da União.

Diante dessa ameaça, lideres comunitários, muitos deles ligados à Igreja Católica, como o Padre Hélio Campos e ao Partido Comunista Brasileiro (PCB), se articularam, para garantir às famílias a posse legal dos seus pequenos lotes de terra. A 1° de janeiro de 1962, foi organizada a Marcha do Pirambu sobre Fortaleza, com cerca de trinta mil pessoas dirigindo-se ao centro para chamarem a atenção da sociedade e das autoridades  sobre os problemas da comunidade.

 Padre Hélio Campos, um dos grandes benfeitores do Pirambu

Apesar do medo que o evento provocou entre os setores abastados da cidade, não houve  nenhum confronto, tratando as elites e a Igreja de evitar qualquer  ato de radicalismo. Emissoras de rádio acompanharam o evento, a população em geral foi convocada para participar daquele evento, por um mundo melhor, e o próprio bispo da capital, Dom Antônio Lustosa, esteve presente. A Marcha do Pirambu foi um sucesso – em maio de 1962, no governo do presidente João Goulart (1961-1964), foi baixado um decreto desapropriando a área.

Extraído do livro de Artur Bruno e Airton de Farias
Fortaleza: uma breve história

terça-feira, 7 de agosto de 2012

A Atuação dos Padres Jesuitas no Ceará



A fé move montanhas e molda cidades. No Ceará, como na Bahia, Pernambuco e São Paulo, os padres jesuítas instalaram aldeamentos para facilitar a conversão dos índios. Essas missões eram aldeias artificiais militarizadas, tendo como chefe um missionário que usava de todos os métodos para domesticar os indígenas. No início, a catequese era frágil: pregações de aldeia em aldeia, de ano em ano. Depois perceberam que o modo mais eficaz de exercer um controle sobre essas populações, era retirá-las do espaço onde estavam. 

À força, em nome de Deus e da civilização, os índios eram afastados dos líderes religiosos, os pajés. O invasor oferecia-lhe três opções: a morte no combate, a fuga no mato ou a religião estrangeira.

O sino da igreja determinava o dia na aldeia artificial. Às cinco horas, despertava as mulheres para as orações e sermões. Pelas quatro da tarde, anunciava o jantar e o rosário. Entre um badalar e outro, o serviço doméstico, a agricultura, a pecuária. Para as crianças, as aulas de leitura, a escrita e religião. À noite eram os homens que eram convocados para a doutrinação. Nas missões, falavam também os instrumentos de tortura – o pelourinho e as mutilações físicas.


A evangelização era feita primordialmente pelos jesuítas, ainda que frades franciscanos tenham atuado. As reações iam desde a aceitação resignada até a rejeição irredutível, que acabava em morte do nativo. O mais comum foi a absorção dos princípios católicos sem abandono das crenças nativas, promovendo o surgimento de uma prática sincrética característica da religiosidade católica cearense.

Para os missionários a religião ancestral era ruim e pecaminosa, enquanto a religião europeia era legítima. Entre outras verdades feitas, pregava-se que os índios só se salvariam mediante o casamento abençoado pelos padres e insistia-se na confissão dos pecados.

Documentos jesuítas, encontrados em arquivos portugueses, guardam o resultado dessa colonização espiritual: os índios vêm à igreja de mãos postas e erguidas, adoram a Deus, que fez o céu e a terra, confessam ao senhor de tudo, assistem em silêncio o santo Ofício, ouvem os avisos e obedecem,  armados de arcos e flechas, mas com o arco em repouso.

Sobre os Padres Jesuítas



A ordem religiosa da Companhia de Jesus integra o clero regular da igreja colonial no Brasil, voltado para a catequese e educação de índios e colonos. É como parte do mundo da Contra- Reforma que o Ceará passará a fazer parte dos projetos jesuíticos de evangelização. Em 1695 este plano começará a ganhar forma com a fundação da aldeia de Nossa Senhora da Assunção da Ibiapaba – atual cidade de Viçosa do Ceará. 

A partir daí construíram uma rede de aldeamentos. Esta será a condição do Ceará até a expulsão da Companhia, governado politica e religiosamente pelos jesuítas, economicamente assentados na pecuária. Os jesuítas atuaram no Ceará entre 1609 e 1759. Os primeiros registros encontram os padres Francisco Pinto – o Paipina para os índios que acreditavam em seu poder de fazer chover – e Luis Filgueiras entre os tuxaua da Ibiapaba. No tempo dos sermões em latim, a língua sagrada, em que a alta divindade se expressa, os jesuítas ousaram fazer a catequese na língua do nativo.

Sobre as Aldeias Artificiais

 indios Tapebas, em Caucaia

Na memória de Fortaleza, três aldeamentos famosos Parangaba, Paupina (atual Messejana) e Soure (Caucaia). Quando o Marquês de Pombal decretou o fechamento da Companhia de Jesus, em Ordem Régia de 14 de setembro de 1758, as missões foram convertidas em vilas. 

Assim Caucaia se transformou em Vila Nova de Soure, guiada pelo vigário Antônio Carvalho da Silva; Parangaba mudou para Vila Nova de Arronches, sob o comando do padre Antônio Coelho Cabral; Paupina passou a Vila Nova de Messejana, dirigida pelo vigário Manuel Pegado de Siqueira Cortez. Os jesuítas da extinta Companhia de Jesus seguiram para Pernambuco, e de lá, para as masmorras de Portugal.


Fonte:
Artigo em Nome de Deus e da Civilização, publicado na Revista Fortaleza, fascículo 2 de 16 de abril de 2006 
  

domingo, 5 de agosto de 2012

Os Transportes Urbanos na Fortaleza dos Anos 1940


 
Parada de ônibus no Abrigo Central, Praça do Ferreira

No ano de 1948 uma Resolução do poder público municipal obrigava as empresas de ônibus a conceder gratuidade a pessoas idosas e meia passagem aos estudantes. Houve protestos de todos os lados, uns prós (a maioria da população),  outros contra. O Jornal O Nordeste declarou-se "contra" porque a medida iria concorrer para prejudicar a eficiência do serviço. 

A solução encontrada pelos empresários consistia em batalhar pelo aumento no preço das passagens, e a reação aos protestos manifestava-se de forma agressiva, como ocorreu em 18 de setembro de 1948 na Praça José de Alencar, sendo presas diversas pessoas, inclusive dois vereadores e duas mulheres.


 ônibus na Praça Clóvis Beviláqua (arquivo Nirez)

O problema veio à tona novamente, dois anos depois, em virtude da aprovação da lei municipal que, garantindo o abatimento de 50% aos estudantes, também autorizou o transporte gratuito de guardas e dos funcionários dos Correios  em serviço.  

Os empresários de ônibus paralisaram o transporte, pois só aceitavam  o abatimento de 30% do valor da passagem dos estudantes. O prédio do Liceu do Ceará chegou a ser cercado pela polícia em razão das manifestações dos estudantes que resistiam contra a decisão dos empresários.

A deficiência do transporte urbano tornara-se comum às diferentes empresas do setor. Desde a década de 1930, funcionavam diversas linhas de ônibus, atendendo aos moradores da Praia de Iracema, Santos Dumont, São Gerardo, Joaquim Távora, Benfica, Fernandes Vieira, João Pessoa, Escola de Aprendizes Marinheiros e Parangaba. 

Como a maioria dos terminais se localizava na Praça do Ferreira, foi estabelecido que ali só poderiam demorar o tempo necessário para o embarque e desembarque de passageiros.

Parada de ônibus na Praça do Ferreira (arquivo Nirez)

De 1946 a 1949 o número de automóveis em Fortaleza subiu em mais de 100% e a quantidade de ônibus ultrapassava os 300%. No entanto, esses dados não significaram um serviço regular prestado à população. 

O crescimento representava a substituição dos antigos bondes, mas efetuado de maneira carente, pois a maioria dos veículos não estava em boas condições de funcionamento, e diversos deles permanecia muito tempo nos fins de linha, sem obedecer a horário regular.
 

Ônibus da Empresa Severino, que fazia a linha do Benfica (Arquivo Nirez)


Como o centro de convergência era a Praça do Ferreira, em 1948, jornais e a  emissora de rádio Ceará Rádio Clube manifestaram-se contra a decisão do prefeito Acrísio Moreira da Rocha de transformar a Praça do Carmo em local de estacionamento de ônibus. Reclamava-se que seria prejudicial colocar os veículos num logradouro tão distante do centro comercial. 

Na realidade, a distância representava apenas quatro quarteirões até a Praça do Ferreira. Na verdade, os motivos do protesto prendia-se ao fato de ali residirem diversas famílias que se sentiriam prejudicadas com o barulho dos carros, inclusive durante as missas diárias na Igreja do Carmo.

Os moradores dos bairros mais afastados também sofriam com a deficiência dos transportes urbanos. No Pirambu e em Messejana os moradores sempre reclamavam dos atrasos e da falta de cumprimento de horários. O problema de horário se agravava, sobretudo nas linhas que serviam a municípios vizinhos, como Caucaia e Maranguape.

 Ônibus que fazia a linha Prado da Viação César, ao lado da Escola Industrial ainda  em construção. Ano de 1947 (Arquivo Cepimar).

Nas linhas de Monte Castelo, São Gerardo e Coqueirinho sempre faltavam ônibus. A Viação Brasil chegou a retirar, temporariamente, de circulação os três ônibus que atendiam ao Pirambu, em virtude do calçamento esburacado, que ia da Fábrica José Pinto do Carmo até o fim daquela linha.  

Situação semelhante vivia os moradores de diversos bairros como a Parangaba. Os moradores do Km 8 protestavam contra a Empresa Tabajara, pois alguns de seus ônibus andavam sem freios e gastavam 45 minutos para chegarem à Praça. Além de os meios de transporte não atender aos reclamos da população, havia também as exigências dos poderes públicos de forma esparsa. 

 ônibus que fazia a linha Porangabussu

Como transitavam na cidade diversos carros em condições precárias, a Inspetoria de Trânsito passou a fiscalizar os transportes coletivos, principalmente por ocasião do emplacamento. Em 1949 foram retiradas de circulação duas camionetes que atendiam parte da população da Aldeota. Alguns meses depois, nove ônibus foram retirados dessa linha, pois pouca segurança oferecia aos passageiros. 

 Anos mais tarde o terminal de ônibus passou para a Praça José de Alencar (arquivo Fortalbus)

A Empresa Elery, concessionária da linha da Aldeota, uma das de maior circulação, tinha a maioria dos seus carros em péssimo estado. Como as exigências da Inspetoria de Trânsito enfrentavam barreiras ante a realidade, devido à falta de outro meio de transporte, foi permitida a volta dos velhos ônibus, ou seja, quatro dos nove que haviam sido retirados de circulação voltaram a servir à população. 

Consequentemente, as críticas contra a empresa aumentaram, pois os ônibus quebravam com frequência e viajavam com excesso de passageiros, o que se tornara comum em outros bairros da cidade.

Texto Retirado do livro de Gisafran Nazareno Mota Jucá
Verso e reverso do perfil urbano de Fortaleza

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Os Frequentadores do Café Avenida: Leota e Bulcão

O térreo do sobrado abrigou de 1916 a 1930, o Café Avenida, de Jaime Magalhães e a Loja Rosa dos Alpes. Mais tarde, o Café Globo (arquivo Nirez)
 
O café Avenida instalou-se na parte térrea e ocidental do Palacete Iracema, em certo tempo conhecido por Palacete da Economística, por haver ali funcionado uma sociedade de pecúlios, vulgarmente chamadas de solidaristicas. Funcionou até fins da primeira década, de repente desapareceu, e no mesmo local, anos depois, surgiu o café Globo, de Edilberto Góis Ferreira. Tinha entre seus frequentadores professores, médicos, desembargadores, poetas, e dentre eles, o folclorista Leonardo Mota, o Leota, uma das figuras mais destacadas da literatura cearense. 

 Leonardo Mota e Luiz Dantas Quezado

 Cego Aderaldo em companhia de outros artistas populares, divulgados por Leonardo Mota
Pesquisador da cultura popular, metia-se pelos sertões coletando a produção poética dos cantadores de viola, e demais manifestações da inteligência espontânea do homem do interior, para usando com critério esse material, proferir conferencias e publicar livros. Deste modo obteve um rico e valioso acervo, enquanto tirava do anonimato poetas como Cego Aderaldo,  Jacó Passarinho, Luis Dantas Quesado Azulão, Cego Sinfrônio, Serrador e Anselmo Vieira.  Seu livro “Cantadores” obteve repercussão nacional e juntamente com “Violeiros do Norte”, “Sertão Alegre” e “No Tempo de Lampião”, colocou-o entre os maiores nomes do folclore brasileiro.

Leonardo Mota, com dois mestres de rabeca

Leota foi também, um dos mais ilustres boêmios da Praça do Ferreira, bebia muito e não perdia a linha, o raciocínio perspicaz, o repente oportuno, a ironia brilhante. Era o grande palestrador dos cafés e dos bares. Assessor Especial do presidente João Thomé, ganhou deste, no fim do governo, um cartório, o mais cobiçado presente político daquele tempo.
Em pouco tempo, o Leota “bebeu” o cartório, e continuou na mesma pobreza típica de quem vive de cultura no Ceará. Quando dois de seus filhos passaram no concurso do Banco do Brasil, ele disse:  – já que não tenho dinheiro para botar no banco, boto filhos.


Gordo e chistoso, o boêmio carregava cento e tantos quilos de simpatia pelos bares, onde, a propósito de qualquer coisa, gritava: Viva o Coronel Franco Rabelo! 
Rabelo tinha sido governador do Ceará deposto pela Sedição de Juazeiro de 1914, liderada pelo Padre Cícero e por Floro Bartolomeu, mas continuava amado na memória do povo de Fortaleza, que o apoiara.
 
Nos anos trinta foi o tempo em que Leota mais rendeu homenagens ao deus do vinho. Arranjava pretextos para beber. Quando da morte do poeta Carlos Gondim, assassinado em 1930, no enterro, prometeu ao falecido, que iria beber em todos os bares que encontrasse, pelo poeta e pela sua tristeza pela perda do amigo. 


O custo da boemia foi alto para Leota. Além dos reumatismos e das taquicardias, adquiriu uma barriga d’água, o ventre cresceu assustadoramente, ao ponto de não poder andar. Quando os tratamentos médicos não deram resultado, procurou as comadres do Calçamento da Messejana que lhe ensinaram um chá da folha da figueira.  Curado, reencontrou o caminho da Praça do Ferreira e, é claro, do bar.


Nos últimos anos de sua vida, o folclorista de Pedra Branca largou a atuação boêmia e foi tomado de intensa religiosidade, passando a pesquisar a vida dos padres cearenses e a compilar dados sobre a ação catequética da Igreja Católica no Ceará. Encheu as paredes de casa de fotos eclesiásticas e as gavetas de orações, ladainhas e benditos. O grande Leonardo Mota morreria aos 57 anos, em 1948.


Outra presença marcante nos Cafés Riche e Avenida foi José Pedro Soares Bulcão. Homem alto, de porte elegante, usava um chapéu de abas largas e um bigode farto que lhe escondia o lábio leporino. Jornalista, poeta e genealogista, foi deputado estadual, membro da Academia Cearense de Letras e do Instituto do Ceará. Publicou Parêmias, um livro de trovas em que se utilizava de provérbios famosos para compor suas redondilhas.

Sério e franco, tinha fama de valente. As pessoas iam com jeito quando falavam com ele, porque sua franqueza era conhecida. Mas também tinha momentos de humor. Uma vez estava na porta do Café Riche, conversando com José Albano, Mozart Pinto e Quintino Cunha, quando chega um rapaz que se dizia seu eleitor, lhe pedindo emprestado vinte mil réis. Bulcão pergunta ao moço: 
– porque você não pede logo de esmola? É muito mais honesto. 
– Mas Dr. Bulcão, se eu, um rapaz forte e sadio, fosse pedir esmolas, ninguém dava..! 
– Dava. Experimente. 
– Pois Dr. Bulcão, me dê uma esmola, pelo amor de Deus 
– Perdoe.

extraído do livro de Juarez Leitão
Sábado, estação de viver 

terça-feira, 31 de julho de 2012

Bairros de Fortaleza: Mucuripe



Localizado na zona leste de Fortaleza, o bairro do Mucuripe limita-se ao Norte com o Oceano Atlântico; ao Sul com a Varjota; a Leste com os bairros Serviluz e Vicente Pinzon e a Oeste, com o Meireles.  Sua origem remonta aos tempos  das grandes navegações e do descobrimento do Brasil, quando no ano de 1500, antes mesmo da expedição de Pedro Álvares Cabral, o local teria sido visitado pelo navegador espanhol Vicente Pinzon, que supostamente desembarcou na enseada do Mucuripe e batizou o local de Cabo de Santa Maria de La Consolacion. 

Por muitas razões acredita-se que o Santa Maria de La Consolacion é a chamada ponta do Mucuripe, e que Pinzon descobriu o Brasil tocando as praias do Ceará.

 Morro de Santa Teresinha

Até por volta do ano de 1930, havia no Mucuripe, não longe do farol e para o Poente, os restos de uma construção muito antiga. Acredita-se que essas ruínas fossem os últimos vestígios das três baterias que ali existiam em 1802, ( Baterias da Princesa Carlota,  de São João Príncipe e  de São Pedro Príncipe) citadas pelo Dr. Carlos Studart Filho, em uma matéria publicada na Revista do Instituto do Ceará.

Segundo historiadores,  foram construídos os seguintes fortes na ponta do Mucuripe:  Fortim de São Bartolomeu, Fortim de São Bernardo do Governador (Fortim de São Luis), Fortim da Bandeira, além das  três  baterias citadas, que foram erguidas para complemento da defesa da enseada de Mucuripe e seu ancoradouro. Provavelmente são contemporâneas,  erguidas a partir de 1802 por determinação do governador da Capitania do Ceará, Bernardo de Manoel de Vasconcelos.


Durante muitos anos o Mucuripe foi um bairro de pescadores, mas com a expansão da cidade, e a valorização dos terrenos do litoral a partir da abertura da Avenida Beira Mar, a orla marítima do bairro tornou-se uma das áreas de maior especulação imobiliária de Fortaleza.  

  Igreja de Nossa Senhora da Saúde

A Igreja Nossa Senhora da Saúde foi fundada pela própria comunidade de pescadores do Mucuripe. O padre José Nilson marcou a história do bairro por causa da relação próxima com a comunidade e da luta pelas melhorias do local.

Conforme conta o padre Alderi, responsável atual pela igreja, antes da chegada do antigo pároco, a comunidade do Mucuripe era esquecida e nenhum religioso ficava mais de dois anos no comando da paróquia. Em maio de 1950, padre Zé Nilson foi enviado ao Mucuripe por Dom Antônio de Almeida Lustosa, com a previsão de ficar somente dois anos, como seus antecessores. No entanto, o religioso acabou ficando por 50 anos na defesa da comunidade. “Ele estava sempre junto aos pescadores. Pescava com eles e escutava suas histórias”, revela o padre Alderi.



A Imagem de N. Senhora da Saúde, na praça da matriz,  é um trabalho do escultor Deoclécio Diniz, conhecido por "mestre Bibi" ou "Bibi Santeiro". Morador de Canindé, mestre Bibi ganhou fama produzindo imagens sacras de grandes dimensões. 


O Farol do Mucuripe foi construído entre 1840 e 1846, sendo desativado em 1957, por ter se tornado obsoleto. Foi restaurado pela primeira vez em 1982, para sediar o Museu de Fortaleza. Tombado como Patrimônio Histórico o antigo farol está localizado na Esplanada do Mucuripe próximo ao Cais do Porto.


Cemitério São Vicente de Paulo. Construído em 1912, foi  o segundo cemitério público de Fortaleza. É o menor cemitério da cidade ,e segundo dizem, encontra-se superlotado desde os anos 1970.

Praça Amigos da Marinha


O busto do Almirante Tamandaré ficou por longo tempo na Praça de Otávio Bonfim, até ser substituído pela estátua de Farias Brito, inaugurada em 1963.



O primeiro projeto relativo a instalação do porto do Mucuripe foi apresentado em 1870, por um engenheiro inglês, que recomendava o inicio das obras na enseada ali existente. Mas somente em 1886 os trabalhos foram iniciados. Apesar do conhecimento das condições do ancoradouro na ponta do Mucuripe, a quase ausência de arrecifes era apontada como um ponto desfavorável à instalação do porto naquele local.

Em pouco tempo a intensidade das ondas destruiu o que já havia de obras inclusive o próprio ancoradouro, o que foi determinante para o abandono do projeto. E as mercadorias continuaram sendo levadas em embarcações pequenas para os navios que ficavam a 500 metros da praia. Conta-se que as mercadorias chegavam molhadas e quem desembarcava não deixava de tomar um banho salgado.

Em 1908 foram feitos novos estudos e a construção do porto foi contratada e iniciada, Mas as obras federais em andamento no Nordeste foram suspensas ao final do governo do Presidente Epitácio Pessoa (1919-1922), quando somente 250 metros de viaduto haviam sido construídos, de um total de 800 metros projetados.

A morosidade da obra passou a fazer parte do anedotário popular, segundo o qual havia três sinfonias inacabadas em Fortaleza: a catedral, o cine São Luis e o porto do Mucuripe.
O porto foi sendo inaugurado por partes, e com grande espaço de tempo entre a finalização de cada etapa. 


Entre o inicio do segundo projeto e o final das obras, a construção do porto do Mucuripe durou mais de setenta anos, num monumental atestado de incompetência, passado por diversos governos estaduais, consumiu recursos incalculáveis e de quebra, destruiu a Praia de Iracema.

O Porto tornou-se um obstáculo para o fluxo de areias do litoral leste para o oeste, causando a drástica diminuição da faixa de praia na região da Praia de Iracema e o progressivo abandono das atividades portuárias e comerciais na área.

fotos de julho/2012
por Rodrigo Paiva e Raquel Vianna 

Pesquisa
Fortaleza Velha, de João Nogueira
Geografia Estética de Fortaleza, de Raimundo Girão
Verso e Reverso do Perfil Urbano de Fortaleza, de Gisafran Nazareno Mota Jucá
Wikipédia