quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Avenida Francisco Sá - o Primeiro Polo Industrial de Fortaleza

O nome da avenida homenageia o deputado provincial, ministro de Viação e Obras Públicas dos governos Nilo Peçanha e Artur Bernardes, e da Agricultura, Indústria e Comércio de Nilo Peçanha, deputado geral, deputado federal e senador de 1906 a 1927, Francisco Sá casado com Olga Nogueira Pinto Accioly, filha do presidente do Estado Antônio Pinto Nogueira Accioly. Começa na Avenida Filomeno Gomes, no Jacarecanga e termina na Avenida Coronel Carvalho, na Barra do Ceará, próxima ao limite Fortaleza/Caucaia. Tem aproximadamente 6,5 quilômetros de extensão e mais de 7 mil números.

Ponte sobre o riacho Jacarecanga - 1919

A Avenida Francisco Sá é hoje a continuação da Rua Guilherme Rocha, que termina na esquina com a Avenida Filomeno Gomes. Mas nem sempre foi assim. Até por volta de 1912, a Rua Guilherme Rocha acabava na então Praça Fernandes Vieira (atual Praça Gustavo Barroso a partir de 1960, mais conhecida como Praça do Liceu), e o caminho era interrompido devido a presença de várias casas, inclusive a do antigo intendente de Fortaleza, Coronel Guilherme Rocha.
 
Para além da Praça Fernandes Vieira havia um estreito caminho de terra que seguia até o ponto em que hoje se encontra a Avenida Dr. Theberg, onde havia um sítio denominado Santo Antônio da Floresta, de propriedade do Coronel Antônio Joaquim de Carvalho que assinalava o final da via. Com a revolta urbana de 1912, que depôs o presidente Nogueira Accioly, as residências do oligarca e de todos seus aliados e colaboradores foram incendiadas, inclusive a do intendente Guilherme Rocha, que fechava a Rua Guilherme Rocha. Removidos os escombros, a rua foi aberta, ligando-se ao caminho de areia.

Em 1926 uma lei municipal denominou a continuação da Rua Guilherme Rocha, a partir da Praça Fernandes Vieira, de Avenida Demóstenes Rockert, nome de um antigo diretor da Rede de Viação Cearense, que elaborou todo o projeto para a construção da nova oficina da RVC que seria construída na via.

A oficina foi construída em terras do Sítio Santo Antônio da Floresta, doadas pelo coronel Antônio Joaquim de Carvalho, que tinha interesse em valorizar suas terras. O empreendimento ficou conhecido como “Oficina do Urubu” porque havia nas proximidades um grande aterro de lixo, que atraía muitas aves da espécie. A própria avenida era chamada informalmente de “Estrada do Urubu”. Dois anos antes da conclusão das obras, já se discutia a necessidade de uma artéria mais moderna para a região. A reivindicação foi atendida em 1931, quando o então prefeito Antônio Urbano de Almeida, inaugurou a pavimentação da avenida Demóstenes Rockert, toda em pedra. Com 2600 metros, o novo acesso unia o bairro do Jacarecanga ao Hidroporto Condor, na Barra do Ceará.

Uma das mais belas residências daquela região, foi construída em 1924, planta copiada de um imóvel de Portugal, em estilo art-nouveau, para ser a moradia de Thomaz Pompeu Sobrinho. Com 38 cômodos em quatro andares feitos com materiais importados da Europa, tinha porão habitável, salão de festas, quartos e salas com as dimensões de alguns apartamentos atuais. Atualmente abriga a Escola de Artes e Ofícios Thomaz Pompeu Sobrinho. 

Por essa época, já havia muitos moradores no trecho inicial da avenida, a maioria egressos do centro da cidade, que começava a ganhar ares mais comercial. Esses novos moradores ocuparam os primeiros quarteirões da Avenida Demóstenes Rockert, com residências de alto padrão e chácaras de veraneio, todas em amplos terrenos e com dois pavimentos, muitas delas, réplicas de imóveis europeus. Muitos dos casarões, dos bangalôs e das antigas construções, ainda estão lá, com outros usos, alguns conservados, a maioria não. Contam a história de uma época em que o Jacarecanga era o espaço predileto das elites de Fortaleza. 

Residência de Pedro Philomeno Gomes, na esquina das avenidas Francisco Sá e Philomeno Gomes, com suas escadarias, seus terraços e seus portões de ferro batido. depois  foi reformada e perdeu todos os detalhes decorativos. Mais tarde, foi demolida e construído no local um prédio de apartamentos.

Com a melhoria da via de acesso, vieram as indústrias, como o empreendimento de Pedro Philomeno Ferreira Gomes e das famílias Frota e Siqueira, que depois passaria a se chamar Fábrica de Tecidos São José, que se mudou para a “estrada do urubu” em 1926. Logo depois, em 1927 veio a Indústria Têxtil José Pinto do Carmo. A existência da linha férrea, responsável pelo escoamento da produção agropecuária, que atraiu estabelecimentos fabris no período da crise nas exportações de algodão, foi um dos principais atrativos para a instalação de indústrias na região; também pesou a questão dos custos logísticos, que caíam consideravelmente com um número maior de empresas localizadas no mesmo corredor comercial. Por fim, outro fator motivador,  era a abundância de mão de obra disponível naquela parte da cidade.

 Fábrica Brasil Oiticica, que instalou-se na Francisco Sá em 1934

Instalada em 1926, a Fábrica de Tecidos São José,  foi durante muitos anos a maior fabricante de redes do Brasil. A empresa possuía um parque fabril que ocupava área de 26.000 metros quadrados, empregando mais de mil operários.

Aconteceu que o número de empresas instaladas aumentou exponencialmente, e a concentração de empresas atraiu a classe trabalhadora e vários serviços para a área, mais espantou as famílias ricas para a Aldeota, Praia de Iracema e Benfica. Com o passar do tempo muitas dessas empresas se mudaram da Francisco Sá em busca de melhores condições em outras zonas industriais, como a de Maracanaú, deixando grandes áreas vazias.

Ultimamente, pouco a pouco, novos comércios e empreendimentos começaram a movimentar a região dando um novo perfil a avenida, com a instalação bancos, lojas, supermercados, farmácias, condomínios e pequenas fábricas. Em 1936, a Avenida Demóstenes Rockert, a velha "Estrada do Urubú" passou a ser chamada oficialmente de Avenida Francisco Sá.

fotos: Fortaleza em Fotos, Arquivo Nirez, IBGE, Brasiliana Fotográfica   
   

domingo, 29 de outubro de 2017

Bairro São Gerardo

Localizado na área da Secretaria Regional I (SER I) O bairro São Gerardo foi criado em 1930, e herdou o nome da Igreja de São Gerardo, onde no lugar da igreja atual havia uma capela originalmente construída em 1925, quando o lugar era conhecido por Alagadiço Grande.



Certa vez um padre italiano acusou os artesãos cearenses de inventarem nomes de santos que não existiam, e no caso de São Gerardo, parece que a alegação procede. O nome do Santo é Geraldo Majela, nascido em Muro Lucano, Itália, no dia 6 de abril de 1725. De constituição física muito frágil, cresceu sempre adoentado, aprendendo com o pai seu ofício de alfaiate. A vocação religiosa sempre latente, foi relegada a 2° plano porque não era aceito pelas ordens religiosas, só conseguindo seu intento em 1749, quando ingressou na Ordem dos Padres Redentoristas, sendo enviado para o convento de Deliceto, em Foggia. De saúde delicada, Geraldo Majela faleceu no dia 16 de outubro de 1755, aos 30 anos de idade. Foi beatificado em 1893 e canonizado em 1904 pelo Papa Pio X. 

paróquia de São Gerardo (imagem http://fecappes.blogspot.com.br)

A exemplo de muitos outros bairros e até cidades no Ceará, o São Gerardo se formou no entorno da igreja. A primeira capela dedicada a São Gerardo nasceu da iniciativa de um grupo de catequistas que conseguiram a doação de um terreno localizado na Avenida Bezerra de Menezes, por parte do casal Gaudioso e Donatila de Carvalho, no ano de 1924. Obtido o terreno, passaram a trabalhar para arrecadar recursos para a construção da capela, cuja pedra fundamental foi lançada no dia 25 de agosto do mesmo ano. Em 18 de outubro de 1925 o templo foi inaugurado e recebeu a primeira benção. No dia 19 de julho de 1934, a pequena capela, reformada e ampliada, foi elevada ao status de Paróquia de São Gerardo Majela pelo Arcebispo Dom Manoel da Silva Gomes.


Mas a capela de São Gerardo, não foi a primeira daquela região. Bem antes, em 1865, foi erigida a capela de São Francisco de Paula, na Avenida Bezerra de Menezes, número atual 2590, construída em pagamento de uma promessa feita por Antônio Francisco de Góis e sua mulher Angelina de Castro Góis, por não terem nenhum membro da família entre as vítimas da epidemia de cólera que atingiu o Ceará no século XIX. Localizada na então Vila Góis, a capela foi a primeira edificação da avenida Bezerra de Menezes.
Em 1928 o templo ganhou reforma e ampliação patrocinadas por Braz de Francesco Ângelo, que foi cônsul da Itália e nomeia uma rua próxima a igreja, no cruzamento com a Bezerra de Menezes. 
  
Avenida Bezerra de Menezes - anos 30

Por esse tempo a Bezerra de Menezes era uma via muita larga, com pavimentação tosca e irregular, repleta de pés de fícus benjamins, árvores de grande porte, de copa densa, centenárias, que ali cresceram e naturalmente se postaram ao longo da via formando canteiros e alamedas no centro, que dividiam a avenida, fazendo a separação em toda a sua extensão.

As árvores que sombreavam a avenida serviam de abrigo e proteção contra o sol forte para os passageiros do bonde do Alagadiço, que fazia o maior percurso de linha e tinha parada em frente a capela. A avenida foi modernizada na gestão do prefeito Murilo Borges (1963-1967) e perdeu seu antigo charme da avenida extensa, sombria, com árvores envelhecidas e frondosas.As residências eram em sua maioria constituídas de sítios, chácaras e mansões, dotadas de porões e enormes quintais com mangueiras e onde se cultivavam frutas e hortaliças.

Villa Meton localizada nas imediações onde hoje se encontra a Secretaria de Agricultura na Avenida Bezerra de Menezes. Na vizinhança, João Tibúrcio Albano escolheu para nome de seu sítio "Ville Nous Autres", chácara que foi objeto de curiosidade e apreço pela distinção da família que a habitava. (imagem do livro Ideal Clube - história de uma sociedade)

Hoje o bairro é considerado de renda média alta, com alta valorização de imóveis e com forte perfil comercial, tendência que ficou acentuada desde 1991 com a inauguração do North Shopping, o maior daquela região. A instalação do shopping atraiu um sem número de novos comércios e prestadores de serviços dos mais variados. Outro estabelecimento tradicional no São Gerardo é o Colégio Santa Isabel, prestigiada instituição de ensino, presente no bairro desde 1938.


Em dezembro de 2015 foi concluído um custoso processo de intervenção, visando a melhoria da qualidade ambiental com a recuperação da Lagoa do Alagadiço. Durante muito tempo o ecossistema formado pela lagoa ficou esquecido pela população, encoberto pelo lixo e pelo matagal. Com a recuperação, voltou à vista a beleza paisagística do lugar transformado em uma grande área de lazer. Com a conclusão dos serviços de desassoreamento e dragagem, o volume de armazenamento da lagoa passou a ser de aproximadamente 150.000m³. A lagoa do Alagadiço é formada pelas águas do Açude João Lopes e de afluentes do Rio Maranguapinho, como o riacho Alagadiço.
          

Outro importante equipamento do bairro, é o Polo de lazer da Avenida Sargento Hermínio, originalmente instituído como um bosque, na gestão do prefeito Evandro Aires de Moura, em 1975. O bosque é a única área de preservação situada na Regional I, além de ser a maior área verde na bacia hidrográfica do riacho Alagadiço. É localizado oficialmente no bairro do São Gerardo, dentro de uma área correspondente a 39.259,53 m² (4 hectares), caracterizando-se como Zona de Preservação Paisagística.  As obras duraram 5 anos e o local só foi inaugurado em 1981. Em 2008 foram iniciadas obras de requalificação do polo de lazer que se encontrava praticamente abandonado. O projeto foi concluído em 2016. 

Limites
Norte – Avenida Sargento Hermínio, Avenida Canal e Rua Cassimiro Montenegro; Sul – Avenida Bezerra de Menezes e Rua Azevedo Bolão;
Leste – Rua Téofilo Gurgel e Padre Graça; 
Oeste – Avenida Humberto Monte e Rua Joaquim Marques.
População: 14.200 habitantes em 4.414 domicílios (IBGE-2010)


fotos: Arquivo Nirez, Fortaleza em Fotos, O Povo. 



quinta-feira, 26 de outubro de 2017

A Adesão do Ceará à Proclamação da República

Não havia nada de positivo, de real, sobre os acontecimentos da Corte. Os boatos, no entanto, fervilhavam. Dizia-se alto e em bom som – não se fazia mistério, nem se pedia reserva – que a Monarquia caíra, e no Rio de Janeiro, fora proclamada a República. Tudo, porém, vago, incerto, de origem duvidosa.

A primeira comunicação, pelo fio, fora para importante casa comercial, cujo chefe em pessoa, a levara ao presidente da Província, coronel Jerônimo Rodrigues Morais Jardim (11/10/1889-16/11/1889). Ainda assim, o despacho telegráfico era um tanto lacônico, confuso em suas entrelinhas. Não parecia verdadeiro. Era natural, portanto, que fosse recebido com cautela. Dizia apenas que graves acontecimentos se desenrolavam na capital do país.
“o Ministro da Marinha, Barão de Ladário, fora mortalmente ferido por tiros e golpes de sabre ao entrar no Arsenal de Marinha. O Marechal Deodoro se colocara à frente do exército e agia contra o governo”.
Era o primeiro anúncio do levante republicano. Correu célere como um raio. Em poucos minutos Fortaleza em peso se manifestava. Nas praças, nas ruas, nos botequins e nos cafés era o assunto obrigatório entre os populares. O coronel Morais Jardim, como medida acauteladora, convocou uma reunião em palácio. Dela participaram as pessoas mais em evidência no meio político e social.

Deodoro da Fonseca liderou o movimento para implantar a República; foi o primeiro presidente e renunciou em 1891.

O presidente expôs a situação, gravíssima naquele momento. Falou com lealdade e franqueza, sobre o que sentia e o que pensava. Confessou pesaroso, em face dos boatos insistentes, as circunstâncias especiais em que se encontrava, afirmando por fim que precisava do auxílio de todos para manter a ordem pública. E aconselhou que aguardassem, prudentemente, os acontecimentos.

As 2 horas da tarde de 16 de novembro de 1889, aconteceu uma grande reunião no Passeio Público, com acalorados debates sobre o polêmico assunto. Manuel Bezerra de Albuquerque, o principal indicador e promotor dessa reunião, João Cordeiro, João Lopes, Barbosa Lima, Joaquim Catunda, Lobato de Castro, Bezerril Fontenele, e outros ali se encontraram.

Todos confraternizados com a Guarnição de 1ª. Linha e sob a indicação do primeiro citado, proclamaram “bem e legitimamente constituído o governo provisório instalado no Rio de Janeiro, sob a presidência do Marechal Deodoro da Fonseca. E considerando a Província do Ceará – Estado da República – aclamaram chefe do Poder Executivo neste Estado, o tenente-coronel Luiz Antônio Ferraz, que era então, comandante do 11° Batalhão de Infantaria.  

O Passeio Público era bastante conhecido da população. Tinha o seu passado emocionante e glorioso. Havia sido o local onde tombaram, vítimas da rememorada Comissão Militar, Mororó, Pessoa Anta, Carapinima, Ibiapina e Azevedo Bolão, cujas figuras sintetizam o tributo de sangue que coube ao Ceará na temerária adesão à Confederação do Equador.

Foi nesse logradouro, segundo uma testemunha do fato, que em um dos bancos estava uma bandeira com a haste respectiva, notando-se que ao invés da coroa imperial que nela existia, havia sobreposto o símbolo da nova forma de governo. 

Palácio da Luz - 1908 (arquivo Nirez)

Em passeata, Ferraz foi conduzido ao palácio, e ao som da banda de música do batalhão de seu comando. Lá chegando, Manuel Bezerra dirigiu-se ao presidente da Província: – “Coronel Jardim, o povo e a tropa de mar e terra , reunidos na praça pública, acabam de aclamar governador do Estado Livre do Ceará, o cidadão coronel Luiz Antônio Ferraz.”

Não houve relutância da parte do coronel Morais Jardim. O velho militar, soldado experiente, com trinta e cinco anos de caserna, compreendeu a gravidade do momento. Qualquer resistência seria inútil. Não contava mais com o apoio do povo. Estava só.
Além do mais, o governo central nada lhe dissera. Silêncio profundo. Sua provocação oficial, perguntando com insistência o que se passava na metrópole ficara sem resposta até aquela hora. Não havia outro remédio senão entregar-se a discrição dos seus antagonistas.

Passeio Público em 1908

Num discurso incisivo, eloquente, Morais Jardim referiu-se a situação crítica da Província. Apelou para o patriotismo dos cearenses, que no seu modo de ver, deviam manter a ordem pública a fim de evitarem problemas maiores. Declarou por fim, ceder à vontade do povo imposta daquele modo.

Os ânimos, porém, já estavam por demais exaltados. Quando o coronel Jardim discursava perante a multidão que o cercava, em justificativas do seu modo de agir, em face do imprevisto daqueles fatos, que era o advento de um novo regime, um incidente desagradável ao extremo, perturbou por alguns instantes a serenidade do ato.

Dom Pedro II aos 44 anos de idade. Tinha 64 quando foi deposto.

Um Oficial de Polícia, de nome Artur Saboia de Alencar, subiu numa cadeira, sacou de um punhal e rasgou em contínuos golpes, o retrato de Dom Pedro II que ornava a galeria do Palácio, atacando assim a figura varonil do velho monarca, grande benfeitor do Ceará, que ele tanto serviu e desejava próspero e feliz. O que vale, ressaltam os jornais da época, é que o ato de tão vil, não encontrou apoio na multidão. Todos o censuraram.

Morais Jardim, acabrunhado, deixou o Palácio recolhendo-se à casa do seu grande amigo conselheiro Rodrigues Júnior. E assim foi a adesão do Ceará ao triunfante movimento republicano de 1889.

Revista do Instituto do Ceará, artigo de Eusébio de Sousa
1934. 

terça-feira, 17 de outubro de 2017

A Inauguração e os Primeiros Tempos do Teatro José de Alencar

A inauguração do Teatro José de Alencar, em 17 de junho de 1910, foi marcada por uma programação composta de apresentações musicais e inúmeros discursos oficiais, numa festa que se estendeu por três dias seguidos. Constituiu-se, sobretudo, em ato de louvor ao presidente Antônio Pinto Nogueira Accioly, que havia chegado recentemente do sul do País.


Além dos elogios de praxe, o orador oficial pregou contra a permissividade e os vícios que os atores, artistas em geral e as artes espalham na sociedade. Em artigo posterior, publicado no "O Povo", JC Alencar Araripe, assim descreve as festividades: “ tudo fora feito de maneira a emprestar a maior importância possível à recepção do prestigioso chefe político. Formaram o Batalhão de Segurança e os alunos do Liceu, realizaram-se espetáculos de gala em todos os cinemas, os cafés foram ornamentados, bandas de música alegravam a cidade com retretas, fogos de artificio subiram ao ar em várias oportunidades, e o Palacete Guarany regurgitou com um banquete de 200 talheres. A cerimônia inaugural contou com o alto mundo oficial e o escol da sociedade. O teatro, feericamente iluminado, oferecia um espetáculo soberbo.”


O programa de inauguração foi aberto por um concerto da banda sinfônica do Quartel do Batalhão de Segurança, ao término do qual o Dr. Nogueira Accioly sentou-se a uma grande mesa, colocada no centro do palco, rodeado de seu secretariado e de algumas outras figuras da elite local. Com três golpes de martelinho na mesa, Accioly declarou inaugurado solenemente o teatro.

Como orador oficial, discursou o Dr. Júlio César da Fonseca, com algum exagero verbal: “ afinal temos um teatro, depois de tantos projetos vãmente elaborados, de tantas iniciativas perdidas e tantos tentames malogrados. Está satisfeita a necessidade que cotidianamente acentuava num relevo imperiosamente clamante.” Em seguida foi executado o Hino Nacional.

O primeiro diretor do Teatro José de Alencar foi Faustino de Albuquerque, (que mais tarde seria governador do Estado). Mas somente ao final do terceiro mês de sua gestão, o teatro receberia seu batismo de grande público, com a temporada da companhia carioca de Lucília Perez, iniciada em 23 de setembro.

Aspecto da Rua Barão do Rio Branco - antiga Rua Formosa - à época da inauguração do Theatro José de Alencar

O início de funcionamento do majestoso teatro foi de altos e baixos. Várias companhias de teatro se apresentaram no local, a maioria, com grande público na estreia, e bilheteria escassa na sequência, a exemplo da temporada inaugural, que foi bem sucedida na estreia, mas já com esvaziamento de público nas apresentações seguintes. 

Em Janeiro de 1911, “A Pérola”, comédia drama de Marcelino Mesquita, consagrado autor português, apresentada pela Companhia Francisco Santos, fez temporada no teatro. Após as primeiras apresentações, o jornal “A República”, publicou a seguinte nota: “E no entanto, as bellezas de muitas scenas d’A Pérola resistiram ao ambiente de indiferença e de frieza e a correção, o calor, a vida da representação, pozeram-se em destaque na quase solidão, que reinava no recinto do teatro”.

Outra peça apresentada, “A Tosca” de Victorien Sardou, drama de grande sucesso – segundo os jornais – trazia Maria Castro como protagonista. Com esta apresentação, a famosa atriz homenagearia seus conterrâneos mais ilustres, entre eles, Papi Junior e Hermínio Barroso. E novamente, reclama o jornal: “É  injustificável essa indiferença para com uma companhia digna de nosso franco acolhimento pelo conjunto mais ou menos harmônico do seu elenco, em que se notam artistas de real merecimento e pelo primor das peças de seu variado repertório. Camarotes inteiramente vazios, frisas em sua quase totalidade abandonados, occupadas algumas dezenas de cadeiras da primeira ordem e poucas da segunda – tal era o aspecto do Theatro José de Alencar, em a noite hontem”.

Sucedem-se temporadas de peças apresentadas, com larga vantagem, por companhias de fora do Estado, algumas das quais de operetas, como a da atriz espanhola Dolores Rentini. O público, porém, continuava retraído, e as peças começaram a rarear. O insucesso era tanto, que o teatro foi forçado a fechar as portas.

Maestro Henrique Jorge com a mulher e a filha no Passeio Público. Foi um dos regentes da orquestra do Batalhão de Segurança no concerto de inauguração do teatro, e mais tarde, um dos seus diretores 

Em 1915, o maestro Henrique Jorge, então diretor do teatro, queixava-se: “a receita tem sido quase nulla, o que se explica pelo facto de ser o theatro pouco procurado para o fim a que se destina, isto, em grande parte devido aos inconvenientes acima apontados.” Os tais inconvenientes resumiam-se praticamente a um: o extremo calor que fazia no interior do teatro, devido à iluminação carbônica local, sem abertura que permitisse a circulação de ar. Além disso, o primeiro regulamento do TJA, declaradamente repressivo,  aconselhava terno e gravata para os homens, bem como traje de gala para as mulheres. O mesmo regulamento impunha a presença de três inspetores, que em comissão, censuravam textos e proibiam gestos indecorosos, além de qualquer expressão de desrespeito à moral vigente, a seus juízos.


Nesse período, os frequentadores do teatro se distribuíam desigualmente na plateia. Enquanto a elite, com seus trajes vistosos, ocupavam os camarotes, estudantes e pequenos empregados do comércio apinhavam-se nas gerais, depois chamadas torrinhas, onde as moças não deviam frequentar. Para todos havia regras rigorosas de comportamento, que incluíam desde a proibição do uso de chapéus (para não atrapalhar a visão dos demais), passando por horários precisos para o início e o término dos espetáculos, e até multas e prisões para os atores que se recusassem a representar.

Ainda em 1915, em razão da quase ausência de programação, o teatro passou dois anos de portas fechadas, tendo como principal motivo, a questão do desconforto causado pelo calor excessivo gerado pelos combustores de gás carbureto usados na iluminação. Daí o teatro passou pela sua primeira reforma, acontecida em 1918, durante o governo de João Thomé de Saboia, que mandou instalar iluminação elétrica, substituiu o asfalto do pátio interno por ladrilhos, abriu portas laterais na plateia e consertou o telhado. 

Enquanto isso, Carlos Câmara enchia, nos fins de semana, o seu teatro improvisado do Grêmio Dramático Familiar, no bairro Joaquim Távora.

Fonte:
Theatro José de Alencar – O Teatro e a Cidade 
Coordenação Editorial – Patrícia Veloso 
fotos do arquivo Nirez e do livro O Teatro e a Cidade          

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

O Disciplinamento das Ruas

A rua é uma rede emaranhada de vivências, cuja origem se perde no tempo e se confunde com a existência das cidades, fazendo parte da memória do mundo, abrigando tanto os grandes acontecimentos como os pequenos incidentes do cotidiano. É local de intenso fluxo de mudanças, de movimento e de novas relações sociais. Tem a sua importância como um dos lugares das experiências humanas nas cidades.


atual Rua Formosa - 1908

A partir de princípios do século XIX a rua vai ganhando um novo prestígio dentro do nosso sistema de relações sociais. Ela deixa de ser apenas um lugar para as águas servidas dos sobrados, da escuridão, de poças de lama, bicho morto, etc, e passa a ganhar dignidade e importância social.
Um dos exemplos dessa mudança é o aparecimento no início do século XIX dos primeiros Códigos de Posturas Municipais, que procuravam defender a rua, inibindo os abusos cometidos por particulares e das residências, que se instalavam nas cidades com os mesmos modos e com a mesma arrogância da casa de engenho ou da fazenda, fazendo da calçada picadeiro de lenha, atirando no meio da rua o bicho morto, o resto de comida, a água servida, e as vezes, até a sujeira do pinico.


atual Rua Liberato Barroso s/data

Tais posturas fixaram, assim, a importância, a respeitabilidade e os direitos da rua, antes tão violados. Com elas criaram-se restrições à liberdade dos particulares, proibindo-se, aos proprietários das casas, certos absurdos, como o hábito de criar animais soltos na via pública, e as bicas que lançavam águas pluviais sobre as calçadas. Também foram proibidas a lavagem de roupa nas bicas do centro da cidade pelas negras dos mucambos, e a surra de escravos por parte dos senhores depois que o sino da matriz badalasse nove horas da noite.
No entanto, o que se procurou com esses códigos de Posturas, foi dar uma nova e mais eficaz funcionalidade à cidade, para que seu ordenamento de hábitos, de sociabilidade e dos espaços de vivências estivessem de acordo com as pretensões civilizatórias e modernas.


Lagoa do Garrote, no Parque da Liberdade (Cidade da Criança)

No relato de suas memórias de infância, Gustavo Barroso nos fala de um passeio pela manhã de 5ª. Feira, dia de folga (não houve aula), que realizara com sua tia até o Parque da Liberdade, onde existia “....grande lago represado em magelas de cimento como um tanque, que foi a antiga Lagoa do Garrote”. Naquele dia, ele vira no reservatório do Pajeú, “caboclinhos e moleques” a tomarem banho livremente, o que lhe causou inveja, mesmo que por um instante, por não poder brincar como eles, porque era um filho-família. O episódio por si só demonstra a diferença de hábitos, sendo o banho de lagoa e/ou rio um costume que não deveria ser mais praticado, por ir de encontro às posturas do município, que não só proibia o banho nos reservatórios públicos, como ameaçava com punição ao infrator. O titulo VI em capitulo de n° II legisla sobre “bulhas, vozerias, obscenidades e ofensas à moral” com a novidade: punição para a pessoa que se banhar à luz do dia “no corrente da Rua do Poço, na Lagoa do Garrote, Pajeú e outros lugares expostos às vistas dos viandantes ou de quem estiver em casa”. 


O Açude do Pajeú ficava no atual Parque Pajeú (ou Parque das Esculturas) localizado entre a rua 25 de Março e a Avenida Dom Manuel. (foto anuário do Ceará)

Entretanto, essa regra municipal que atenta para a condução e preservação de um pudor e de uma moral comunitária, já estava presente em códigos anteriores, em que os banhos na Lagoa do Garrote, em que se empenhavam os rapazes nus, provocou a vigência do artigo 70, de posturas de 11 de maio de 1849, proibindo a apresentação de qualquer pessoa despida das seis da manhã às 6 da tarde.
Se as mudanças do espaço urbano se deram já na primeira metade do século XIX, seria no entanto, a partir da segunda metade que a rua iria sofrer significativas alterações, isso porque essas modificações eram fruto de um processo de transformação capitalista do mundo, e da expansão de uma nova ordem burguesa que ora se mundializava atingindo em cheio as mais diversas áreas.
Em decorrência, o que aconteceu nesse contento foi a emergência de uma ordem urbano-industrial que exigiu desse espaço público sua adequação aos padrões desejados de modernidade e progresso. Assim, a rua refletiu a transformação do espaço e a reordenação da vida.


Portão de acesso ao Passeio Público, onde a Avenida Caio Prado era a vitrine das elites durante o período conhecido como Belle Epoque 

Em Fortaleza essas mudanças coincidiram com o início do período conhecido como belle époque, onde a elite formada por comerciantes e profissionais liberais vindos de outras regiões do Brasil e do exterior, ajudou a promover diversas mudanças importantes em Fortaleza. De influência francesa e baseada em ideais de civilidade, esse contingente teve atuação destacada no período compreendido entre 1860 até por volta da metade dos anos 1920, onde a cidade foi amplamente influenciada pelas ideais de modernidade estética e comportamental.

Extraído do livro 
Humor, Vergonha e Decoro na Cidade de Fortaleza (1850-1890)
De Marco Aurélio Ferreira da Silva 
Coleção Outras Histórias
fotos do Arquivo Nirez e postais antigos