domingo, 27 de dezembro de 2015

Os Velhos Cinemas de Fortaleza - 1908 a 1932

Primeiro chegaram os bioscópios, uma espécie de lanterna mágica que projetava na tela imagens estáticas. O introdutor da novidade foi um italiano chamado Pascoal, que instalou a máquina na Rua Barão do Rio Branco. Dado o êxito obtido, vários bioscópios foram instalados em diversos locais da cidade: um na Rua Major Facundo, outro na Praça do Ferreira, outro no antigo prédio do Clube Iracema e mais um no Beco das Trincheiras (atual Rua Liberato Barroso), esquina com a Rua Senador Pompeu. Tempos depois, apareceu o kinetofone, que era uma combinação do bioscópio com o gramofone. O novo equipamento foi armado no teatro José de Alencar, e fez um sucesso retumbante.

Cine Rio Branco, fundado por Henrique Mesiano

Em 1907 chegava a Fortaleza o italiano Vitor Di Maio, trazendo o animatógrafo, montando em 1908, o Cinema Di Maio  no prédio da Maison-Art-Nouveau, na Praça do Ferreira. A partir daí teve inicio a fase de prosperidade do cinema em Fortaleza. No caminho aberto por Di Maio, outros cinematógrafos surgiram: em 1909, Henrique Mesiano inaugurou o Cinema Rio Branco, na rua do mesmo nome; na mesma época Julio Pinto abriu o Cassino Cearense, na Rua Major Facundo. Eram exibidos filmes extraordinários como O Conde de Monte Cristo e a Dama das Camélias, este último, foi exibido quase trezentas vezes. Durante a apresentação dos filmes que eram mudos, um pianista tocava as músicas da moda. 


A pré-inauguração do Cine-Teatro Polytheama ocorreu em fevereiro de 1911, na Praça do Ferreira. A inauguração oficial ocorreu em julho daquele ano. em 1916 passou ao controle de Luiz Severiano Ribeiro. O Polytheama foi o silencioso que resistiu ao advento do som, permanecendo em funcionamento com seus filmes mudos até 20 de novembro de 1938, fechando quando o prédio que ocupava foi demolido para dar lugar a construção do edifício São Luiz.

O Amerikan Kinema foi inaugurado em fevereiro de 1915, na Praça do Ferreira; no dia 23 de dezembro de 1915, surge o Cinema Riche, também na Praça do Ferreira, no antigo local do Cine Di Maio, o primeiro empreendimento tendo como sócio Luiz Severiano Ribeiro em sociedade com Alfredo Salgado. Foi desativado em 1921. Henrique Mesiano inaugurou em 1917 o Cinema da Estação, no Boulevard Joaquim Távora, em frente a estação de bondes da Ceará Tramway Light and Power. Outro empreendimento de Henrique Mesiano foi o Cinema Tiro Cearense, inaugurado no Passeio Público, que funcionou por menos de um ano. Em 1917, por iniciativa do Circulo Operário e Trabalhadores Católicos, é instalado o Cinema São José, no teatro da agremiação na Praça Cristo Redentor. Foi o primeiro cinema criado pela Igreja Católica no Ceará e adotava o critério de separar homens e mulheres em duas alas. Funcionou até o início da década de 1940.  


     

Mas o ano de 1917 ainda veria a inauguração de uma bela e luxuosa casa de espetáculos: O Cine-Teatro Majestic Palace. Construído por Plácido de Carvalho, instalado em um imponente prédio na Praça do Ferreira, com a destinação para o cinema explorado por Luiz Severiano Ribeiro e Alfredo Salgado. O palco foi inaugurado no dia 14 de julho com o espetáculo da cantora lírica e transformista italiana Fátima Miris. 

 
Um incêndio no dia 1° de janeiro de 1968, determinou o fechamento definitivo do Cine-Teatro Majestic-Palace

O Majestic tinha uma sala de projeção que também era teatro, toda em ferro, como o Teatro José de Alencar. Tinha 650 cadeiras no distribuídas no térreo, nos dois andares, onde ficavam os camarotes e na geral. No bar com cadeiras de pés de ferro e pequena mesa e mármore, tinha música ao vivo a cargo do pianista Mozart Gondim Ribeiro. O lugar era frequentado por personalidades da cidade como Quintino Cunha, Dolor Barreira, Professor Raimundo Gomes de Matos, Lauro Maia, e outros. O Cine Majestic funcionou até 1968, quando foi consumido por um incêndio que destruiu a sala de projeção. 

Cine Moderno, na Praça do Ferreira

O próximo cinema a ser inaugurado em Fortaleza foi o Moderno, na Praça do Ferreira. Construído por iniciativa de Plácido Carvalho com o fim específico de uma casa exibidora de filmes, o Cine Moderno foi inaugurado no dia 7 de setembro de 1922, dentro das comemorações do primeiro centenário da Independência  do Brasil. A exploração do cinema ficou a cargo do Sr. Luiz Severiano Ribeiro. A sala logo ganhou a preferência do público seleto da cidade e teve o privilégio de lançar o cinema sonoro, no dia 19 de junho de 1930, com a exibição do filme “Broadway Melody”, com Charles King e Bessie Love.  


Durante oito anos, o Moderno apresentou filmes mudos animados por um piano perto do palco. As sessões eram noturnas (duas por noite) e o preço do ingresso custava custa 1 mil reis.  O Cine Moderno liderou por 18 anos, a vida social noturna de Fortaleza. Suas soirées eram sempre frequentadas pela alta sociedade de nossa capital, todos com suas melhores roupas e vestidos num verdadeiro desfile de elegância. Sua supremacia acabou em 1940, com a inauguração do Cine Diogo. Em franca decadência, abandonado pelos seus antigos frequentadores, o Cine Moderno encerrou as atividades no dia 21 de maio de 1968, quando o prédio onde funcionava foi vendido ao Grupo Edson Queiroz e demolido para dar lugar a uma loja. 

Até 1925, vários pequenos cinemas são instalados em Fortaleza. Em 1922, surge o Cine-Teatro Pio X, mantido pela Ordem dos Capuchinhos, na Avenida Duque de Caxias com a Rua Barão de Aratanha. Um ano depois, em 1924, foi inaugurado um pequeno cinema na então Praia do Peixe - atual Praia de Iracema - denominado Cine Beira-Mar. Em 1925 o Centro Artístico Cearense, situado na Avenida Tristão Gonçalves, 338, começa suas atividades como cinema, e a 16 de dezembro de 1931, inaugura o palco para apresentações teatrais.

No dia 2 de dezembro de 1925, o Recreio Iracema, uma iniciativa da empresa de Diversões Artísticas, de Antônio Capibaribe, inaugura sua tela de cinema, já que como espaço teatral existia desde 1923. Localizado no Boulevard Visconde de Cauípe, passou a denominar-se Cine Benfica. Em 1927, a União de Moços Católicos, localizada na Rua Barão do Rio Branco, pôs em funcionamento o cinema que se popularizou como Cine União, no imponente prédio ainda hoje existente. No mesmo ano é inaugurado o Cine Grêmio Dramático Familiar, na Avenida Visconde do Rio Branco, como desdobramento do famoso espaço teatral em que foram lançadas as criações de Carlos Câmara. 

Em 1930, duas instituições de prestigio na cidade, a Associação dos Merceeiros e a Associação Fênix Caixeiral criam salas de cinemas em suas sedes. O Cine Fênix instala-se  no dia 26 de junho de 1930, na Rua Guilherme Rocha esquina com a Rua 24 de Maio. O Cine Merceeiros, localizado na Rua Major Facundo foi inaugurado a 1° de novembro de 1930. 

Cine Luz, na Praça da Estação 

Ainda em 1930, no dia 6 de setembro, ocorria a inauguração do Cine Parochial, de propriedade das associações religiosas da Catedral, instalado à Rua Coronel Ferraz no prédio da Escola Jesus, Maria e José. O Cine Luz iniciou as atividades no dia 23 de janeiro de 1931, na Rua General Sampaio, por iniciativa dos empresários Bernardino Proença Filho e José Bezerra da Silva. Ainda em 1931 aparece mais um cinema de bairro: o Cine São Gerardo. Surgem ainda em 1932, dois outros cinemas: o Cine Circo, na Praça de Otávio Bonfim e o Cine Popular, na Rua Senador Pompeu, na então Praça de Pelotas, hoje Clóvis Beviláqua. A inauguração do Cine Popular ocorreu ocorreu no dia 9 de julho de 1932, e o prédio onde funcionava foi demolido para ampliação da Assistência Municipal, atual Instituto Dr. José Frota. 

fontes:
A Tela Prateada, de Ary Bezerra Leite
Fortaleza Velha, de João Nogueira
Reportagem publicada no Jornal Correio do Ceará, edição de terça-feira, 21 de maio de 1968.  
fotos do livro A Tela Prateada e do Arquivo Nirez   

domingo, 20 de dezembro de 2015

As Revoltas Urbanas: A Queda do Governador Clarindo de Queiroz

José Clarindo de Queiroz nasceu em Fortaleza, na Rua Sena Madureira n° 71, no dia 28 de abril de 1841. Foi indicado para o cargo de governador do Ceará pelo Marechal Deodoro da Fonseca  através de decreto federal de 4 de abril de 1891. No período inicial da República, o Marechal Deodoro mobilizou forças na tentativa de aplicar um golpe de estado, fechando o congresso nacional e decretando estado de sítio.


A maioria dos governos estaduais apoiou a iniciativa, pois tinham sido nomeados pelo próprio presidente.  Ao dissolver o congresso em 3 de novembro de 1891, Deodoro pegou praticamente de surpresa as lideranças civis e militares. O vice-presidente Floriano Peixoto, com a ajuda do almirante Custódio José de Melo, reagiu ao golpe.  

Praça General Tibúrcio no início do Século XX, com o Palácio da Luz e a Igreja do Rosário

Com a saúde debilitada e sob criticas por parte da oposição, Deodoro renunciou vinte dias depois, passando a presidência para Floriano Peixoto.  Este iniciou o novo governo mandando destituir todos os que se solidarizaram com o antecessor. 

A ascensão de Floriano Peixoto à presidência da República e sua caça aos governadores que apoiaram Deodoro, soou como uma ameaça para Clarindo de Queiroz. Contando com o apoio do Congresso  Cearense, de parte da imprensa, da maioria dos oficiais do 11° Batalhão do Exército e até com certa simpatia popular, o general começou a sofrer intensa pressão do Presidente da República para que deixasse o governo. Recebeu de delicados memorandos pedindo seus serviços na capital do país a agressivos ultimatos.  A oposição bem articulada por Nogueira Accioly conspirava abertamente contra Clarindo. Este, a tudo resistiu, pelo menos até 16 de fevereiro de 1892.

Deposição do governador Clarindo de Queiroz pelas forças que apoiavam o Presidente Floriano Peixoto
 
Nessa data, após o governo federal mandar o 11° Batalhão “realizar exercícios práticos” em Maranguape (no intuito de esvaziar o apoio a Clarindo), alunos do Colégio Militar, marinheiros e o restante da força federal dirigidos pelo major Bezerra de Albuquerque, se revoltaram e usando canhões e metralhadoras, exigiram a renúncia do general.
 
Uma multidão se postou nas imediações do Palácio da Luz, onde o governador resistiu por uma noite, ao cerco dos revoltosos que queriam sua saída do governo do Ceará. O centro de Fortaleza virou uma praça de guerra. Clarindo de Queiroz  apoiando-se numa minguada força policial e em alguns civis (entre os quais o Conselheiro Rodrigues Junior) resistiu aos golpistas. Os oposicionistas levantaram barricadas e bombardearam a sede do governo na Praça General Tibúrcio. O tiroteio se estendeu por toda a noite e provocou pânico na população.

uma multidão se reuniu nas imediações do Palácio da Luz onde o governador resistia ao cerco dos revoltosos que queriam sua saída do governo

Na manhã do dia 17, com o Palácio da Luz crivado de balas, o governador, sem munição para continuar a luta, rendeu-se aos inimigos e entregou o cargo ao tenente-coronel José Freire Bezerril Fontenele, deputado e comandante interino do Colégio Militar. Treze pessoas perderam a vida no confronto. A praça foi completamente destruída – num canto desta, curiosamente, encontrou-se a estátua do General Tibúrcio, tombada de seu pedestal, em pé, após ser atingida por tiros de canhão. 

Clarindo em seguida, partiu para o Rio de Janeiro, onde em dezembro de 1893 viria a falecer em decorrência das torturas sofridas na prisão, pois fora um dos 13 generais desterrados por decreto de Floriano Peixoto ao pedir a renúncia deste. 

estado em que ficaram a Praça e o Palácio da Luz depois dos ataques que culminaram com a deposição do governador Clarindo de Queiroz. A estátua do General Tibúrcio foi atingida com tiros de canhão e caiu de pé.

O interior do Palácio da Luz ficou destruído depois do ataque contra o governador. (foto cedida por Isabel Pires)
 
No dia posterior ao golpe, Bezerril passou o comando do executivo cearense ao vice-presidente Liberato Barroso.  Começa então, uma intensa perseguição aos partidários de Clarindo de Queiroz e Deodoro da Fonseca. O grupo dos maloqueiros e Rodrigues Junior eram os mais visados. Foram efetuadas várias prisões arbitrárias e demissões de funcionários públicos e até de quatro desembargadores do Tribunal de Apelação (atual Tribunal de Justiça) e 12 juízes do interior. Além disso revogou-se a Constituição Estadual de 1891, promulgada durante a gestão de Clarindo de Queiroz e dissolveu-se o congresso cearense – composto por câmara, e senado estadual de maioria pró-Deodoro – sendo convocado outro com poderes constituintes a 12 de maio.

Este novo congresso, promulgou a segunda Constituição do Ceará em 12 de julho de 1892. Na mesma data, Liberato Barroso deixou o governo do Estado, sendo substituído interinamente por Nogueira Accioly, eleito pelo Congresso primeiro vice-presidente. A 27 de agosto empossou-se no governo o tenente-coronel José Freire Bezerril Fontenele, escolhido também indiretamente pelos deputados estaduais.
Antônio Pinto Nogueira Accioly, o grande articular da derrubada de Clarindo de Queiroz

O grande articulador e vitorioso com a queda de Clarindo de Queiroz foi Nogueira Accioly. Contando com o apoio partidário dos cafinfins, do Comendador Boris (da Casa Boris), do Barão de Ibiapaba e do governo federal, seu grupo ascendeu ao controle da máquina administrativa cearense. Durante o governo de Bezerril consolidou-se do regime republicano no Brasil e no Estado. O governador procurou adequar os municípios ao novo regime, e aqueles que não cumprissem as novas exigências, seriam anexados ao vizinho que tivesse a situação já regularizada. Vários adversários acabaram perseguidos e forçados a emigrar. 

Como presidente, Bezerril não realizou nenhuma obra de relevo para o Estado. Limitou-se a arrecadar quantia considerável de recursos  através de uma eficiente máquina tributária. Era o que ele chamava de “reserva sagrada”. Nisso tudo, Nogueira Accioly – escolhido senador em 1894 – contribuía, participava, influenciava. Em 1896 foi escolhido como sucessor de Bezerril. Nas décadas seguintes sofreria o Estado nas mãos de uma das mais duradouras oligarquias de sua história: a Oligarquia Accioly.

Fontes:
História do Ceará, de Airton de Farias
A História do Ceará passa por esta rua, de Rogaciano Leite Filho 
fotos do arquivo Nirez e do livro "Coisas que o Tempo levou"
        

domingo, 6 de dezembro de 2015

As Lojas Antigas: quando a cidade cabia no Centro


Os antigos comerciantes de Fortaleza mantinham atividades ecléticas. O lojista podia na mesma loja ter um balcão elegante, e atrás, um outro, mais popular. Era o mesmo estoque, mesmos empregados, luz, custos de manutenção. Até por volta dos anos 70/80, o centro era frequentado por todas as classes sociais. Ele continua tendo uma grande vitalidade, só que essa vitalidade hoje é das classes C e D porque as classes A e B sumiram. A elite que dava o padrão à loja, à rua, que trazia a polícia para a rua, o consumidor que dava o padrão de elegância ao centro da cidade, tudo isso desapareceu. E grandes lojas sumiram junto. 

 multidão em frente a loja A Cruzeiro, em 1942

A Loja A Cruzeiro foi fundada em 1934 na Rua Guilherme Rocha, pelo comerciante Rubens Lima Barros. Vendia confecções masculinas. Naquela época não se vendia roupa pronta, até começarem a aparecer as camisarias. A Cruzeiro vendia camisas pré-acabadas, faziam uma camisa em uma hora. Tiravam as medidas e mandavam o cliente ir tomar um café no Abrigo Central, quando voltasse a camisa estaria pronta. Depois começaram a trabalhar com os ternos.  A Cruzeiro liderou o ramo de confecções durante muitos anos; foi também uma das primeiras lojas a ter um crediário em computador, feito com a IBM. Mais tarde mudou-se para a Rua Barão do Rio Branco, e o proprietário criou a expressão “quarteirão sucesso da cidade”. Patrocinou na TV Ceará o noticiário das 8 da noite intitulado “Repórter Cruzeiro” . 
  
 bastante popular, a Lojas de Variedades vivia lotada de compradores
  
Havia as lojas de Romeu Aldigueri, a Lojas de Variedades e a Flama. A primeira a ser fundada foi a Lojas de Variedades, localizada na Rua Barão do Rio Branco com fundo correspondente para a Praça do Ferreira. Ia de um lado ao outro. Depois inaugurou uma sorveteria que ficava do lado da Rua Barão do Rio Branco. A loja vendia tudo, desde artigos infantis, brinquedos, até perfumaria, bijuterias... Era uma loja bem popular, que durou quase 30 anos.

o prédio da Casa Sloper, foi mais tarde ocupado pela Flama

Lá pelos anos 40/50,  uma das lojas mais importantes de Fortaleza era a Casa Sloper, que integrava uma famosa rede nacional que tinha matriz no Rio de Janeiro. Era estabelecimento especializado  em alta moda: vestidos para todas ocasiões, lingerie, calçados, meias, luvas e chapéus, bijuterias, perfumaria e cosmética etc.  A Casa Sloper era tão sofisticada que causava inibição a muita gente, salvo às senhoras muito elegantes, já habituadas à frequência a estabelecimentos comerciais de alto luxo, inclusive, às matrizes, na então Capital Federal, o Rio de Janeiro, onde o melhor acontecia.

Quando a Sloper fechou ofereceram o ponto para Romeu Aldigueri, que inaugurou a Flama, que ao contrário da Loja de Variedades, vendia artigos de luxo. O nome Flama veio da linha de perfumes White Flame, de Helena Rubinstein, que era apresentada em embalagens de luxo, com larga aceitação na época. Quanto ao nível da loja, era como se apenas tivesse sido trocado o nome e a administração, porque se as instalações passaram por leves modificações, o bom gosto permaneceu o mesmo, o requinte era velho conhecido, as vendedoras selecionadas com rigor. Precedida de grande publicidade, a Flama já foi inaugurada revolucionando. Não se falava de outra coisa na cidade e em todas as conversas o assunto era a nova loja que substituíra a sofisticada Casa Sloper. Sem televisão, o rádio era o grande veículo de publicidade daqueles tempos e volta e meia podia-se ouvir a voz insinuante e macia de Maria José Brás, na PRE-9, anunciando o slogan da nova loja: Flama – símbolo de distinção. 


Já a Aba Film foi fundada em 1934 por Ademar Bezerra de Albuquerque, que deu origem ao nome Aba Film. A firma de fotografia foi criada por Ademar para trabalhar com os filhos, Francisco (Chico Albuquerque) e Antônio Albuquerque para funcionar como Studio fotográfico, mas que acabou virando uma empresa comercial. O empreendimento cresceu a ponto de se tornar uma cadeia de lojas, com várias unidades em Fortaleza, em Sobral e em Juazeiro do Norte. Ficou com a família Albuquerque por 3 gerações, até encerrar as atividades na primeira década dos anos 2000.


A Casa das Máquinas – o maior crediário do Ceará, teve início com a razão social de “Máquinas de Costura Ltda.”, trabalhando exclusivamente com máquinas de costura, porque o seu proprietário Gontran Nascimento, conhecia bem o assunto, posto que durante muito tempo, trabalhara na Singer. Depois, com o crescimento das vendas, mudou a denominação para “Casas das Máquinas e Artigos Domésticos Ltda.” Vendia então além das máquinas de costura, geladeiras Brastemp e Cônsul, pianos Essenfelder, móveis, brinquedos, roupas e peças para máquinas de costura. Dizia-se que tudo que a sociedade quisesse adquirir, a Casa das Máquinas vendia. Gontran Nascimento logo compreendeu a importância da propaganda para o negócio. Aí surgiu o “repórter Alfa”. A casa das Máquinas foi pioneira nesse tipo de propaganda veiculada no rádio e na televisão. Com a redução do sistema de crediário em virtude da inflação, e com o falecimento do proprietário em 1985, a Casa das Máquinas foi desativada. 

A Cearense tinha o slogan “A casa que cresce diminuindo os preços” e muita freguesia, sobretudo as mulheres da alta sociedade. O atendimento era diferenciado. As clientes sentavam, eram oferecidos cafezinho, sucos e lanches e as compras eram entregues em suas respectivas residências. Funcionou inicialmente na Praça do Ferreira, depois mudou-se para a Rua Barão do Rio Branco. A Cearense foi pioneira nesta rua ao levar o comércio para lá, seu fundador Aprígio Coelho, foi cobrado pelos outros lojistas que profetizavam: você vai quebrar, como é que se concebe uma loja fora da Praça do Ferreira! Em 1968, quando a loja completou 50 anos de existência, Aprígio Coelho de Araújo vendeu seu tradicional estabelecimento ao grupo pernambucano Lundgren Tecidos, que fechou A Cearense para colocar mais uma Loja Pernambucanas.



O Grupo Romcy comandou uma das maiores lojas de departamentos de Fortaleza, o Romcy Magazine. Diariamente fazia uma promoção chamada “o Barato do Dia Romcy” que era anunciada pela televisão, no intervalo do Jornal Nacional, e lotava a loja no dia seguinte.
As atividades comercias da família Romcy começaram em 1948 com a firma Jacob Elias e Filho onde vendiam miudezas. Mais tarde passou a ter várias filiais com nomes fantasias diferentes como, as lojas “A Capital”, “Magazine Sucesso”, “Casa Vênus”,  “Romcy Perfumaria”, “Romcy Magazine”, e por fim a “Super Loja Romcy”. Em 1962, com a morte de Jacob, as lojas foram unificadas com a razão social de “Romcy Comercio e Indústria S/A” e estavam sob a responsabilidade de seus filhos José e Antônio Romcy que partiram para unificar as atividades do grupo.

Em 1990 o grupo empresarial pediu concordata preventiva alegando dificuldades financeiras decorrentes do malogrado Plano Collor, e do aumento da inadimplência de seus clientes. Por volta de 1993, com apenas uma loja em funcionamento, a empresa teve sua falência decretada.


A Mesbla em Fortaleza foi inaugurada em 1974, na esquina das Ruas Barão do Rio Branco com São Paulo, para depois se transferir para a loja da Rua Senador Pompeu com duas frentes, para as ruas Senador Pompeu  e  General Sampaio. Inaugurou uma segunda loja em 1982, no Shopping Center Iguatemi. De origem francesa, a Mesbla foi um gigante no comércio varejista. Atravessou períodos de grandes dificuldades na década 1990, com as lojas esvaziadas de produtos e de clientes. Em 1999 teve sua falência decretada.

A Samasa – Sebastião Arrais Magazines S/A foi uma grande rede de lojas de departamentos com cerca de 10 lojas amplas do tipo departamentos. Vendiam roupas, perfumes, eletrodomésticos, móveis, brinquedos e possuía lanchonetes em todas as lojas que eram bastante movimentadas. Suas lojas principais estavam localizadas no centro, nas Ruas Barão do Rio Branco,  Senador Pompeu, General Bezerril, e uma loja com três frentes, para a Rua Major Facundo, Rua Liberato Barroso e Rua Barão do Rio Branco destruída por um incêndio em 1989. A cadeia de lojas acabou fechando na década de 90.
A rede de lojas Paraíso surgiu na primeira metade da década de 80 com uma loja na Rua Solon Pinheiro com Duque de Caxias. No início vendiam colchões, mas logo depois passaram a comercializar moveis e eletrodomésticos. Em 1998 a Paraíso possuía 55 pontos de venda no Nordeste, localizados nos Estados do Ceará, Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte, empregando em torno de mil funcionários, além de um amplo centro administrativo e depósito em Parangaba e uma frota de cerca de 40 caminhões para entrega.
A Lojas Paraíso funcionou durante 13 anos, com enorme popularidade. Em 1991, depois de uma grave queda nas vendas em razão da situação econômica do país, a empresa fechou as portas, deixando cerca de 1700 desempregados. A falência oficial foi decretada em 30 de novembro de 1999. 

Além desses, muitos outros estabelecimentos de grande porte, tornaram o centro de Fortaleza um atrativo polo de compras e lazer, como as Lojas irmãos Damasceno, Carvalho Borges, Lojas Vesil, Gustavo Silva, Camelo Modas, Pernambucanas e muitas outras.  

  
 Fontes:
Memória do Comércio Cearense, de Cláudia Leitão
Diversas obras de Marciano Lopes
fotos dos livros Memória do Comercio Cearense, Ah, Fortaleza! e diversos jornais