sábado, 28 de março de 2015

A Nobreza do Ceará

Revisitando a história antiga de Fortaleza, nos deparamos com uma pequena parcela da população que se distinguia por ser detentora de títulos de nobreza: eram barões, viscondes, marqueses, todos poderosos e influentes na vida da cidade. Mas, quais os caminhos levavam a transformação de comerciantes, políticos, proprietários rurais, em nobres de sangue azul?  

 Casa do Barão de Studart, na antiga Rua Formosa, atual barão do Rio Branco 

A concessão de títulos de nobreza teria começado em 1847, com a fixação de regras para concessão do uso de brasão de armas, em que se exigia precedência da justificação da nobreza, com base numa Provisão de 1807, que impunha aos pretendentes a obrigação de produzirem, além das testemunhas, documentos autênticos, que provassem legalmente pertencerem eles às famílias, com que queriam entroncar-se. Mera formalidade que seria anotada pelo Juízo dos Feitos da Fazenda, com audiência do Procurador dos Feitos.

Antiga Igreja do Coração de Jesus em 1892. A Igreja foi construída com a ajuda de José Francisco da Silva Albano, o Barão de Aratanha 

Os títulos nobiliárquicos não eram hereditários, e os candidatos não poderiam apresentar em sua árvore genealógica nenhum dos impedimentos: bastardia, crime de lesa majestade, ofício mecânico ou sangue infecto. Eram cuidadosamente escolhidos por um conjunto de atos prestados e ascendência nobre familiar.

Na maioria das vezes o título era outorgado pelo Imperador, mas também havia os que eram concedidos pela Igreja (como o do Barão de Studart) e pelo governo português. Eram outorgados como se fossem por livre e espontânea iniciativa, em reconhecimento a serviços prestados, mas, na verdade, o agraciado normalmente despendia uma vultosa soma em dinheiro pela honraria.  
   
Sobrado de Joaquim da Cunha Freire, o Barão de Ibiapaba
 
 Segundo a tabela vigente no dia 2 de abril de 1860, para ser nobre, o custo em contos de réis era:

Duque: 2:450$000
Marquês: 2:020$000
Conde: 1:575$000
Visconde: 1:025$000
Barão: 750$000

Além desses valores, havia os seguintes custos:
Documentos para a petição: 366$000
Registro do brasão: 170$000

Apesar dos títulos serem pessoais e não hereditários, isto não impedia que as mulheres dos nobres os usassem no feminino: condessa, viscondessa, duquesa, baronesa. Na realidade, cerca de 2%  do total de mulheres portadoras de títulos nobiliárquicos foram elevadas à nobreza por relevantes serviços prestados à Casa Imperial, o mesmo tendo acontecido com muitas viúvas de nobres mortos, que foram promovidas de classe. 
Os brasões foram comuns sob o império e apareciam em louças, papéis, pratarias,  documentos e nas portas das mansões. A República pôs fim à era da nobreza no Brasil, e cancelou os títulos e brasões. 

  residência de Geminiano Maia, que foi condecorado com o título de Barão de Camocim 

Alguns dos Portadores de títulos de nobreza no Ceara


Barão de Studart - Guilherme Chambly Studart

  

Nascido em Fortaleza, em 5 de janeiro de 1856, falecido na mesma cidade em  25 de setembro de 1938. Foi médico, historiador e vice-cônsul do Reino Unido no Ceará. Filho de John William Studart, e Leonísia de Castro Studart. Católico militante dedicou-se à caridade e à filantropia. Como reconhecimento, recebeu o título de Barão da Santa Sé, concedido, em 1900, pelo Papa Leão XIII.


Barão de Aratanha - José Francisco da Silva Albano

Nasceu em Fortaleza, a 21 de maio de 1830 e faleceu nesta cidade em 13 de junho de 1901. Foi um rico comerciante e militar brasileiro, tendo sido coronel da Guarda Nacional. Ficou conhecido pelas obras de filantropia e por ter ajudada na construção da atual Igreja do Coração de Jesus, que durante muito tempo ficou conhecida como a Igreja dos Albanos.
Foi agraciado com o título de Barão de Aratanha em referência ao lugar de origem dos antepassados, conferido por Decreto Imperial de 3 de dezembro de 1887.


Barão de Aracati – João Pereira da Graça

Nascido em Aracati, 14 de março de 1812, falecido no Rio de Janeiro, 29 de janeiro de 1889. Foi um magistrado e político brasileiro. Exerceu o cargo de ministro do Supremo Tribunal de Justiça, órgão máximo do Poder Judiciário no Brasil Império.
Recebeu o título de Barão de Aracati, concedido pelo governo imperial em 19 de março de 1887, por relevantes serviços prestados à magistratura e ao Estado.


Barão da Ibiapaba – Joaquim da Cunha Freire


Nascido em Caucaia, 18 de outubro de 1827, e falecido no Rio de Janeiro, 13 de outubro de 1907, filho do português Felisberto Correia da Cunha e de Custódia Ribeiro da Cunha, irmão do Severiano Ribeiro da Cunha, o Visconde do Cauípe.
Foi presidente da província do Ceará por sete vezes, coronel da Guarda Nacional e comendador da Imperial Ordem da Rosa. Titulo de Barão da Ibiapaba outorgado pelo Imperador, por Decreto de 17 de janeiro de 1874.


Barão de Camocim – Geminiano Maia

Natural de Aracati, nascido em 2 de fevereiro de 1847 e falecido em Fortaleza, 25 de fevereiro de 1916, destacou-se no comércio e nas obras de filantropia. Em 1881, foi nomeado cônsul da Bolívia e, em 1889, vice-cônsul da Rússia no Ceará. Filantropo, tem seu nome inscrito entre os dos protetores de vários estabelecimentos de caridade da antiga província. Foi agraciado por D. Carlos, Rei de Portugal, pelo decreto de 20.04.1893, com o título de barão de Camocim.


Visconde de Cauípe – Severiano Ribeiro da Cunha

Nasceu na localidade de Cauípe, junto ao município de Soure (atual Caucaia), filho dos portugueses Felisberto Correia da Cunha e de Custódia Ribeiro da Cunha, e irmão de Joaquim da Cunha Freire, futuro barão de Ibiapaba. Trabalhou arduamente pela Santa Casa de Misericórdia de Fortaleza, da qual foi vice-provedor por vários anos.
Em 1° de maio de 1873, foi agraciado pelo governo português com o título de Visconde de Cauípe, tomado de seu lugar de origem. Depois por decreto de 17 de abril de 1874, tornou-se comendador da Imperial Ordem da Rosa. Por Alvará de 12 de maio de 1874, foi nomeado Moço Fidalgo com exercício na Casa Real de Portugal. Foi também tenente-coronel da Guarda Nacional.

sites consultados:
http://www.casadoceara.org.br
wikipédia
https://books.google.com.br/

sexta-feira, 27 de março de 2015

Os Enterros realizados nas Igrejas

Até meados do Século XIX os enterros de religiosos e pessoas com alguma relevância na vida social da cidade, eram realizados nas igrejas ou nas suas imediações. Após dois anos a sepultura era aberta, e os ossos recolhidos em urnas que eram enterrados novamente. Os pobres, e os menos afortunados eram enterrados nos arrabaldes, nas areias. A prática só desapareceu quando em 1848, foi inaugurado o primeiro cemitério de Fortaleza, o São Casimiro, também chamado de Croatá, localizado no lado leste da atual Praça Castro Carreira.

Praça Castro Carreira, em fins do século XIX,  com o terreno repleto de materiais que seriam utilizados na construção da ferrovia. O prédio da estação central foi construído no local antes ocupado pelo Cemitério de São Casimiro.
 
A construção foi iniciada em 1844. Pelo regulamento de 16 de março de 1848, o presidente Casimiro José de Morais Sarmento – que emprestou o nome ao cemitério – ordenou que a partir dia 1° de maio daquele ano, os cadáveres dos indivíduos falecidos na cidade e seus subúrbios só poderiam ser sepultados no Cemitério de São Casimiro, e aquele que infringisse as normas, sofreria multa de 25$000 reis. Outra Lei, a de n° 660, de 29 de setembro de 1854, proibiu expressamente inumações de corpos em todas as igrejas da Província. 

A proibição de se sepultar cadáveres no interior dos templos estava associada à questão da higienização e da saúde pública. Segundo teorias, o ar poluído pela decomposição dos corpos poderia disseminar doenças entre os fiéis.

Em 1840 a Igreja do Rosário – a única da capital – era caracterizada como estreita. E nesse estreito recinto, sepultavam-se vários cadáveres,  de modo que os fiéis que costumavam lotar a igreja, acabavam convivendo com um ambiente insalubre e altamente contaminado. 

Templo mais antigo de Fortaleza, construído por volta de 1730, a Igreja do Rosário, passou por uma reforma em 2001, quando  foi descoberto que, debaixo do piso principal havia um outro piso com diversas divisórias. Essas divisórias correspondiam a túmulos de pessoas que ali foram sepultadas em tempos passados. Os 54 corpos foram deixados no mesmo local, anonimamente, sem qualquer indicação de que repousam sob os pés dos fiéis frequentadores do templo. 


O piso de madeira da Igreja do Rosário, sob o qual foram encontrados 54 corpos que ali foram sepultados até 1848, e o túmulo do Major Facundo, sepultado na parede da Igreja.

Um único túmulo permanece identificado: o do Major Facundo, assassinado em 1841, em decorrência de intrigas políticas, num crime atribuído à esposa do então presidente da província. O major foi sepultado na parede lateral, em pé, voltado para o Palácio da Luz, à época sede do governo do Estado.

Mesmo depois da existência dos cemitérios, a Igreja Católica conservou sua influência na “hora da morte”. No São Casimiro havia uma área reservada e marginal para os que não professavam a fé católica ou atentassem contra os princípios desta (judeus, suicidas, etc). Foi também construído um cemitério dos ingleses (para protestantes) vizinho ao São Casimiro, que era mantido pela firma de importação e exportação Singlehust  and Co, de Henrich Brocklehurst.

Capela do Cristo Ressuscitado, localizada na Cripta da Catedral de Fortaleza 

Os sepultamentos nas igrejas ainda acontecem de modo restrito e exclusivo para religiosos. Na Cripta da Catedral de Fortaleza, encontra-se a Capela do Cristo Ressuscitado, onde estão sepultadas algumas personalidades ligadas à Igreja Católica como Monsenhor Tito Guedes, Monsenhor José Quinderé  e outros, falecidos antes mesmo da inauguração da Catedral, como D. Manuel da Silva Gomes (1950) e D. Antônio de Almeida Lustosa (1974).

Mausoléu dos Religiosos Sacramentinos, na Igreja de São Benedito. 

No interior da Igreja de São Benedito, localizado na Rua Clarindo de Queirós, encontra-se o mausoléu dos Religiosos Sacramentinos, separado do corpo da nave por uma grade, onde estão sepultados padres da Ordem.


segunda-feira, 23 de março de 2015

Remodelação sócio-urbana de Fortaleza

A partir da segunda metade de século XIX, Fortaleza desenvolveu sua integração com o capitalismo internacional e consolidou-se como centro político e econômico do Ceará. Nove décimos do algodão cearense passaram a ser comprados por Liverpool, assim como o couro e a pele dos seus rebanhos.

Casa Villar inaugurada em 1854, ocupando todo o quarteirão da Rua São Paulo entre as Ruas Major Facundo e Barão do Rio Branco, ficando nesse endereço até 1959. Antes, nesse imóvel residiu e foi assassinado o Major Facundo, em 1841.

Estabeleceram-se as primeiras linhas regulares de navegação a vapor, sediadas em Liverpool: a Booth Line e a Red Cross Line, ligando Liverpool a Fortaleza. Estas companhias permitiram o contínuo movimento comercial entre o Ceará e a Inglaterra e estenderam-se depois para Hamburgo, Havre, Nova Iorque e Trieste. O trigo consumido em Fortaleza era adquirido nos Estados Unidos. Os finos tecidos ingleses substituíam os mais grosseiros do Porto. As Casas Amaral e Villar importavam as ferragens que eram alemãs ou inglesas. O melhor que se vestia, usava e comia procedia da Inglaterra; objetos de luxo, porcelanas, cristais, tapetes, instrumentos e partituras musicais, enfim, tudo que era sofisticado era importado da Europa. 

Ponte dos Ingleses (Viaduto Lucas Bicalho) A construção do viaduto foi iniciada em 24 de setembro de 1921, pela empresa inglesa Norton Griffts Co., para ser o Porto de Fortaleza, em substituição a antiga Ponte Metálica. No entanto, nunca funcionou como porto.

Começaram a surgir prédios de porte na cidade, rompendo com o antigo e arraigado preconceito, segundo o qual nesta cidade não podia haver sobrado, porque os alicerces, cedendo ao peso das paredes altas, afundariam na areia. O sobradão do Comendador Machado, de três pavimentos, situado onde hoje se encontra o Excelsior Hotel, foi um dos primeiros a ser construído. 

sobrado do comendador José Antônio Machado, construído em 1825, pelo engenheiro coronel Conrad Jacob de Niemeyer com o auxílio dos presos da cadeia do crime. No sobrado funcionou o antigo Hotel Central e o Café Riche. Foi vendido a Plácido de Carvalho, que o mandou demolir no ano seguinte, para construir o Excelsior Hotel. 

A iluminação com hidrogênio carbonado da The Ceara Gaz Co. Ltd., substituiu a iluminação pública, feita com azeite de peixe, sob a responsabilidade de Vitoriano Augusto Borges. O abastecimento de água foi explorado pela companhia inglesa Ceara Water Work Co. Ltd. as ruas de areia foram pavimentadas pelos calceteiros açorianos contratados por intermédio da família Amaral. A primeira carruagem particular, uma sege, pertencia ao Senador Alencar, que a trouxe de Lisboa. Inaugurou-se em 1880, o transporte coletivo com bondes de tração animal da Cia. Ferro Carril do Ceará. A energia elétrica na rede pública chegaria à cidade em 1913, através da The Ceara Tramway Light and Power Co. eletrificando os bondes.

Em 1861 surgiu a Santa Casa de Misericórdia, o primeiro hospital de Fortaleza, em terreno doado por Maria Guilhermina Gouveia, filha do cônsul de Portugal no Ceará, Manuel Caetano de Gouveia. Para a execução do seu projeto, constituiu-se uma comissão de alto nível integrada pelos comendadores Joaquim Mendes da Cruz Guimarães, Antônio Telles de Menezes e João Batista de Castro e Silva. 

 Estação Central da Estrada de Ferro Baturité,concluída em 1880.Tanto a estrada de ferro quanto a estação central foram construídas utilizando a mão-de-obra de retirantes da seca de 1877/79. 

A construção da Estrada de Ferro Baturité, ligando a capital ao interior, foi decisiva para a circulação de mercadorias exportadas e importadas e resultou do contrato firmado entre o governo  e a sociedade Anônima Companhia Cearense da Via Férrea Baturité. 

Mais tarde, um porto foi ensaiado no antigo Maceió, defronte ao Forte. Algumas pontes foram edificadas para servirem de embarcadouro de passageiros e mercadorias. A Ponte Metálica e a Ponte dos Ingleses, as últimas a serem construídas ainda podem ser apreciadas na Praia de Iracema.

Igreja da Conceição da Prainha, inaugurada no dia 8 de dezembro de 184l
 
As igrejas se destacavam entre os belos edifícios da cidade. a Igreja Conceição da Prainha, erigida no alto do Outeiro da Prainha, ladeando o futuro Seminário de Fortaleza – importante centro de formação espiritual e intelectual – teve seus alicerces abençoados pelo vigário da cidade Carlos Augusto Peixoto de Alencar. Sua construção durou cinquenta anos, através de donativos dos devotos, contando com a família Borges entre os seus maiores benfeitores. 

A Igreja do Sagrado Coração de Jesus foi edificada pelo Barão de Aratanha, exclusivamente para seu filho Antônio Xisto Albano, ordenado padre pelo Cardeal-Arcebispo de Paris e, tempos depois, consagrado bispo nesta igreja da família Albano. A Igreja de Nossa Senhora dos Remédios no Benfica, foi uma realização da família Amaral e, posteriormente, aprimorada pelos Justa, pelos Theóphilos, paroquianos abastados moradores do bairro, tendo a frente o Coronel José Gentil Alves de Carvalho e sua família.

Igreja do Pequeno Grande cuja pedra fundamental foi lançada em 1898, pelo padre Chevalier, reitor do Seminário e capelão do Colégio da Imaculada. 

A formosa capela do Pequeno Grande, arquitetada por Isaac Correia do Amaral e cuidada pelas freiras francesas, fundadoras do Colégio da Imaculada Conceição, é ainda um dos mais belos templos de Fortaleza. Esta igreja, em estilo neogótico, coberta com placas de ardósia, é sustentada por estrutura metálica importada da Bélgica.

Em 1881, ligando Fortaleza ao Sul do País, instalou-se a Agência do Telégrafo Nacional e, no ano seguinte, o cabo submarino, sob a responsabilidade do American Telegraph and Cable Co. em 1883, começou a funcionar o serviço telefônico com aparelhos de manivela. No dia 11 de fevereiro desse ano, comerciantes, autoridades e o público em geral, apinharam a Casa Confúcio, para assistirem a inauguração solene do primeiro telefone de Fortaleza.


Extraído do livro de Vanius Meton Gadelha Vieira
Ideal Clube – história de uma sociedade
fotos do Arquivo Nirez e do site Fortaleza em Fotos

quinta-feira, 19 de março de 2015

As Antigas Sapatarias

Na segunda metade dos anos 40, apesar da 2ª. guerra recém terminada, com escassez de muitos produtos devido às dificuldades das importações, não era difícil comprar sapatos em Fortaleza. É verdade que as lojas não eram muitas, mas a cidade era pequena e todo o centro comercial estava restrito ao quadrilátero que compreendia o trecho entre as ruas Senador Pompeu, Sena Madureira e as travessas Pedro Pereira e Castro e Silva. Um pequeno quadrado, assim mesmo, ainda pontilhado de residências.

No caso específico do comércio de lojas finas, onde se situavam as sapatarias, o espaço era ainda mais apertado, precisamente uma quadra, entre as ruas Barão do Rio Branco e Major Facundo e as travessas Guilherme Rocha e Liberato Barroso, salvo algumas poucas exceções.

A Notável, a sapataria mais bonita da cidade funcionava no térreo do Excelsior Hotel, na Praça do Ferreira 

A sapataria mais bonita da cidade era, sem dúvida, a A Notável, localizada no térreo do Excelsior Hotel, na Rua Guilherme Rocha, onde funcionaria anos mais tarde a casa de lanches Cearazinho. A Notável era notável porque tinha três vitrines, inclusive uma central, de forma cilíndrica e giratória. Movida a eletricidade, chamava a atenção de quem passava. Vizinha à A Notável estava a Casa Rio, esta dentro dos padrões tradicionais. Funcionou até os anos 70.

Defronte à Casa Rio, no térreo do Edifício Parente, estava a Casa Pio, do comerciante Pio Rodrigues. Era uma loja padronizada às congêneres, com a simetria tão comum à época: duas vitrines laterais e a circulação centralizada. Muitos espelhos, a luz dirigida por holofotes, geralmente embutidos no teto das vitrines. Anos depois, já na década de 50, mudou-se para o chamado Quarteirão Sucesso, na Rua Barão do Rio Branco, com instalações modernas, e grandes lançamentos em calçados, direto do Rio de Janeiro. 

A Casa Pio foi uma das pioneiras e sobrevive até os tempos atuais

A Esquisita começou inovando no próprio nome que não deixava de ser uma extravagância para aqueles tempos. Além disso, dispensava padronizações casa ou sapataria, era apenas Esquisita. Ficava na Rua Major Facundo, entre a Padaria Estrela e o Café Sport. Continua no mesmo local, porém ampliada, pois com a extinção do café, ela ganhou aquele espaço, abrindo até a esquina.

Praça do Ferreira - à esquerda, na Rua Major Facundo, a sapataria Esquisita 

A Casa Clark integrava uma rede nacional e notabilizou-se pela qualidade superior dos seus calçados, todos de grife própria. Ficava na Praça do Ferreira, à direita da garapeira Leão do Sul. Era uma loja pequenina, como eram a maioria das casas comerciais de Fortaleza. Mais tarde mudou-se para a Rua Barão do Rio Branco, no antigo Quarteirão Sucesso.

Sapataria Clark, famosa pela qualidade dos calçados que fabricava

A Sapataria Granito ficava no térreo do edifício do mesmo nome, na Rua Guilherme Rocha, vizinho à loja A Gávea, de Júlio Coelho de Araújo. Era exclusivamente masculina, com sapatos de alta classe e grifes famosas, predominando os artigos em cromo alemão.

A Sapataria Primavera localizava-se na Rua Liberato Barroso. No início era uma loja que ocupava o espaço normal, porém foi crescendo e adquirindo os pontos vizinhos até formar um total de quatro frentes e mais uma galeria que ligava à Rua Major Facundo. Funcionou até os primeiros anos da década de 80.

Na Rua Barão do Rio Branco, vizinho à Aba Film tinha a Sapataria Belmont, loja simples, sem vitrines, que apresentava uma linha popular de calçados. Fechou há vários anos para dar lugar ao Edifício Jalcy.

Também na Rua Barão do Rio Branco, próxima ao Cine Majestic, no lado do sol, estava a Casa Ponte, loja de calçados populares. Fechou no final da década de 60. Na Rua Liberato Barroso, entre as ruas Barão do Rio Branco e Major Facundo, ficava a Casa Jayra. No mesmo quarteirão ficava o Pé Chinês, que fechou nos anos 70.

Como naquele tempo as lojas eram muito exclusivas, sapato só era vendido em sapataria, a única exceção era a Casa Sloper, que sendo uma luxuosa casa de modas, apresentava sofisticada linha de sapatos femininos, sem dúvida, de origem francesa. 

A Casa Sloper, na Rua Major Facundo era uma das poucas lojas de moda que comercializava sapatos na segunda metade dos anos 40 

Sapataria Belém, que já existia em 1945, ficava desfocada de suas congêneres, exatamente em frente ao prédio dos Correios na Rua Floriano Peixoto, vizinha a Casa Blanca. Era uma loja simples, sem vitrines e apresentava uma linha de calçados dirigidos às pessoas de menor poder aquisitivo.

No mesmo nível da Belém, havia a Casa Costa Freire, na Rua Major Facundo, quase vizinho ao Edifício Jangada. Sem vitrines e sem qualquer atrativo, os sapatos eram expostos sobre as pilhas de caixas no salão.

Também fora do alinhamento das sapatarias mais dinâmicas a Casa Santa Teresinha ficava na Rua Guilherme Rocha, entre Senador Pompeu e General Sampaio, vizinho ao atelier Iris. Era uma loja pequena e estreita, com aparência de coisa antiga.

Era assim o comércio de calçados em Fortaleza nos idos de 1945. Pouco mais de uma dúzia de sapatarias, todas de pequeno porte, calçavam os pés da população de nossa pequena Capital de apenas duzentas mil pessoas. 


Extraído do livro de Marciano Lopes
Royal Briar, a Fortaleza dos anos 40
fotos do Arquivo Nirez 

domingo, 15 de março de 2015

Tipos Populares: O Pilombeta


José Sales, vulgo Pilombeta foi dentro do panorama incolor da Fortaleza de outros tempos, um dos tipos popularmente conhecidos e apreciados pelos habitantes desta capital, de cujas rodas boêmias era assíduo frequentador.

Praça José de Alencar, 1910 

Natural de Minas Gerais, muito cedo se transplantou para esta cidade, se tornando notável desde logo, em razão de sua altura descomunal, especialmente quando desfilava seus dois metros de altura em meio a multidão da Praça do Ferreira.

Magricela, comprido, bizarro, de braços e mãos tão longos que dançavam ao vento, quando andava o Pilombeta se distinguia pela sua feiura que chegava a assustar as crianças. O rosto grotesco, um nariz enorme, sobre o qual se equilibrava um pince-nez, a boca sensual e mole, sempre com carregando um resto de cigarro. A barba e o bigode sempre por fazer, os cabelos ralos a escorrer pelo rosto pálido. Mal ajambrado um fraque e umas calças surradas cobriam-lhe os ossos pontudos, parecia em seu todo, a sua figura melancólica, com a de D. Quixote de La Mancha. 

Praça do Ferreira, por volta dos anos 20 

Diziam que, além de jogador emérito de xadrez, possuía verdadeira ojeriza a trabalho. Conseguira, em sua terra o titulo de agrimensor, e os fortalezenses seus conhecidos, alarmados com os constantes pedidos de empréstimos, resolveram, numa conspiração, arranjar-lhe um emprego na Estrada de Ferro Baturité, então sob direção de uma companhia inglesa.

Encaminharam-no com uma carta de apresentação ao superintendente, e este logo lhe arranjou uma colocação. Mas Pilombeta, mal acabara de obter o emprego, solicitou uma licença de seis meses. Ali mesmo, foi demitido.

Pianista de méritos discutíveis sabia de cor algumas canções que eram desafinadamente mal tocadas.  Anda assim conseguiu um emprego como pianista do cinema Júlio Pinto, onde podia ser visto todas as noites, durante as exibições das fitas, a dedilhar as músicas da moda que conseguira aprender de ouvido. E os sons fanhosos gemiam dentro da sala calorenta, atordoando os incautos espectadores, que se emocionavam com as românticas fitas europeias.

Rua Rufino de Alencar, 1908

Depois daquele extravasar de sua arte esquisita, saía para os cafés noturnos, em cujas mesas permanecia horas perdidas, a sorver o álcool que lhe envenenava pouco a pouco o organismo débil.Dali saía cambaleante, rua afora, ziguezagueando pelas calçadas, varando a noite em serenatas românticas.

João Brígido, um dos maiores jornalistas da época, míope ao extremo  ao cruzar, certa tarde na rua, com a figura fina e sutil do Pilombeta que o cumprimentara, apenas levantando o chapéu,  emitiu o seguinte comentário: – O Ceará é uma terra extraordinária! Imaginem que até os combustores da iluminação cumprimentam, tirando o chapéu quando a gente passa!

 Rua Major Facundo por volta de 1900

Café do Comércio, 1908 

Por volta do ano de 1916, os pulmões do Pilombeta ante a vida desorganizada e boêmia que levava não puderam resistir. Seus amigos o levaram para o Asilo de Mendicidade, onde pouco tempo depois, terminaram seus dias acidentados de farra, de noites mal dormidas, como esbanjador incorrigível da sua própria existência.
Ao dar entrada naquele estabelecimento de caridade, carregado pelos amigos que se haviam cotizado, Pilombeta teve a seguinte frase de profunda melancolia: eis a casa dos desvalidos da sorte como eu, e feliz daquele que nela encontrar abrigo.

Extraído do livro: Coisas que o Tempo Levou: crônicas históricas da Fortaleza antiga. De Raimundo de Menezes
fotos do arquivo Nirez 

quinta-feira, 12 de março de 2015

Os Riscos de Incêndio nos Antigos Cinemas

A maior preocupação dos pioneiros exibidores de filmes era com o risco de incêndio nos equipamentos. Razões de sobra existiam para isso, porque nos primeiros tempos, utilizando películas altamente inflamáveis, improvisando seus salões em locais sem infraestrutura adequada, a qualquer descuido poderia haver um acidente e destruir o empreendimento, causando prejuízos materiais e, pior podendo chegar a uma catástrofe, com a perda de vida de seus frequentadores e funcionários.

O primeiro incêndio registrado em cinema de Fortaleza ocorreu no dia 29 de setembro de 1902, com prejuízos para o empresário exibidor Arlindo Affonso da Costa, ex-sócio da Casa Bordallo em Fortaleza, que retornara do Rio de janeiro com um Cinematógrafo em julho daquele ano.


Arlindo Costa instalara inicialmente seu aparelho à Rua Major Facundo, 83, com estreia no dia 9 de junho e exibições contínuas até o mês de agosto. Verificando que a cidade comportava um espaço de lazer mais diversificado, nesse mesmo local inaugura o Recreio Cearense, no dia 9 de setembro, com a festa animada pela banda de música do Batalhão de Segurança, sorteio de flores entre as senhoras presentes e apresentação do seu “belo cynematographo”.

O empreendimento de Arlindo Costa foi interrompido com o incêndio da noite de 29 de setembro de 1902, quando realizava testes com o aparelho, resultando em prejuízos materiais avaliados em 2 contos de reis. A imprensa noticiou o sinistro. 

A ameaça de incêndio perseguia os primitivos cinematógrafos, e o fogo apareceu na origem dos espetáculos de Cinema, em Paris, onde se registrou a ocorrência mais devastadora, um episódio que quase comprometeu irremediavelmente a nova descoberta tecnológica.

Em 1897, ano em que o cinema chegou a Fortaleza, uma grande tragédia abala Paris e ameaça o futuro do cinema. Na festa beneficente anual, denominada Bazar da Caridade, patrocinada pela aristocracia francesa, a grande atração seria o Cinematógrafo. Foi construído para esse fim um pavilhão de madeira, em área privilegiada dos Champs-Elysées, defronte às propriedades do Barão de Rothschild. E, extrema imprevidência, dotada de apenas uma porta de dois metros de largura, abrindo-se para a parte interna. 

Na tarde de 4 de maio de 1897, encontravam-se no recinto cerca de 1.500 pessoas. Às 16 horas, após a explosão de uma lâmpada de éter do cinematógrafo, as chamas se propagaram rapidamente, provocando pânico entre os presentes. O resultado da tragédia foi a total destruição das instalações e dezenas de corpos carbonizados. No incêndio morreram personalidades ilustres da sociedade parisiense. 

No final da trágica noite foram recolhidos cento e onze cadáveres, seus corpos levados para a Catedral de Notre Dame. Toda a cidade de luto, os teatros fechados, por fim, o comovente funeral assistido pelo Presidente da França.

Foi o primeiro grande desastre do Cinema que praticamente viu-se transformado em espetáculo marginalizado e restrito aos espaços circenses. Mas outros viriam a ocorrer, com a imprensa alertando para os perigos do cinematógrafo, prejudicando a confiabilidade dessa forma de diversão.

 O Cine Merceeiros sofreu um incêndio no dia 1° de novembro de 1935, na sessão comemorativa do 5° aniversário. Depois do sinistro, o cinema encerrou as atividades em definitivo.  

Em Fortaleza, além do sinistro no Cinematógrafo de Arlindo Costa, houve décadas mais tarde, a destruição pelo fogo de dois dos seus cinemas fixos. No dia 1° de novembro de 1935, na sessão comemorativa do 5° aniversário, incendiou-se o Cine Merceeiros. O incêndio teve início de uma faísca desprendida da chave de ligação, em curto-circuito, atingindo os rolos de fita. Embora o projecionista tenha procurado restringir o fogo, jogando o material incendiado no chão, as chamas se propagaram. O sinistro determinou o fechamento definitivo do cinema, mas não fez vitimas entre os espectadores. 

Praça do Ferreira com o prédio do Cine teatro  Majestic Palace - anos 30

O imponente Cine-teatro Majestic-Palace foi destruído pela ação de dois devastadores incêndios. Ocupando o terreno aos fundos do edifício de cinco andares, construído por Plácido de Carvalho, na Praça do Ferreira, perdeu a sua entrada e a ampla sala de espera com seus espelhos e cartazes, que ficavam no térreo do edifício, incendiado em 4 de abril de 1955. Uma catástrofe que consumiu também as Lojas Brasileiras 4.400 e atraiu a atenção da cidade. Sobreviveu o salão do Cine Teatro, em estrutura metálica, que ganhou uma nova entrada, mais acanhada, pelos fundos do prédio, à Rua Barão do Rio Branco. 



Incêndio do Cine-teatro Majestic-Palace em 1955 e o que restou do prédio, em fotos da ABA Film 

No segundo incêndio, no início do dia 1° de janeiro de 1968, o fogo devorou por completo o tradicional cinema, que já completara 50 anos de atividades. O incêndio foi percebido as 2 horas da madrugada do dia 1° de janeiro, pelas poucas pessoas que transitavam pela Praça do Ferreira, que notaram  que havia fumaça no interior do Cine Majestic. Apesar da ação pronta dos 70 bombeiros e 8 carros comandados pelo tenente Moacir de Sousa, três horas depois do início do incêndio, só restaram a sala de espera, a entrada e os dois projetores, encerrados em cabines de cimento armado. O teto desabou, as cadeiras foram destruídas, assim como os cartazes.

Com a impossibilidade de debelar as chamas e salvar o que tinha no interior do cinema, os bombeiros trataram de isolar a Farmácia Pasteur e a Loja Ocapana  matriz, que estavam ameaçadas pelo fogo. Às 7:30 horas, depois que o fogo estava completamente debelado, a guarnição do Corpo de Bombeiros regressou ao quartel.

extraído do livro A Tela Prateada, 
de Ary Bezerra Leite
fotos do livro Tela Prateada e do Arquivo Nirez

    

sexta-feira, 6 de março de 2015

A Hora do Comerciário - O Programa do Horário do Almoço

Naquele tempo, início dos anos 40,  com a cidade ainda muito provinciana, o comércio abria às 7:30 da manhã, fechava para o almoço às 11:00, reabria às 13:00 e encerrava o expediente às 17:30. É difícil acreditar que num tempo que nem é assim tão distante, as lojas fechavam para o almoço, ficando o centro semelhante aos domingos e feriados, quando o movimento era quase nenhum, pois não haviam os camelôs que hoje ocupam todos os espaços. Também não existiam as movimentadas lanchonetes, os cinemas só iniciavam suas sessões a partir das 15 horas, com exceção do Majestic que abria ao meio dia, com uma programação popular de seriados e “westerns”.

Centro - Praça do Ferreira

A cidade pequena, o comércio fechado entre onze e treze horas, era dos mais insignificantes o movimento de pessoas e de veículos. Como os bairros eram muito próximos do centro, os comerciários iam almoçar em casa, e logo estavam de volta, permanecendo defronte aos estabelecimentos onde trabalhavam, aguardando a reabertura para o 2° expediente.

Edifício Diogo

Foi por causa disso que a Ceará Rádio Clube descobriu que podia atenuar esse tempo de espera e criou o programa “A Hora do Comerciário”, que na verdade era um pequeno show ao vivo, que não era levado ao ar. Uma forma que a emissora encontrou para movimentar o centro naquela hora.

“A Hora do Comerciário” era um programa descontraído, simples e sem maiores preocupações de produção, mas impecável na sua simplicidade, o incomparável padrão de qualidade, característica da emissora Associada.

discoteca da Ceará Rádio Clube no Edifício Diogo. Milhares de discos de cera cuidadosamente guardados em estantes envidraçadas
O auditório da Ceará Rádio Clube era de proporções mínimas e ficava localizado no oitavo andar do Edifício Diogo. O palco não passava de um estrado de madeira envernizada onde ficavam os animadores, os músicos e os cantores. Ao fundo, uma bonita e pesada cortina azul tirava a visão da grande parede de vidro. O micro auditório, porém, era bastante confortável, com poltronas anatômicas e janelas basculantes no lado nascente, garantindo ventilação contínua.

O apresentador galã João Ramos, era o animador de “A Hora do Comerciário” e apesar do fato de não estar no ar, era honesto e fazia tudo com muita alegria e animação. A simplicidade do programa não exigia a presença da orquestra que era composta em parte por velhos professores, apenas o chamado “Regional” acompanhava os cantores. 


Os cantores que se apresentavam na “A Hora do Comerciário” eram a estrelíssima Tânia Maria, Gilberto Milfont, Otávio Santiago, Mário Alves, Epaminondas e Evaldo Gouveia. Os três últimos viriam a formar o Trio Nagô, que fez enorme sucesso.

Trio Nagô
Do horário que antecedia o programa e até o seu término, era dos mais intensos o movimento dos dois elevadores e na escada do edifício Diogo, com o público naquele frenético sobe e desce, entra e sai, como se o fato de chegar e logo sair já valesse como presença ao espetáculo. O auditório era dos mais animados, moças e rapazes em seus uniformes de trabalho, que não economizavam aplausos às atrações que desfilavam sob o comando do carismático João Ramos.

Era assim o rádio naquele tempo, quando o Ceará contava com uma única estação com o requinte só comparável às grandes redes de televisão dos nossos dias.

extraído do livro Coisas que o tempo levou - A Era do Rádio no Ceará 
de Marciano Lopes

quarta-feira, 4 de março de 2015

O Abandono do Centro


A Praça do Ferreira,  oficialmente declarada  em 2001 “Patrimônio Histórico e Patrimonial de Fortaleza”, está visivelmente abandonada pelo poder público: bancos quebrados, arborização mal cuidada, fonte desligada e sem manutenção,  invadida por moradores de rua, que ali dormem, fazem suas necessidades, jogam restos de alimentos. Sob o olhar complacente dos gestores, a Praça do Ferreira, o coração de Fortaleza, amarga a perda de sua importância histórica e agoniza diante de olhos desatentos e indiferentes.   


Abandonado pelas camadas de alta renda e esvaziado no que se refere a atividades de lazer, cultura e administração, o Centro de Fortaleza foi apropriado pelas camadas populares. Nos anos 1980/90, tornou-se uma área tipicamente comercial e de serviços, direcionada à população de menor poder aquisitivo. Suas praças, antes voltadas para o lazer dos segmentos mais abastados, foram sendo convertidos em terminais de ônibus – Praça José de Alencar, Praça Castro Carreira, Praça do Coração de Jesus – ou em mercados informais (Praça da Lagoinha, Praça José de Alencar, Cidade da Criança).

A consolidação da Aldeota a partir da década de 1980, como local de lazer e comércio e a construção dos shoppings centers na Aldeota e no Cocó contribuíram para a decadência do centro. 

Um dos indícios mais claros de como os shoppings ajudaram a esvaziar o centro de Fortaleza foi o fechamento dos cinemas da região: o Cine Diogo encerrou as atividades em 1997; o Jangada em 1996; o Fortaleza, em 1999. 0 São Luiz, depois de alguns anos inativo, foi reaberto recentemente.

No Centro as calçadas não servem mais aos pedestres: quase todas estão ocupadas pelos camelôs
   

Para desgosto dos setores dominantes, as ruas do centro foram invadidas por milhares de camelôs, com suas barraquinhas onde são vendidos inúmeros produtos populares, vários deles de procedência duvidosa.A questão da ocupação do Centro pelos camelôs não é nova nem inédita. Em trecho do romance “A Normalista” Adolfo Caminha descreve o comércio ambulante nas ruas de Fortaleza em torno de 1870.   

A principio, as autoridades enfrentaram o problema do comércio informal como uma questão afeta à área da saúde. Somente após 1970, o poder público passou a ar atenção ao comércio ambulante através de adoção de medidas repressivas e disciplinadoras baseadas em questões relativas à higiene e ao trânsito. No final dos anos 70 foram adotadas políticas de urbanização relacionadas ao uso do espaço público, visando implementar medidas que promovessem o controle e o ordenamento daquelas práticas comerciais populares.


Assim, por diversas vezes, a Prefeitura Municipal procurou controlar esse processo de apropriação do espaço público, através do cadastramento dos comerciantes ambulantes,  restrições de áreas que podem ser ocupadas e mesmo o deslocamento para outras áreas, o que porém, nunca resolveu nem acabou com o problema – ao contrário, a quantidade de ambulantes só aumentava. As tentativas de transferências são sempre fortemente recusadas pelos vendedores, num sinal claro da importância do Centro para esse tipo de comércio popular, em razão da grande concentração de consumidores de baixa renda. Além da resistência dos camelôs em abandonarem a área, acrescenta-se ainda a transformação de praças e ruas em pontos terminais de ônibus, o que leva a concentração de muitos eventuais consumidores. 

Sem a presença das classes dominantes, a área central da cidade foi negligenciada pelo Estado, se deteriorando: calçadas estreitas, totalmente ocupadas pelos comércios, intensa poluição visual e sonora, falta de higiene, de segurança, pobreza das fachadas dos imóveis, ausência de limpeza pública. Muitos dos antigos casarões desmoronaram e foram transformados em estacionamentos para veículos. Criou-se um ciclo vicioso de segregação espacial e deterioração: ao consolidar-se como área de comércio para pobres, o Centro teve suas possibilidades reduzidas com relação a uma possível melhoria  na  qualidade espacial, visto que as camadas populares não exercem pressão nesse sentido.

Nas fotos, moradores de rua na Praça do Ferreira, e o comércio ambulante na Praça José de Alencar, na calçada do teatro. 


Urbanistas defendem que, a valorização do Centro de Fortaleza, passa por uma reocupação dos espaços, (re)atribuindo-lhe funções administrativas, artísticas, culturais, lazer e habitacional, o que é pouco provável, pois grandes setores econômicos privados não têm interesse na região. Atualmente é relativamente pequena a quantidade de imóveis residenciais efetivamente ocupados. 


extraído do livro: Fortaleza: uma breve história
de Artur Bruno e Airton de Farias
fotos do acervo do blog