domingo, 29 de setembro de 2013

Rua 15 de Novembro

A 15 de Novembro é o nome de uma rua no Montese que, a exemplo da velha Estrada do Gado, é uma parte integrante da história do bairro. Quando o bairro ainda era chamado de Pirocaia, a rua era apenas uma estrada margeada de cerca de arame farpado, desde a Avenida João Pessoa ate um sítio de propriedade da família Monteiro.



Com a construção do campo de pouso do Cocorote em 1942, ampliado no ano seguinte, aquela propriedade foi cedida, inclusive aos americanos aquartelados em Fortaleza.  Uma capelinha dedicada a Nossa Senhora Aparecida, existente ali, foi demolida.  Naquela época, a antiga estrada foi pavimentada em pedra tosca revestida de cimento, passando a servir de único acesso ao aeroporto, durante e após a guerra até a construção da Avenida Luciano Carneiro no começo da década de 60. Com um quilometro de extensão, começando na Avenida João Pessoa, ali onde se localiza o Bar Avião, terminava no portão que dava acesso também à Base Aérea de Fortaleza. Atualmente ela termina na Avenida Carlos Jereissati.



Além do seu passado histórico, a Rua 15 de Novembro teve também o seu lado pitoresco. Por ela passaram importantes personalidades, não só nacionais, mas também muitos estrangeiros que visitavam o Ceará e desembarcavam no Aeroporto do Cocorote. Foram chefes de Estado, ministros, embaixadores artistas e muitas outras figuras importantes, inclusive oficiais e praças norte-americanos, sempre em carro aberto, expostos à curiosidade dos moradores. Esses carros, modelo Ford, Hudson e Mercury eram de propriedade do Sr. Altenor Ribeiro Câmara, que morava nas proximidades do portão da base  - e eram alugados à Panair do Brasil, para transporte dos passageiros que desembarcavam no Cocorote.  Com a pavimentação da via, os sítios e mansões deram lugar a novas construções e ao casario de hoje.


O antigo terminal do Aeroporto Pinto Martins - O aeroporto teve suas origens na pista do Alto da Balança, construída na década de 1930 e utilizada até 2000 pelo Aeroclube do Ceará. Durante a Segunda Guerra Mundial, serviu de base de apoio às Forças Aliadas, época em que foi construída a segunda pista de pousos e decolagens (Base do Cocorote), que é a atual pista principal do Aeroporto de Fortaleza. Em 13 de maio de 1952, o aeroporto ganhou o nome de Pinto Martins. (foto O Povo)

Fachada atual do Aeroporto Pinto Martins

Não se sabe exatamente o ano, mas presume-se que tenha sido no período da guerra, por ocasião da transferência do campo de pouso do Pici para o Cocorote que, Antônio de Paulo Lemos, inspirado pela presença constante de aeronaves entre a Base do Pici e do Cocorote, teve a ideia de construir, em frente ao Asilo (Hospital São Vicente de Paulo), início da Rua 15 de Novembro, uma caixa d’água no formato de um avião bimotor, o que deu origem ao famoso Bar Avião, que foi ponto de encontros e hoje é referência entre Montese e Parangaba. 

Bar Avião à época da inauguração, na década de 1940 (arquivo Nirez) 
  
Bar Avião atualmente, em reforma (foto de set/2013)

A notoriedade da Rua 15 de novembro deveu-se também ao fato de que durante a guerra, com a presença de oficiais e praças norte-americanos, tornou-se um dos lugares onde as garotas da alta sociedade fortalezense passeavam com seus namorados louros e de olhos azuis, quando saíam dos ambientes sociais no centro em cidade, em direção aos aposentos da tropa na Base do Cocorote. As moças, consideradas avançadas para a época receberam o apelido jocoso de Coca-Colas, uma analogia ao refrigerante um tanto desconhecido por aqui, mas largamente consumido pelos americanos. 


Estoril, na época em que funcionava como cassino dos oficiais americanos (USO) Foto Nirez

Os pontos preferidos pelos gringos para as suas diversões eram a Praça do Ferreira, o Bar Jangadeiro ou a Praia de Iracema, onde o Estoril servia de cassino para os americanos com as jovens cearenses. Foi também nessa época que a lagosta começou a ser valorizada, uma descoberta dos americanos na Praça do Ferreira, onde o produto era oferecido na calçada da Floriano Peixoto a preços baixíssimos. Nas bancas a lagosta era oferecida para cozida, pronta para ser consumida. E foi pela 15 de Novembro que saíram as primeiras remessas do produto, rumo ao Exterior. Era ali também que ficava a Fábrica Santa Cecília, que tanto contribuiu para a geração de emprego e para o desenvolvimento da indústria têxtil do Estado, e que lamentavelmente está há anos desativada. Longe vai o tempo em que se ouvia, às quatro e meia da manhã, o apito da fábrica chamando os empregados para mais um dia de trabalho, a maioria, humildes operários moradores nas redondezas.


Atualmente há um projeto de alargamento de 14 metros que, se executado, a Rua 15 de Novembro voltará a categoria de avenida, título que perdeu com a evolução do bairro. 


extraído do livro de Raimundo Nonato Ximenes
de Pirocaia a Montese


quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Futebol nas Praças

Time do Stella Futebol Clube - fundado por Alcides Santos, o time foi extinto poucos meses antes da fundação do Fortaleza. A criação de uma nova equipe, com as mesmas cores da anterior, estava no fato de que Alcides santos não sabia precisar a data de criação do Stella, o que tirava seu caráter oficial (foto do arquivo Nirez) 

Principais centros de socialização nas grandes capitais brasileiras nas primeiras décadas do século XIX, as praças públicas tiveram papel importante na popularização do futebol em Fortaleza.
Devido a inexistência de campos próprios para a prática do jogo na cidade, o improviso era nas praças.  O Passeio Público e, mais tarde, as Praças de Pelotas (atual Clóvis Beviláqua), Estação e lagoinha foram nossos primeiros estádios. O impulso que fez das praças espaço pra a prática do futebol foi dado pelo retorno de vários estudantes cearenses  de temporadas na Inglaterra, Suíça e Alemanha a partir de 1912. Desde 1905, um ano após o jovem José Silveira apresentar a modalidade ao povo cearense, o jogo vivia uma estagnação. O motivo era que a bola do cearense havia furado, e não existia nenhuma outra na cidade.

2° plano do Passeio Público, onde foram realizadas as primeiras partidas de futebol em Fortaleza (foto da Revista Fortaleza)

Os responsáveis pela volta do futebol em Fortaleza  foram José Gentil, Oscar e Jaime Loureiro, José Bruno Menescal, Paulo Fiuza Menescal, Walter Barroso, Meton e Carlito Pinto, Orlando e Walter Olsen e Humberto Ribeiro, que acabara de chegar do Rio de janeiro. Os rapazes promoveram torneios e formaram várias equipes a partir de 1912.
Eles se reuniam em família, convidaram amigos, e apresentaram uma bola de couro, adquirida na Inglaterra, da marca “Olimpique”, daquelas amarradas com cordão. A adesão foi em massa. O entusiasmo era grande e a rapaziada não deixava passar um fim de semana sem haver jogo.


Time do Guarani Futebol Clube, fundado em 1919 no Clube dos Diários no Palácio Guarani. Extinto em 1930 (foto reprodução - Arquivo NIREZ)

A partir daquele ano foi fundada pelo menos uma dúzia de times na cidade na mesma década, a maioria equipes informais que não duravam muito tempo: Stella – que seria extinto e seus dirigentes criariam o Fortaleza – Rio Branco – que mudou o nome para Ceará, Rio Negro, Humaitá, Hespéria, English Team, Tabajara, Riachuelo, Guarany, Fortaleza, Flamengo, São Cristóvão, Fluminense e Bangu.

Campo do Prado no Benfica, o primeiro estádio de futebol da cidade 

Em pouco tempo o número de torcedores já não cabia nas praças. Em 1913 os jogos passaram para um campo de corridas no bairro do Prado, onde hoje está o Instituto Federal do Ceará, o antigo CEFET. 
O empresário Alcides Santos, presidente do Stela e fundador da Liga Metropolitana de Fortaleza, criada dois anos depois, comprou o terreno e construiu arquibancadas de madeira. Nascia o Prado, o primeiro estádio de futebol da cidade. 

fonte:
Revista Fortaleza - fascículo 8

        

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Animando os Coretos

Os coretos populares construídos em praças públicas, surgiram no Brasil na segunda metade do século XIX, para atender cantadores, poetas e, principalmente, bandas de música que habitualmente se apresentavam nesses locais. Assim, estão fortemente associados a atrações musicais, embora algumas vezes tenham sido utilizados como palanques em períodos eleitorais. 

Coreto do Passeio Público, construído em 1879 por Tito Antônio Rocha (Álbum de Vistas do Ceará - 1908)

O primeiro coreto de Fortaleza surgiu no Passeio Público, construído por volta de 1879, pelo negociante português Tito Antônio Rocha, que tomou a si a tarefa de transformar o Passeio Público, naquele tempo  uma praça cheia de areia, em um logradouro público elegante e requintado. Para atrair a população para o local, e antes de começar os trabalhos, fez com que aos domingos, pela tarde, a música do 15° Batalhão tocasse dentro do recinto, junto do portão que dava para a Misericórdia. Depois, dentre outras realizações, o português levantou uma torre para a caixa d’água, bem em frente à Rua da Palma (Major Facundo), construiu o coreto da música e o botequim, sendo que o coreto tinha uma elegante coberta em forma de pirâmide. 

Praça Marquês de Herval (atual Praça José de Alencar) com seu coreto artisticamente trabalhado (foto do Álbum de Vista do Ceará-1908)

Na Praça Marquês de Herval existia, no centro da praça, um grande coreto coberto onde se apresentava duas vezes por semana a Banda de Música do Batalhão de Segurança. Como pode ser visto na foto antiga, estátuas e combustores rodeavam o coreto dando uma graça que era completada com o jardim, bancos e o catavento que alimentava a caixa d’água.  O coreto foi erguido em 1903, na grande reforma da praça empreendida pelo intendente Guilherme Rocha.

Coreto da Praça General Tibúrcio (Praça dos Leões em abril/2010) foto acervo do blog

O Coreto da Praça General Tibúrcio foi construído em 1914, na reforma do logradouro promovido pelo intendente Ildefonso Albano. Destinava-se a apresentação de bandas de músicas. O antigo coreto foi demolido e construído o atual.

Coreto da Praça do Ferreira utilizado em campanha eleitoral - 1931 (foto MIS)

O coreto mais conhecido foi sem dúvida o da Praça do Ferreira, mandado construir em 1925, pelo prefeito Godofredo Maciel, onde a filarmônica da policia Militar executava dobrados e outras belas canções à noitinha. O coreto foi demolido em 1933, pelo prefeito Raimundo Girão, substituindo-o pela Coluna da Hora.

Coreto do Passeio Público (abril/2013) foto acervo do blog

Hoje os coretos ainda sobrevivem sem nenhuma função cultural, desprovidos de coberturas, embelezamentos, sem maiores atrativos, nas praças do centro de Fortaleza, elas próprias abandonadas, carentes de manutenção e equipamentos, esquecidas da população e do Poder Público.

fontes:
José Liberal de Castro - Passeio Público - espaços, estatuária e lazer
Raimundo Girão – Geografia Estética de Fortaleza   
  
   

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

O Controle sobre a Mendicância

Em 1946 começou uma campanha de combate a mendicância pelas autoridades policiais. Prometia-se que os reais necessitados teriam assistência por parte do governo, e o combate seria contra os oportunistas, que ganhavam dinheiro sem trabalhar. As promessas governamentais difundiam-se no período eleitoral, expostas de modo genérico, sem apresentar uma medida concreta de assistência à pobreza. 

Faustino de Albuquerque, de paletó escuro, no lançamento de um loteamento na Praia do Futuro (foto Nirez)

O Desembargador Faustino de Albuquerque, em sua campanha ao governo do Estado,  garantia a eliminação da mendicância de rua, pela hospitalização dos mendigos doentes; ampliação do Asilo de mendicidade na capital, e criação de instituições semelhantes em algumas cidades do interior para recolhimento dos inválidos; encaminhamento ao trabalho útil e remunerado dos mendigos aptos ao trabalho.  Apesar das medidas adotadas visando os menos afortunados,  diariamente a imprensa reclamava contra o aumento do número de pedintes nas ruas centrais. 
O Asilo de Mendicidade localizava-se no bairro do Jacarecanga, tendo sido inaugurado em 1945 com o apoio das lojas maçônicas “Igualmente, Fraternidade Cearense” e “Amor e Caridade III”. A princípio funcionou no Benfica. Era dirigido por um Conselho Administrativo e outro Fiscal, contando com 158 internos, sendo 100 homens e 58 mulheres, que a partir das 18h30min não podiam mais circular pelos corredores, sendo recolhidos aos dormitórios. A faixa etária dos internos, mantidos com recursos públicos e do comércio local variava entre  76 e 81 anos.

O Asilo de Mendicidade do Ceará, foi inaugurado em 10 de setembro de 1905, fundado por esforços das lojas maçônicas Fraternidade, Igualdade e Amor e Caridade III, na Chácara Amaral, na Avenida Visconde de Cauípe (hoje Avenida da Universidade), depois transferido para a Chácara Virgínia Salgado (Praça Gustavo Barroso), no bairro do Jacarecanga, com frente para a Rua Júlio Pinto nº 1.832. Hoje no local funciona o Lar Torres de Melo.


Alguns residentes se tornaram conhecidos na cidade, como a “Noiva do Tempo” que durante muitos anos andou pelas ruas de Fortaleza com um véu cobrindo cabeça.  Também existiu a “Mimosa” que falecera pobre a lamentar os imaginários caixões de ouro que ganhara do imperador da Alemanha, e supunha roubados pelas autoridades brasileiras. Outros eram lembrados como o “Siri”, o “Cego Cabral”, que esmolava em diversos pontos, tocando seu realejo, além do sempre embriagado “treme-treme”. 

O Alberque Noturno Menezes Pimentel estava localizado no antigo Beco do Pajeú atual Rua 25 de março esquina com a Rua Pinto Madeira, nas imediações de onde hoje se encontra a sede do CDL. 

Ainda em 1945, a secretaria de segurança anunciava a inauguração no Beco do Pajeú, do Albergue Noturno, com três dormitórios e capacidade para 90 pessoas.  Um dos dormitórios era destinado a mulheres e crianças. O edifício seria administrado por uma organização religiosa e se divulgava que seria um dos melhores no gênero em todo o Brasil.

Rua 25 de Março (arquivo Nirez)

Alguns postos de assistência à pobreza se mantinham com o auxilio de paróquias, como os situados nos bairros do Mucuripe, Antônio Bezerra, Porangabuçu, Tauape, Francisco Sá e Bezerra de Menezes.  Essa ajuda representava uma muito pouco em relação ao número de desassistidos, mas aumentava o número dos que dormiam ao relento, nas praças ou nas portas de casas comerciais.

Após assumir o governo do Estado, Faustino de Albuquerque entusiasmou-se com um plano para extinguir a mendicância em Fortaleza:  a Hospedaria Getúlio Vargas, mantida pelo Ministério do Trabalho, fora construída para abrigar os soldados da borracha, nordestinos que durante a 2ª. Guerra foram encaminhados aos seringais do Amazonas. A hospedaria tinha capacidade de abrigar 1.200 pessoas.

Hospedaria Getúlio Vargas (foto O Povo)

A escolha da Hospedaria Getúlio Vargas como solução para a pobreza se chocava com a precária situação do lugar. Em 1949, diversas famílias passaram por grandes dificuldades ali, pois a comida distribuída não correspondia ao número de pessoas assistidas. Contudo, a iniciativa estatal de combater a mendicância continuava a vigorar, mantendo-se presa ao imediatismo desejado. O Asilo de mendicidade e a Santa Casa de Misericórdia, dependiam do apoio de setores administrativos do Estado para sanar o dilema dos indigentes.
Passados tantos anos de providências, abrigos, asilos e albergues, eis o estágio atual de mendigos e maiores abandonados, moradores das ruas de Fortaleza.





 extraído do livro de Gisafran Nazareno Mota Jucá
Verso e reverso do perfil urbano de Fortaleza (1945-1960)
sites consultados:
portal.ceara.pro.br


quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Um Par de Becos e Meia Dúzia de Ruas

Segundo Mozart Soriano Aderaldo, nossa capital, a exemplo de Roma, é construída sobre colinas. As elevações repartiam os cursos d’água que iam ter com o mar, o Pajeú ou o Cocó. O riacho que partia da Praça do Ferreira em direção ao Pajeú, alcançando-o na altura do Mercado Central, era um eles. Outro curso d’água se dirigia da Praça Clóvis  Beviláqua em demanda da lagoa do Garrote, passando nas proximidades da Praça do Livramento (atual Praça do Carmo). Esses riachos serpenteavam entre os outeiros.


Lagoa do Garrote, hoje um lago canalizado dentro da Cidade da Criança (Parque da Liberdade)
  
O caminho das águas foi interrompido pelas ruas. O forte, contíguo ao quartel da Guarda Nacional, serviu de parâmetro, daí surgindo a rua do Quartel, hoje General Bezerril, e a rua de Baixo, à margem esquerda do Pajeú ou dos Mercadores, ou Rua Direita (atuais Avenida Alberto Nepomuceno, e ruas Sena Madureira e Conde D’Eu. Os bairros apareciam identificando a cidade: do Outeiro, da Prainha e do Comércio, este último representando a cidade propriamente dita.


estrada Fortaleza-Parangaba, em 1929 (foto O Povo)

Sendo Fortaleza meia dúzia de ruas, duas praças e um par de becos (o Beco das Almas, que cresceu Rua São José e o Beco da Apertada Hora, renomeado Rua Governador Sampaio). Distantes as estradas de Messejana, Parangaba e Jacarecanga. Até a metade do século XIX, a cidade se via nas ruas: era a Rua da Amélia, Praça do Ferreira, Praça Carolina, Rua das Flores (Castro e Silva), pelo rastro dos mortos. Travessa da Municipalidade (Rua Guilherme Rocha), por ladear o prédio da Intendência Municipal; da Misericórdia (Dr. João Moreira), por conta da Santa Casa; São Bernardo (Pedro Pereira), devido a Igreja de São Bernardo; Rua do Cajueiro (Pedro Borges). As travessas da Assembleia (São Paulo) do Gasômetro (Senador Jaguaribe) e do Chafariz (José Avelino) são autoexplicativas.

Ladeira do Gasômetro, sentido praia/sertão com o prédio da Santa Casa no alto 

Em 1817 os vereadores determinaram o uso de placas com o nome dos logradouros. Mas o povo continuava a se orientar pelos nomes conhecidos e pelo cotidiano de flores, almas, trincheiras e chafarizes. O costume era tão arraigado entre a população que até os responsáveis pelas procissões davam ciência dos itinerários através de publicações na imprensa, comunicando que a procissão passaria em frente à casa de pessoas conhecidas da população.


Igreja de São José, a antiga Catedral de Fortaleza

Um exemplo desse hábito corrente na Capital é o anúncio publicado no jornal “A Constituição” pelo vigário interino da catedral sobre o percurso da procissão de encerramento do mês mariano de 1864:
Hoje às 4h da tarde sairá em procissão a imagem da Santíssima Virgem conduzida pelos fiéis, cuja direção será a seguinte:
Sairá da Catedral pela Rua de Baixo, entrará na Rua do Garrote pela travessa que existe diante da casa do Sr Cônsul Gouveia, e daí prosseguirá em direção à Praça da Municipalidade, passará na frente da casa do Sr. Feijó, em cuja travessa entrará em direção ao Palácio Episcopal, prolongando-se pela rua abaixo, voltará na quina do Senhor Cônsul Rocha Júnior, em procura da frente do Senhor Barbosa, e daí entrará na travessa mais próxima, que é a do Senhor Santos, encaminhando-se à casa da Carolina, passará na frente do Senhor Paes Pinto, onde voltará para a Catedral da Sé.
Assinado: João Leite de Oliveira – vigário interino.     

fontes:
Revista Fortaleza, fascículo 9
Fortaleza Velha, de João Nogueira
fotos do Arquivo Nirez

terça-feira, 17 de setembro de 2013

A Formação Urbana

Rua da Praia, atual Avenida Pessoa Anta com o prédio da Alfândega

Capital do século XIX, Paris foi molde para as cidades que se formavam.  Feita por linhas tortas à época, seguindo  o curso dos rios, a então Vila de Fortaleza de Nossa Senhora de Assunção remodela-se à imagem e semelhança de Paris. A cidade não se instalou por acaso, seguiu um traçado urbano, a reforma urbana que aconteceu em Paris serviu de modelo para Fortaleza. Mas a cidade demorou a crescer. O Ceará é de colonização tardia devido a fatores diversos como o difícil acesso, o mar de vagas traiçoeiras, o terreno arenoso das dunas, rios que desaparecem no meio do curso, e o clima semi-árido, quente com areias escaldantes.


Construído na primeira metade do Século XIX, foi adquirido pela Tesouraria da Fazenda em 1886 e transferido em 1892 para o Bispado de Fortaleza. 

A cidade vista dos seus outeiros cabia no espaço de uma janela. A Fortaleza de 1861 era um arremedo de cidade. Situava-se entre as ruas da Praia atual Avenida Pessoa Anta e da Misericórdia atual Dr. João Moreira (Norte), de Baixo, atual Rua Conde D'Eu, (Oeste), Dom Pedro, atual Pedro I (sul) e Amélia (Oeste). Fora deste circuito, excetuados o Palácio do Bispo, (atual Paço Municipal) o Colégio das Irmãs (da Imaculada Conceição), e o Seminário da Prainha, tudo eram areias, casas de palha, uma ou outra casa de tijolo com sofrível aparência. 


o Colégio da Imaculada Conceição foi inaugurado em 1865, pelo bispo Dom Luis Antônio dos Santos    

Considerava-se uma loucura edificar para além destes limites, tão longe se ficava da cidade.
Por volta de 1887, a capital do Ceará apresentava praticamente as mesmas características da cidade colonial de 20 nos antes. Para além das cinco ruas limítrofes, apenas sítios que demorariam a serem os bairros – Outeiro, Otávio Bonfim, Jacarecanga, Tauape, Alagadiço, Calçamento de Messejana – naqueles tempos tomados de cajueiros esgalhados, de coqueiros esbeltos e copadas mangueiras.


Praia Formosa, na foto considerada a mais antiga de Fortaleza, datada de 1892

Só com o algodão,  Fortaleza, então uma das cidades mais inexpressivas na história urbana do Brasil, consegue se inserir no cenário comercial. A exportação do produto torna a vila a sétima capital brasileira em fins do século XIX. Esse período foi o máximo do aformoseamento e de um processo civilizatório que modifica costumes e construções. Na medida em que Fortaleza tem acumulação do capital, vai ter o glamour correspondente: surgimento dos clubes, de uma elite, de tudo que está ligado a um padrão francês de qualidade – que é a manifestação do modus vivendi da burguesia copiando o padrão da nobreza europeia. 

O Passeio Público foi o simbolo do glamour e do afrancesamento de Fortaleza  

Paris era o modelo cultural, mas não se pode esquecer a presença britânica. O capital e as técnicas eram ingleses. Comerciantes franceses e ingleses, colonizadores portugueses e religiosos alemães, holandeses e italianos dão um toque  a um lugar feito à base de farinha, carne-de-sol,  peixe moqueado, manteiga de garrafa. Apesar de ser forte essa cultura de sertão, o estrangeiro influencia a classe média alta da cidade, que sempre copiou os maneirismos dos visitantes.  


fontes:
Revista Fortaleza - fascículo 9 - extraído do artigo Cidade "A La Belle Maniere"
História Abreviada de Fortaleza e crônicas sobre a cidade amada, de Mozart Soriano Aderaldo. 
fotos do arquivo Nirez

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

De Flores e Guerras

Era o dia 18 de agosto de 1942. Tudo começou tão de repente que nunca se soube ao certo como teve início, e quem liderou. A turba furiosa avançou sobre todos os estabelecimentos, escritórios e até residências de cidadãos das chamadas nações integrantes do Eixo. Alemães, italianos e japoneses, e seus descendentes, foram alvo de incontrolável manifestação de ódio por parte da massa insatisfeita, com a posição dúbia do governo brasileiro em relação ao conflito.  O povo não admitia a posição oficial brasileira, refletindo a ideologia fascistoide do Estado Novo de Getúlio Vargas. 

Jantar do Rotary Club no Palace Hotel, em 1936, onde estão as bandeiras da Alemanha e da Suástica. As boas relações entre os dois países, fez com que o Governo de Vargas demorasse a assumir uma postura frente ao conflito mundial. (foto Nirez) 

Durante a manifestação de 18 de gosto, a turba desenfreada buscou além dos estabelecimentos dos súditos do Eixo, também as casas comerciais cujos proprietários teriam tido ou ainda tinham ligação com o Integralismo. No meio da multidão, alguém gritava o nome de uma loja qualquer como de propriedade de um integralista. E logo a violência se voltava contra ela. Assim aconteceu com “ O Gabriel”, veterano estabelecimento comercial de miudezas, localizado à Rua Floriano Peixoto, em frente à sede dos Correios. Seu proprietário, Gabriel Jardim, era uma figura conhecida por na cidade. Sua loja era a maior venda de imagens de anjos e santos, ramo em  que também se especializou outro comerciante muito católico, “O Epitácio”. 


Como a Igreja católica tinha naquela fase histórica, profunda inclinação direitista, com numerosos membros militando no Integralismo. Gabriel, por certo sem nenhum embasamento ideológico, aproximou-se dos “camisas verdes”.
Outros estabelecimentos atingidos pelas mesmas razões, foram a loja “A Cruzeiro”, que por essa época funcionava nos baixos do Excelsior Hotel e o armarinho “Ubirajara”, na Major Facundo quase esquina com a Guilherme Rocha.

A loja Pernambucanas foi incendiada e saqueada. (foto do Livro Ah, Fortaleza!)

Outro alvo das manifestações de ódio foi o japonês Guilherme Fujita  (nascido Jusaku Fujita) que cultivava um jardim e fornecia flores para as cerimônias festivas ou tristes da Fortaleza provinciana daquela primeira metade do século.
Com o fruto do seu trabalho árduo, o imigrante japonês mantinha com desvelo e carinho a numerosa prole nascida no Estado do Ceará. Ignorando esse fato, na irracionalidade das atitudes das massas descontroladas, os manifestantes invadiram o bucólico Jardim Japonês, no Otávio Bonfim, destruindo tudo e ameaçando a própria vida da família oriental.
Vizinhos que presenciaram o drama protegeu a família da ameaçadora agressão. Durante vários dias os Fujitas tiveram o abrigo de pessoas amigas, numa prova de que em momentos de insanidade coletiva, muitos conseguem manterem-se serenos e lúcidos, para impedir as consequências mais graves do desvario geral.
Terminada a guerra, superadas as desavenças, o japonês Fujita conseguiu se recuperar voltou a trabalhar com suas rosas e flores no Jardim Japonês, que funcionou no seu antigo local, na atual Avenida Bezerra de Menezes, onde hoje se encontra um supermercado,  até a década de 60.

fontes:
Blanchard Girão em O Liceu e o Bonde
Jornal O Povo

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Escola de Música do Ancuri


A casa foi construída pelo padre Wilson Fernandes em terreno da Prefeitura de Itaitinga, para servir como forte referência da Escola de Música do Ancuri, fundada em 1982 (foto Nirez)

Localizada na “faixa de gaza” entre os municípios de Fortaleza e Itaitinga, a Escola de Musicado Ancuri foi criada pelo Frei Wilson Fernandes da Silva, que idealizou a escola para incentivar os jovens de comunidades carentes e oferecer a oportunidade para o aprendizado do manejo de instrumentos musicais e de regência. 
Instalada num castelo em estilo bávaro,  construído em 1989, com três pavimentos, a escola começou com apenas 6 alunos que aprendiam a tocar flauta.  Depois a escola foi crescendo e acolhendo outros alunos, com outras aspirações.
A Escola de Música já foi referência na formação de crianças e jovens instrumentistas e já abrigou simultaneamente 260 alunos. Mas desde o primeiro semestre de 2005, as atividades, incluindo a orquestra sinfônica, foram  paralisadas por falta de verbas. Hoje, as portas do casarão de três andares estão fechadas.  O fechamento da Escola de Música repercutiu no imóvel, que por falta de manutenção, apresenta sinais de degradação no seu interior. 


Em razão do estado de degradação do imóvel, a Prefeitura de Itaitinga não descarta a demolição do local, que se restringiu às paredes. Por dentro, o imóvel é oco, com compartimentos estreitos e incompatível para o funcionamento de uma unidade de ensino para músicos.

Bonito por fora e vazio por dentro, o castelo já cedeu parte de seus compartimentos para o funcionamento de um depósito de material de construção. As paredes perderam o reboco e deixam visível a alvenaria. O portão principal está sempre aberto, o que favorece a entrada de pessoas no terreno, onde também há um pequeno pomar com frutas regionais.  
Na parte interna, há um mural retratando a Jerusalém bíblica. Esse é um dos poucos ornamentos que ainda restou, apesar do abandono. Já as salas de aula deram lugar a outras alternativas de subsistência.
A escola foi desativada após não ter o convênio renovado com a Prefeitura de Fortaleza, mas o sonho tanto dos alunos, quanto do idealizador e dos moradores do bairro do Ancuri, é ver a escola funcionando novamente. 


O bairro do Ancuri no limite entre Fortaleza e Itaitinga, fica entre os bairros Pedras, Paupina, Messejana e Jangurussu, com cerca de 14 mil moradores.  Detentor de extensa área verde mantida por um conglomerado de sítios, o bairro conta com uma baixa densidade populacional e preserva a arborização, especialmente de mangueiras e cajueiros. A distância para o Centro é estimada em oito quilômetros. O bairro possui poucas ruas pavimentadas, prevalece o uso de piçarras e as ruas se assemelham a becos. Outra dificuldade de infraestrutura é a falta de calçadas, o que obriga os pedestres a trafegarem pelas vias de rolamento, inclusive por onde passam os ônibus.

fonte:
Jornal Diário do Nordeste

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Processo de Implantação do Parque Industrial do Ceará

Siqueira Gurgel/Usina Ceará, frente voltada para a Avenida Bezerra de Menezes

As indústrias instaladas no Ceará, no período que vai do final do século XIX até a década de 50 e que compreende a primeira fase de implantação industrial estiveram voltadas, principalmente para o aproveitamento da produção agrícola regional. A indústria têxtil foi a primeira a se instalar em Fortaleza, como nos demais centros urbanos nordestinos, para onde convergia a produção algodoeira. Aliás, esta é a primeira indústria a se desenvolver nos chamados países subdesenvolvidos, não só pela presença de mercado, mas também por ser tecnicamente mais simples. 
No caso específico de Fortaleza, a presença da matéria-prima favoreceu sua instalação, tendo em vista o desenvolvimento da cultura do algodão, principal produto agrícola do Estado. 



Ligada à têxtil, desenvolveu-se a indústria de óleos vegetais, aproveitando o caroço de algodão. Também visando a produção de óleo, foram industrializados a mamona, a oiticica, e o babaçu, destacando-se a capital cearense como um dos principais centros produtores de óleos vegetais no Nordeste. 

 Fábrica Progresso, na Avenida do Imperador

O marco inicial do processo de implantação industrial no Ceará foi a fundação em Fortaleza, em fins do século XIX, da Fábrica Progresso. Esta posição se justifica pelo fato de que antes da instalação da Fábrica Progresso, a única atividade equipada com máquinas foi a tipográfica. Ainda em fins da década de 1920, surgiu em Fortaleza um novo empreendimento industrial de significativa importância, visando o aproveitamento do óleo de oiticica. A iniciativa partiu de comerciantes locais que instalaram uma pequena usina de prensagem para obtenção  do óleo , acreditando nas possibilidades do emprego da oiticica como matéria-prima para a indústria de óleos secativos. Entretanto, devido a problemas técnicos e financeiros, a indústria só veio a funcionar regularmente em 1934, quando foi encampada por capitais estrangeiros.  

Fábrica de Tecidos São José, no Jacarecanga, na Avenida Philomeno Gomes esquina com a Rua Tenente Lisboa.

As indústrias de maior vulto que surgiram em Fortaleza no período que vai da instalação da Fábrica Progresso até 1930, estavam voltadas para um maior aproveitamento do algodão, como a Siqueira Gurgel, fundada em 1925, e a Philomeno Gomes, instalada em 1926.
Nos anos 40, o maior número de fábricas instaladas em Fortaleza foram nos ramos de beneficiamento da cera de carnaúba, produção de óleos vegetais e sabão, além de indústrias têxteis de beneficiamento do algodão e de fiação e tecelagem.  

embalagens de produtos fabricados pela Siqueira Gurgel e Usina Ceará, no bairro Farias Brito

Data do começo da década a fundação da Fábrica de Tecidos Santa Cecilia do Cotonifício Leite Barbosa. Já na segunda metade da década de cinquenta, proliferou a instalação de pequenas unidades fabris, sobretudo do gênero alimentar, como as panificadoras, entre outras, para atender a população crescente da capital cearense.
Entretanto, muitas destas pequenas unidades de bens de consumo de primeira necessidade, foram instaladas em condições precárias e a rigor nem poderia ser consideradas como indústrias. 

Padaria Ideal, inaugurado no dia 1° de abril de 1925, na Rua Barão do Rio Branco. 

A implantação industrial nessa fase, processou-se espontaneamente e foi realizada por grupos locais que conseguem mobilizar os recursos financeiros disponíveis na região, adquiridos, sobretudo, através das atividades agrícolas e comerciais. A propriedade industrial manteve-se até a década de 50 nas mãos de grupos familiares.
Não só surgiram indústrias de beneficiamento de produtos agrícolas para exportação, como também aquelas voltadas para o atendimento do mercado criado pela própria economia exportadora. 

Fábrica da Brasil Oiticica, na Avenida Francisco Sá (foto IBGE)

O comportamento da indústria e dos serviços numa economia voltada para a exportação de produtos primários, é uma função direta da situação desse setor, ou seja, o mercado criado pela produção dos bens exportados. Daí terem sido criadas, em centros como Fortaleza, indústrias tradicionais, mais precisamente têxteis, que produziam tecidos grosseiros para atender um mercado regional de baixo poder aquisitivo. Em outras palavras, a estrutura econômica vigente no Nordeste, contribuindo para a manutenção de baixos salários condicionou a implantação de indústrias tradicionais de baixa produtividade, produtoras de bens de consumo simples e de baixo preço.


Extraído do artigo Aspectos Históricos da Industrialização no Ceará, 
de Zenilde Baima Amora
Publicado no livro História do Ceará, coordenadora Simone Souza
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