quinta-feira, 30 de maio de 2013

Os Bondes Elétricos da Ceara Tramway Light and Power Co. Ltd

 A substituição dos bondes de tração animal pelos tramways ou bondes elétricos envolveu transações que se prolongaram por quase cinco anos. Desde que Tomé Augusto da Mota adquiriu a antiga empresa Ferro-Carril do Ceará, e asssumiu a concessão de transportes urbanos por força da lei n° 916, de 24 de agosto de 1907, a intenção era trazer para a cidade um sistema mais moderno. 

Assentamento dos trilhos de bondes elétricos na rua 24 de janeiro, atual Rua Guilherme Rocha - maio de 1913 (foto do livro A História da Energia no Ceará)

Com o estudo de viabilidade favorável e prévios acertos com os investidores britânicos, a operação final foi assegurada pela ampliação da concessão, no contrato firmado a 12 de maio de 1911, incluindo como atrativo, não só os bondes elétricos, mas os serviços de luz e força elétrica na região de Fortaleza. Este ato foi complementado pela venda formal de direitos ao grupo inglês, por 178 mil libras esterlinas, conforme registro em cartório em 24 de junho de 1912. 
Instalava-se dessa forma a The Ceará Tramway Light and Power Co. Ltd. na capital cearense com o objetivo imediato de promover os transportes urbanos com tramways, que no Brasil foram chamados de bondes elétricos. 

 circulação de bondes na Rua Major Facundo, trecho da Praça do Ferreira (arquivo Nirez)

A empresa inglesa constituída com o exclusivo objetivo de operar no Ceará, tinha sede em Londres, na New Broad Street, n° 42. Nos contratos a empresa indicava que o seu escritório em Londres, era o n° 4, no London Wall Buildings e sua diretoria era composta por C. Hunt, A.A. Campbel Swinton, E.B. Forbes e Sir Howland Roberts. Para administrar a empresa em Fortaleza, foi contratado Hugh Mackeen, nascido no Ceilão. Ele seria o primeiro gerente local e teve papel decisivo na realização das obras iniciadas a 9 de maio de 1912.
Em termos efetivos, a operação de transferência de concessão e compra da Ferro-Carril deu ao grupo inglês total responsabilidade de gestão dos transportes coletivos locais. Continuaram os bondes a burro, aguardando as obras que viabilizariam a substituição gradual por bondes elétricos. 

 Usina da Ceará Light no Passeio Público (foto do arquivo Nirez)

No dia 9 de maio de 1912, no local da futura usina elétrica, correspondendo ao terceiro plano do Passeio Público, em frente à Rua da Praia, realiza-se uma festividade para descerrar a pedra fundamental. Foram 18 meses de trabalho para montagem da usina, das linhas de transmissão, e para implantação dos serviços técnicos e de apoio. A equipe dirigente da Ceará Light, em Fortaleza, era formada quase que exclusivamente por cidadaõs ingleses. Foi representante local da diretoria inglesa o Engenheiro Francis Reginald Hull; como gerente geral, o Dr. E.M. Scott, manteve formalmente esse cargo até que a legislação federal, consequente da revolução de 30, tornou obrigatória a presença de brasileiros na gestão de empresas estrangeiras. 

 veículo utilizado para conserto das linhas do bonde (foto do memorial fotográfico do transporte do Ceará)

Numa primeira fase de funcionamento, voltada para os bondes elétricos, os geradores da companhia foram acionados por máquinas alternativas, a vapor; posteriormente, a empresa instalou uma turbina elétrica a vapor. Num período intermediário, a Ceará Tramway Light ficou operando simultaneamente  com máquinas alternativas e turbinas, até que as primeiras não fossem mais necessárias na geração de energia. 
Para o serviço de tramways foram adquiridos 30 bondes e um carroção para transporte de cargas, em 1912; essa frota foi acrescida de 10 bondes comprados em 1927 e mais 13, em 1938. Na operacionalização do sistema a energia em 500 V era destinada à tração dos bondes, enquanto a de 250 era utilizada para uso na iluminação residencial e comercial.

 veículo para transporte de cargas (Arquivo Nirez)

Em 1913, antes da estreia dos bondes, a empresa deu início ao esforço de atrair consumidores residenciais. Um empregado percorria as ruas com linhas elétricas e fazia ligações provisórias como demonstração, deixando uma lâmpada instalada durante 24 horas. Afinal, em 9 de outubro de 1913, com a presença do Intendente Municipal Guilherme Rocha, ocorre a festividade de inauguração do tráfego de bondes elétricos na linha da Estação Joaquim Távora. No dia 12 de janeiro de 1914 é inaugurada a linha entre a Travessa Morada Nova e a Praia de Iracema, denominada de Linha da Praia. No mês seguinte, em 14 de fevereiro, começava a funcionar a Linha do Outeiro (Santos Dumont-Aldeota).

 Posto central da Ferro-Carril, na Praça do Ferreira, logo após sua transferência para a Ceará Tramway, ostentando placas com os nomes das duas empresas (foto do livro História da Energia no Ceará)

A Ceará Tramway Light procurava então desfazer-se do patrimônio da antiga Ferro-Carril. Por contrato, assumiu a responsabilidade pela manutenção e trato de 200 muares, o sr. Francisco Correia, a quem se conferia o direito preferencial de compra. Os veículos foram vendidos para a empresa Teixeira Mendes, de São Luís, Maranhão, constando que, na chegada, alguns veículos foram jogados ao mar pelos catraieiros que protestavam indignados pela aquisição de verdadeiras sucatas.

extraído do livro de Ary Bezerra Leite
História da Energia no Ceará.             

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Bairros de Fortaleza - Bom Jardim

A Rua Oscar Araripe é o principal corredor do bairro

Localizado na região sudoeste de Fortaleza, o Bairro do Bom Jardim faz divisa com os bairros Granja Portugal, Granja Lisboa, Siqueira e Canindezinho. Conta com 37.758 moradores, em 10.462 domicílios (IBGE – censo 2010). 
Segundo moradores mais antigos, foi no início da década de 1960 que chegaram os primeiros moradores do atual bairro. Até então aquela área era ocupada por uma grande fazenda, a qual foi loteada pelo empresário João Gentil. 




A expansão da cidade, e a oferta de terrenos a preços baixos fez com que diversas famílias de diferentes bairros adquirissem os lotes, construissem suas casas e passassem a residir ali. A Rua Oscar Araripe foi a primeira via aberta e hoje é o principal corredor do bairro.



 O Rio Maranguapinho é o maior afluente do Rio Ceará tendo sua nascente na Serra de Maranguape. Cruza os municípios de Maranguape, Maracanaú, Fortaleza e Caucaia. Há 36 bairros localizados na bacia de drenagem do Maranguapinho onde habitam aproximadamente 750 mil pessoas ocupando cerca de 7000 hectares de área urbanizada. A maior parte das moradias não conta com saneamento básico e coleta de lixo. Existem incontáveis projetos em curso, visando a limpeza do recurso hídrico e a retirada da população ribeirinha, que vive em área de risco. Mas a julgar pelo trecho do rio que corta o bairro, esses projetos não chegaram ao Bom Jardim.

No final da década de 70 o bairro começou a crescer de maneira desordenada, porque os terrenos ainda eram baratos, em relação aos demais bairros da capital. Com o crescimento irregular, surgiram as primeiras favelas. Nessa época, o Rio Maranguapinho era um córrego de águas cristalinas. As dificuldades eram enormes: as ruas não tinham pavimentação e havia muita lama; também era difícil conseguir água potável e os moradores utilizavam água de cacimba.

  Ainda existem ruas no bairro sem pavimentação: esta é Rua Pato Branco

Já no final dos anos 80 a população reclamava a ausência de ações do poder público. Poucas escolas,  nenhum hospital,  ruas sem alinhamento, falta de saneamento e segurança precária fizeram com que a onde de violência tomasse conta de toda a área,  tanto do bairro do Bom Jardim como de seus vizinhos. 

 Centro Cultural Bom Jardim

Inaugurado em dezembro de 2006, o Centro Cultural Bom Jardim é um espaço de convivência para a arte e a educação. O complexo é voltado para a profissionalização de jovens e adultos nas áreas de audiovisual, música e dança. Uma ilha digital com equipamentos de áudio e vídeo, além de um teatro de arena, salas multiuso, laboratório para gravações musicais e outros espaços destinados à práticas artístico-culturais.

A partir do final dos anos 90 o bairro já figura nas páginas dos jornais como um dos mais violentos da capital. Ações governamentais não tem apresentado resultados positivos, e a região continua figurando como uma das áreas de maior índice de criminalidade de Fortaleza.



Para fins de implantação de políticas públicas e sociais na área, e tendo em vista que os bairros enfrentam problemas similares, o Bairro Bom Jardim, juntamente com seus vizinhos, Granja Portugal, Granja Lisboa, Siqueira e Canindezinho foram aglomerados, formando um bloco que passou a ser chamado de Grande Bom Jardim.  Recentemente o bairro foi escolhido pelo Ministério da Justiça para se tornar um Território da Paz,  através do Pronasci (Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania). Muitas são as instituições que exercem trabalho dentro da comunidade dentre eles podem ser citadas: Movimento de Saúde Mental Comunitária do Bom Jardim, o Centro Cultural do Bom Jardim, ABC, CRAS Bom Jardim e muitas outras. 

fotos de Rodrigo Paiva (maio/2013)
fontes:
wikipédia
 Secult
IBGE

sexta-feira, 24 de maio de 2013

O Beco e o Mito

Aspecto da Avenida Bezerra de Menezes em no início dos anos 1940, na época em que o Cão fazia estripulias na Itaoca (Arquivo Nirez)


Na antiga Pirocaia, região que foi desmembrada e hoje é ocupada pelos bairros Montese, Itaoca, Serrinha, eram poucas as vias que tinham denominação própria. Muitas das atuais ruas eram conhecidas pela denominação de becos. Também eram poucas as edificações existentes e quase todas construídas fora dos padrões urbanos. As ruas foram surgindo proporcionalmente ao crescimento da população, o que na realidade só ocorreu a partir do fim da década de 1940, quando a prefeitura passou a exigir que fosse cumprido o plano urbanístico da cidade.   
Dentre os logradouros da época, destacava-se o Beco da Itaoca,  atual Rua Romeu Martins, que entrou para a história do bairro por ter sido palco de acontecimentos extraordinários, que movimentaram a opinião pública.



Era no Beco da Itaoca que se localizava a fonte de água boa, a famosa água da Pirocaia nas terras do Dr. Manoel Sátiro. Ali também, em 1938, Antônio Ferreira de Almeida instalou o Centro Espírita Joana D’ Arc, às margens de um riacho, atual Rua edite Braga.
A celebridade do Beco da Itaoca deve-se, todavia, à história que ainda hoje é lembrada pelos saudosistas, a da presença do “Cão da Itaoca”. 
Conta-se que por volta do início dos anos 40, o capeta passou por ali fazendo mil estripulias com os moradores da residência n° 202, que pertenceu ao Major Espinheiro. O fato chegou ao conhecimento do público através de reportagens publicadas nos jornais, causando grande repercussão na época. 


Uma antiga moradora, contou com riqueza de detalhes, a história que gerou o mito do Cão da Itaoca. Dizia ter presenciado coisas estranhas naquela residência, onde tinha acesso por ser amiga da família do major Espinheiro, que era um homem bom e estimado pelos moradores do beco. Para a moradora, foi real a presença do capeta naquela casa, após a morte do seu proprietário. 


Segundo afirmou, o fato foi presenciado por milhares de pessoas, após os jornais terem noticiado o fato, também divulgado pela PRE-9, a única emissora de rádio existente em Fortaleza. 

 Rua localizada na Região da antiga Pirocaia

Tempos depois, quando o Montese já estava em pleno desenvolvimento, o repórter policial Jonas Sampaio explorou o assunto por outro ângulo, com a finalidade de chamar a atenção das autoridades para a solução de problemas relacionados à segurança da comunidade do bairro.


Extraído do livro de Raimundo Nonato Ximenes
De Pirocaia a Montese – fragmentos históricos 

veja também
http://fortalezaemfotos.blogspot.com.br/2011/10/dias-de-cao-na-itaoca.html