quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Os Construtores de Fortaleza: Francisco Coutinho e Adolfo Herbster

Mesmo depois de promovida à categoria de cidade, por decreto imperial de 17 de março de 1823, a capital do Ceará continuaria ostentando um inconfundível ar de pobreza, as ruas sem pavimentação, às noites às escuras, todos andando a pé, pois não havia qualquer espécie de veículo, as cargas transportadas nos costados dos animais. 


Rua da Assembleia atual Visconde de Saboia - 1908 (arquivo Nirez) 

As casas, na quase totalidade, nenhuma estética apresentava nas suas fachadas, e era quase rudimentar o conforto interno, sem serviço de água, e com iluminação mortiça, a base de azeite de peixe.  Quando foram feitas as primeiras casas, ainda não se pensava em arquitetura e estética  na acomodação de cada um, como nos tempos primitivos. 

havia grande preocupação com a higienização das ruas devido ao grande número de animais trafegando pela cidade (arquivo Nirez)

O costume era edificar-se à beira da água, guardando as suas sinuosidades. Daí serem as vias tortas quase sempre, embora ganhassem nomes como Rua Direita, acompanhando o curso do riacho Pajeú. A configuração das ruas era toda tortuosa e entranhada, uma povoação, decididamente, incorreta.

A modificação disso teve como fator a influência do engenheiro Silva Paulet, com seu plano de retificação e de expansão disciplinada. As vias públicas passaram a obedecer um sistema, cortadas em ângulo reto e os prédios mudaram gradativamente a sua estrutura de taipa para alvenaria de tijolo, mas ainda eram baixos e sem frontões ou cornijas, de beiral liso, como se dizia. Os parapeitos urgiram por volta de 1840. 

Em tudo, o olhar vigilante do Boticário Ferreira – Antônio Rodrigues Ferreira – intransigente, feroz no acatamento à planta de Paulet.  As construções residenciais eram ligadas umas às outras, paredes-meias, com o interior sempre igual. Chamaram-lhes casas-cachimbos, com a cozinha ligada à sala de jantar, soltando fumaça a toda hora. 

Até ali, os dois artistas que mais se distinguiram na melhoria da aparência dada à edificação da Fortaleza, foram Francisco de Paula e Adolfo Herbster. O primeiro, natural de Aracati, era um engenheiro nato, sabia como que por uma revelação, todas as artes e ofícios, sem nunca ter cursado escola.


dia da última missa na antiga Sé
O edifício da Sé e seu Cruzeiro foram obras das mãos habilidosas de Tavares Coutinho. Ambos demolidos em 1938 (arquivo Nirez) 

Este mestre Francisco de Paula Tavares Coutinho, no conceito de historiador Cruz Abreu, um acabado professor de arquitetura,  era sempre chamado a dar sua opinião nos projetos da cidade. Nunca houve a lamentar-se erro em planta ou execução que se lhe confiasse. Sem visar às vantagens materiais, trabalhou dezenas de anos na construção de Fortaleza.  Atento à perfeição do seu trabalho, muitos dos antigos prédios de hoje constituíam o inicio de uma fase de renovação na arquitetura urbana, inaugurada por Tavares Coutinho.

A cidade era quase toda formada de casebres. Na maioria das ruas, só se encontravam casas baixas e estreitas, de porta e janela, sem rótulas ou persianas. Era o tipo comum de edificação. Os sobrados, em número limitado, considerados residências nobres, eram, de fato, ocupados por pessoas de boa situação financeira. 

Mesmo  entre esses proprietários, muitos haviam que preferiam levantar casas de um só pavimento, talvez por influência ainda, do conceito equivocado que prevaleceu em Fortaleza por muito tempo, enquanto a cidade se desenvolvia na sua primeira fase – que o solo em que se edificava não oferecia resistência à prédios de mais de um andar. 

Esquina das ruas Major Facundo com Guilherme Rocha com o sobrado do Comendador Machado, demolido em 1927 para dar lugar ao Excelsior Hotel (arquivo Nirez)

Conceito errôneo, posto em formal descrédito pelo Tenente-Coronel Conrad Jacó de Niemeyer, ouvido sobre o plano de edificação do sobrado do Comendador Machado, situado na Rua Major Facundo, num dos ângulos da Praça do Ferreira, no local em que hoje se encontra o edifício do antigo Excelsior Hotel.   Sua familiaridade em outros ramos das belas-artes atestava que Coutinho nascera artista. Faleceu em 17 de agosto de 1851, já velho e alquebrado, acometido de febre amarela.

O outro arquiteto que foi decisivo para a cidade foi Adolfo Herbster, pernambucano, nascido em 14 de maio de 1826, filho de pai suíço e mãe francesa. Herbster veio para o Ceará em 1855, aos 29 anos de idade, contratado como Engenheiro da Província.  No ano seguinte assumia a direção das obras públicas gerais, para o qual fora designado pelo Presidente Francisco Xavier Paes Barreto. 

Em sessão de 8 de janeiro de 1857, a Câmara Municipal, considerando que o arruador Antônio Simões Ferreira de Farias “não pode desempenhar este lugar porque quase sempre está fora da cidade” deliberou dispensá-lo, e contratar o Engenheiro da Província, para sê-lo também da Câmara, obrigado a cordoar e tudo mais que fosse concernente à sua profissão.

Efetivamente Herbster substituiu o antigo arruador e cordoador, uma espécie de arquiteto leigo. Muitos bons serviços lhe deve a capital, não somente pelo levantamento de cartografias, como a Planta da Cidade de Fortaleza de 1852, mas também pela construção de edifícios, de estradas e outras obras como a via Fortaleza – Maranguape e a ponte que ligava a Praça da sé à Prainha, na subida do Seminário.

Herbster era de uma paciência inimitável, em se tratando de ordem e simetria dos arruamentos, desapropriando, medindo a alinhando, de modo a servir à beleza da cidade e fazer observar o plano Paulet, que devia dividir a futura povoação em paralelogramos.


década de 1930
http://www.skyscrapercity.com/showthread.php?t=452252

A prova maior está nas cartas de Fortaleza, que traçou tendo em mira sua remodelação e sua ampliação. A primeira, de abril de 1859, aprovada pela lei provincial n° 914, de 12 de setembro, se restringe ao estado atual da cidade. Sua população, computados os subúrbios, constituídos de tugúrios de palha, não ultrapassava os 16 mil habitantes. Casas de tijolos, alinhadas, apenas 690, das quais 80 eram sobrados.

A segunda, de 1875, intitula-se Planta Topográfica da Cidade de Fortaleza e Subúrbios, porém, é antes de tudo, um traçado expansionista: pretende disciplinar o crescimento da cidade, levando o sistema xadrez muito além da parte construída.

A terceira e última é de 1888, organizada com o arquiteto já no pleno gozo da sua aposentadoria. Trata-se da Planta da Cidade de Fortaleza Capital da província do Ceará. De grande dimensão, impressa em Paris,  consolida o enxadrezamento. 

Ainda outros mapas deixou Herbster: a Planta da Povoação de Arronches, Planta do Porto da Cidade de Fortaleza, e a Planta Cadastral dos terrenos foreiros a N.S. do Rosário de Fortaleza.

bela Fortaleza atual 
Foto: http://www.skyscrapercity.com/showthread.php?t=452252

Adolfo Herbster faleceu no dia 12 de novembro de 1893, em Fortaleza.  Morreu esquecido o continuador do Boticário Ferreira. Os jornais da época mal noticiaram sua morte. O Barão de Studart, nas suas tão minuciosas Datas e Fatos, deixa em branco a data de seu desaparecimento. Só em 1932 seu nome veio a figurar numa placa de denominação de uma rua da cidade que ele ajudou a construir.

Fontes
Geografia Estética de Fortaleza
Fortaleza e a Crônica Histórica,
De Raimundo Girão

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Os Antigos restaurantes

A partir da década de 1950, aconteceu uma importante mudança no que diz respeito aos restaurantes em Fortaleza. Até então, toda atividade comercial estava no centro, inclusive os raros restaurantes existentes, alguns remanescentes de década passadas, como o tradicional A Gruta, frequentadíssimo pelo pessoal do comércio.

Excelsior Hotel, no cruzamento das ruas Major Facundo e Guilherme Rocha (arquivo Nirez)

Os demais restaurantes estavam localizados nos poucos hotéis: Excelsior, Palace, Astória e Brasil. Havia também o restaurante do Ideal Clube, o único cinco estrelas da cidade, com o inconveniente de estar localizado muito longe do centro. Naqueles tempos, tudo era medido a partir do centro, o polo canalizador de todos os eventos da cidade.

Palace Hotel localizado na esquina da Rua Dr. João Moreira com Major Facundo (imagem Ah, Fortaleza!)

O restaurante do Palace instalado no seu belo palacete de linhas neoclássicas, na Rua Major Facundo, com vista para o mar através das filigranas do imenso baobá do Passeio Público, era muito bem frequentado, principalmente por sediar os elegantes jantares do Rotary Clube.  O Excelsior já estava em decadência nos anos 50 e seu restaurante não era dos mais frequentados. 

Libaneses no Palace Hotel (imagem: Ah, Fortaleza!)

O Astória que em  teve seu singelo prédio demolido em 11 de abril de 1962 para dar lugar ao Romcy Magazine, a exemplo do restaurante do Hotel Brasil, sobrado de três andares na Praça dos Leões, eram frequentados pelas classes mais simples: o pessoal que trabalhava no centro, os pracistas, os caixeiros-viajantes, os bancários.

Na Rua Castro e Silva, entre as ruas Senador Pompeu e Barão do Rio Branco, tinha o Restaurante Olinda, que tinha uma particularidade: atendia os motoristas de caminhões e ônibus que faziam ponto nas imediações. 

os caminhoneiros eram os principais frequentadores do restaurante Olinda (arquivo Nirez) 

O Cascatinha, na Rua Major Facundo entre as Ruas Guilherme Rocha e São Paulo, também era muito frequentado por populares e era famoso por servir uma sopa de cabeça de peixe.  Na Rua Guilherme Rocha, quase chegando à Praça José de Alencar, em frente ao Bar Americano, ficava o restaurante A Baiana, de propriedade de uma crioula natural da Terra de Todos os Santos. Era também preferido pelas classes de menor poder aquisitivo.

Sem dúvida, Fortaleza necessitava de novos e modernos restaurantes, condizentes com seus novos ares de cidade em franco desenvolvimento, com clubes elegantes e pessoas que procuravam ambientes distintos. 

Dois detalhes notáveis no restaurante chique: apenas homens, de paletó e gravata (arquivo Marciano Lopes)

O francês Charles Delleva abriu na Praia de Iracema, adaptando a antiga casa de praia da família Markan, o revolucionário Restaurante Lido, uma novidade no ramo em Fortaleza.  O novo restaurante além de amplo e altamente simpático, oferecia um cardápio inovador, principalmente no que concerne aos peixes e demais frutos do mar. Foi a cozinha do Lido o laboratório experimental da lagosta. Foi ali que nasceu o nobre crustáceo para os cardápios locais.
O Lido tinha um salão imenso, com decoração onde se mesclavam o rústico praiano cearense e detalhes que remetiam à França, inclusive tabuletas de ruas e praças famosas de Paris. Usava uma iluminação em penumbra, que tornava tudo muito suave. Na década de 1970, o Lido começou a entrar em declínio, quando passou para outras mãos e em declínio continuou, até fechar e dar lugar a um luxuoso edifício de apartamentos.

Clube Náutico no dia da inauguração (imagem Ah, Fortaleza!)

O Náutico Atlético Cearense, recém-inaugurado, abriu seu elegante restaurante, com um serviço de alta categoria, como nunca se vira por aqui. O centro, que estava perdendo sua força centralizadora, reagiu abrindo a Churrascaria Las Vegas, o primeiro estabelecimento do gênero em Fortaleza.  Funcionava numa original palhoça na Rua General Sampaio, mesmo local onde depois funcionou a Mesbla e hoje está a Loja Insinuante.

Ainda como opção de restaurantes finos nos anos 50, aconteceu a badaladíssima Boite Alabama, no local onde depois se instalou o Esplanada Hotel. A Alabama era um conglomerado de palhoças interligadas, um requintado trabalho de artesanato. Ambiente muito requintado, frequentado pela elite da sociedade fortalezense, apresentava pratos sofisticados de inspiração francesa e americana.

Fontes:
Marciano Lopes 
Nirez 

domingo, 27 de novembro de 2011

Feliciano José da Silva Carapinima, Mártir de 1824

O ideal de liberdade e independência da Confederação do Equador, movimento republicado ocorrido em 1824, motivou várias famílias cearenses a adotarem sobrenomes identificados com temas brasileiros. Feliciano José da Silva, por exemplo, ficou conhecido na história por Carapinima, assim como seus companheiros revolucionários Anta, Mororó, Ibiapina. 

Os confederados queriam implantar uma república no Nordeste e separar-se do Brasil de D. Pedro I

Nascido em Minas Gerais onde trabalhou em órgãos públicos, Carapinima radicou-se no Ceará, a partir de 1820, exercendo cargo de secretário do governante Francisco Alberto Robin (13 de junho de 1820-3 de novembro de 1821).

Na época, a província vivia um clima de revolta pela atitude arbitrária de D. Pedro I, que dissolveu a Assembleia Geral Constituinte instalada no Rio de Janeiro. Alguns deputados mais exaltados foram presos na ocasião, entre os quais o representante do Ceará, Padre José Martiniano de Alencar, libertado alguns dias depois. 

Para o Imperador, a Constituinte havia perjurado ao solene juramento que prestou à Nação, de defender a integridade do Império, sua independência e a dinastia. O ato, no entanto, provocou indignação no Nordeste. Pernambuco, então como centro de polarização cultural de todo o Nordeste, toma a frente da sublevação nacionalista, irradiando para as demais províncias, as diretrizes básicas que serviriam de aval político e que em breve transformarão os protestos em ação física e materialmente decisiva.

Cais de desembarque no Recife situado na atual Avenida Martins de Barros. Cartão postal editado por volta de 1910.

Em 2 de julho de 1824, instala-se em Recife, a Confederação das Províncias Unidas do Equador, que reúne inicialmente Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte. Em Fortaleza, graças ao trabalho de conscientização de Tristão Gonçalves, o Ceará também adere ao movimento republicano. No dia 26 de agosto do mesmo ano, realiza-se uma reunião do Grande Conselho, com 455 participantes. 

A fala do presidente Tristão Gonçalves, mostrou a perigosa situação em que se achava a Pátria brasileira, fazendo-se necessário salvá-la do cativeiro, apesar de todos os sacrifícios da parte de seus filhos.  Tristão apresentou em seguida um plano que contemplava uma nova forma de governo, para ser discutido livremente, e ser ou não aprovado  pelo Congresso. 

Depois da unânime aprovação da proposta, que importava na anexação do Ceará à Confederação do Equador, procedeu-se à eleição de presidente e secretário do Grande Conselho, recaindo a escolha, respectivamente em Tristão e no padre Mororó.

Tristão Gonçalves

Carapinima, favorável aos ideais republicanos, é nomeado secretário de Pereira Filgueiras, comandante das armas. Tristão Gonçalves, entusiasta e crente na vitória da causa que abraçara, partiu para Aracati, para dar combate aos adversários. Ficara a substituí-lo no comando,  José Félix de Azevedo e Sá, que escravo do medo, sob as ameaças de Lord Cochrane, que se apresentara na cidade a 17 de outubro, entregou-se sem um protesto e fez a contra revolta.  

Padre Mororó

Por toda a parte reergue-se agora a bandeira imperial, a população tenta se acalmar um pouco com a segurança da anistia garantida pelo almirante mesmo aos chefes, aos mais implicados no movimento, excetuando Tristão Gonçalves.  O ânimo de Tristão não comporta traições nem pactos com os adversários e tenta ele então a sorte das armas, mas em 31 de outubro em santa Rosa, abandonado, é batido e trucidado. 

José Pereira Filgueiras, que havia seguido com quase toda a tropa para o interior da província, depois de vários encontros com as tropas legais, sobretudo no Rio do Peixe e em Missão Velha. Recebendo a notícia da morte de Tristão Gonçalves, rendeu-se ao capitão Reinaldo de Araújo. Preso, teve de seguir para o Rio de Janeiro, mas faleceu no caminho, vitimado por uma febre típica.

Por decreto de 5 de outubro foi designada uma Comissão Militar destinada a julgar sumariamente no Ceará,  as pessoas implicadas na República do Equador. O tribunal era composto de Conrad Jacob Niemeyer (presidente),  Moraes Mayer (relator), Queiroz Carreira, Cabral de Teive, Sabino Monteiro e João Bloem  (vogais, nomeados em 16 de dezembro).

Entre os réus, estavam o padre Gonçalo Mororó, João de Andrade Pessoa Anta,  Francisco Miguel Pereira Ibiapina, Feliciano José da Silva Carapinima e Luiz Ignácio de Azevedo, vulgo Bolão.

A Comissão Militar condenou os acusados à pena de enforcamento, mudada para fuzilamento porque ninguém quis servir de carrasco dos revolucionários. Carapinima foi o último a morrer, em 28 de maio de 1825, no Passeio Público, sendo considerado por o mais sofrido dos mártires de 1824.

Tendo resistido à primeira descarga, o condenado ergueu-se da cadeira, quebrando as amarras e ficando a rodopiar desnorteado. Volteia a praça em movimentos desconexos e desequilibrados, enquanto da parte dos executores, parecia não haver pressa em por fim ao espetáculo. Sob a alegação de que faltara munição, o presidente da Comissão Militar Conrad Niemeyer ordena o deslocamento de um soldado ao quartel, onde deveria recarregar as carabinas, o que é feito muito lentamente.

A esposa de Carapinima, que ao longo do cerco acompanhava o suplicio do marido, desmaia ao vê-lo naquele estado desesperador. Alguns populares a socorrem, embora naquele momento, manter-se distante dos culpados fosse a postura mais aconselhável.  Chegam novamente as munições e Carapinima recebe nova descarga.

Avenida Carapinima, no Passeio Público (foto Marciano Lopes)

O historiador R. Batista Aragão avalia que não fora o açodamento com que Niemayer condenara e levara à execução os réus, Carapinima teria escapado ao suplício, já que fora beneficiado pelo aviso ministerial que mandava suspender as execuções no Ceará, de 23 de julho de 1825, citando explicitamente os nomes de Carapinima, Antônio Bezerra e frei Alexandre da Purificação. 

A partir da publicação da superior deliberação, somente após o conhecimento pelo Imperador, do processo respectivo, poderia o réu ser executado. Tardia porém necessária medida, visto que muitas cabeças enfileiravam-se à espera do carrasco.

fonte:
A história do Ceará passa por esta rua, de
Rogaciano Leite Filho

sábado, 26 de novembro de 2011

Arquivo Nirez na Internet

O memorialista e escritor Miguel Ângelo de Azevedo, o conhecido Nirez, detentor do maior e mais fabuloso arquivo de imagens e fotos sobre Fortaleza, está compartilhando seu rico acervo pela rede social facebook.  Para ter acesso ao acervo, é preciso ter conta no facebook, e claro,  pedir ao Nirez  para ser adicionado.  O endereço é : 


eis uma pequena amostra:



Bar do Avião na Avenida João Pessoa, inaugurado, em 23/10/1949, na Parangaba

 Rua do Seminário, atual Avenida Monsenhor Tabosa

 Rua General Bezerril

Rua Major Facundo, com o belo edifício do Cine Majestic Palace

Avenida Epitácio Pessoa atual Almirante Tamandaré

Bairro Antônio Bezerra, antigo Barro Vermelho

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

A Igreja dos Albanos (Igreja do Coração de Jesus)


foto mais antiga da Igreja e do Parque, com a lagoa do Garrote e a caixa d'água em primeiro plano. Ano de 1892.  

A Igreja do Coração de Jesus foi inaugurada em 1886, em virtude de uma promessa do nosso primeiro bispo Dom Luís Antônio dos Santos, diante do quadro doloroso que se assistia em Fortaleza, quando num só dia morreram em Fortaleza 1004 pessoas, vítimas de uma epidemia de varíola.

O padre Xisto Albano, mais tarde sagrado bispo, foi o primeiro encarregado da Igreja. O seu pai o barão de Aratanha, muito ajudou na construção do templo, daí a denominação de Igreja dos Albanos. Hoje pouco conhecida como tal.

Foi portanto, para aliviar a pesada carga de sofrimento de milhares de retirantes famintos, que se deu inicio, em 25 de setembro de 1878, à construção do novo templo.  O ato de sagração correu na duna que existia defronte à Lagoa do Garrote, no trecho onde se construiu mais tarde, em 1890, a Cidade da Criança. Era conhecido como Morro do Pecado. Quanto a paisagem em torno, por aquele tempo, era deserto e cheio de mato. Abatia-se o gado debaixo das árvores e vendia-se a carne à sombra dos cajueiros.

Foto do início do século XX

Bezerra de Menezes oferece alguns dados sobre a Igreja recém-inaugurada:
Sentada sobre uma plataforma de dois metros de altura, domina pela sua composição grandiosa e singela. Seu campanário eleva-se fantasticamente, flechando os ares, e a  sua larga fachada, o respeito dos grandes templos católicos... Mede duzentos palmos de comprimento sobre cem de largura; o adro é cercado de uma grade de ferro, presa a colunas de alvenaria, onde se elevam as estátuas dos doze apóstolos, feitas de bronze, em tamanho natural. É também de bronze e mede  três metros de altura, a estátua de Jesus, que se acha colocada na fachada sobre o pórtico, que é de granito. Interiormente é o templo de três naves divididas por arcos sobre colunas dóricas.  Essa era a Igreja dos Albanos – a primeira, antes da reforma porque passou, depois que perdeu a aguda flecha da torre. 

A aparência da igreja depois da reforma. Lembrando que essa entrada principal era de frente para o Parque da liberdade, atual Cidade da Criança. foto da década de 1950.

Em 1952 ganhou mais um andar com enorme relógio, encimada por um terraço em balaustrada, na qual se colocou a pesada imagem do Sagrado Coração, que antes figurava no grande nicho frontal, além de outras transformações que acabaram por fazer ruir o antigo e venerado templo.

...e o triste cenário (1957)

Cinco anos depois, em 1957, a torre cedeu e soterrou a entrada da igreja. Não houve vítimas.

Ao invés de reconstruírem a igreja, pois apenas a torre fora afetada, os capuchinhos optaram por derrubar toda a igreja para construírem uma bem maior, com rampas para subida dos carros, uma torre vazada e uma grande cúpula sobre a nave principal.

fotos do Arquivo Nirez 
fontes:
Eduardo Fontes
Nirez

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Estava Ali... Não está mais – parte 3

Padaria Lisbonense


Em 1875 surgiu a fábrica de produtos alimentícios que deu origem à Padaria e Confeitaria Lisbonense.  A Lisbonense foi fundada em março de 1916, por Pelágio Rodrigues de Oliveira, José Teixeira de Abreu e Abílio Rodrigues de Oliveira. Em 20 de abril de 1927, passou a funcionar na Rua Pedro Borges, 151/57. Encerrou suas atividades em 10 de outubro de 1983, sob a acusação de estar poluindo o centro da cidade.

Fábrica Progresso


Fundada em 1884 por Tomás Pompeu de Sousa Brasil (Senador Pompeu), e Antônio Pinto Nogueira accioly exclusivamente para fabricação de redes, e que em 1931 se fundiria com a Fábrica de Fiação e Tecidos Cearenses, formando a Fábrica de Tecidos Progresso. implantação dessa indústria foi o marco inicial do processo de industrialização do Ceará, onde até então a única atividade equipada com maquinário era a tipografia.

Fábrica Vitória


Fundada em 1905, de propriedade de Homero Barbosa Lima & Cia. Sucessores da Fábrica de Destilação Santo Antônio, localizada na Rua Senador Alencar, 16.

Fábrica Proença

anúncio da Fábrica Proença, que ficava na Praça da Estação, publicado no Almanaque Hénault em 19 de dezembro de 1913.

A Fábrica Proença de Bernardino Proença foi fundada em 1° de julho de 1900, na esquina das Ruas General Sampaio com Castro e Silva, na Praça Castro Carrera, atual Praça da Estação. A firma tinha surgido em Baturité, com a firma Proença & Companhia. 

Casa Villar


Fundada em 1854, a Casa Villar, especializada no ramo de ferragens teve relativa longevidade e fez forte tradição no comércio local. Ficava na esquina das ruas das Belas (atual São Paulo) com a Formosa (atual barão do Rio Branco).

Fábrica de Cigarros Araken


um dos produtos mais consumidos da Fábrica Araken, os cigarros BB

Inaugurada em 1928, de propriedade de  Antônio Diogo de Siqueira, fabricantes das marcas de cigarros "Princesa", "Princesita", "Garoto", "Garotinho", "Sonho Azul", "Globo", "Kennel Club", "Zig-Zag", "Peito de Vaca", "Baker", dentre outras.  Ficava na Rua Thereza Christina, entre a Pedro I e a Duque de Caxias. 
  
Casa Menescal


A Casa Menescal, vendia louças, vidros e era também livraria, seu endereço era na Rua Major Facundo, na Praça do Ferreira. 
Fontes:
Nirez 
Marciano Lopes
fotos do Arquivo Nirez

domingo, 20 de novembro de 2011

Bairro da Estância atual Dionísio Torres

A foto aérea da década de 1960 mostra a primeira torre de televisão no Ceará, ao mesmo tempo em que revela os grandes espaços verdes remanescentes dos sítios do passado (Arquivo Nirez)

As terras que serviram de marco para a criação do bairro foram compradas em 1920, pelo farmacêutico Dionísio Torres ao Barão de Aquiraz numa área de 75 hectares.O local era conhecido por Estância, por ter sido o sítio Estância Castelo, formado por poucas casas, vários sítios e muitos coqueiros. 

No final da década de 1950, no lugar da imensa área verde, foram sendo construídas as primeiras edificações, alavancadas pela primeira emissora de televisão, a TV Ceará, vinculada aos Diários Associados, os jornais Correio do Ceará, Gazeta de Notícias e jornal do Meio-Dia. O bairro foi escolhido por ser o ponto mais alto da cidade, com altitude de cerca de 50 metros acima do nível do mar.

Estância Castelo, atual Dionísio Torres no local onde hoje está a Praça da Imprensa. Os ferros pintados de branco que aparecem na parte inferior da foto são as grades da casa que fica na esquina diagonal. Hoje neste local estão as estátuas dos jornalistas, a grande caixa dágua da Cagece, bancas de revistas e no fundo a TV Verdes Mares e o Diário do Nordeste. (arquivo Nirez)

Naquela época, o lugar funcionava como um divisor geográfico entre os bairros mais densamente povoados, que eram a Aldeota e a Messejana.

A partir da década de 1960, Dionísio Torres, personalidade importante e poderosa da época, resolveu doar terras do antigo sítio Estância Castelo, beneficiando familias carentes vindas do interior. 
 Vila Vicentina da Estância, localizada na Avenida Antônio Sales, entre as Ruas Tibúrcio Cavalcante e Nunes Valente (foto O Povo) 

A doação resultou na construção da Vila Estância Vicentina, com frente também para a Avenida Antônio Sales, somando 40 unidades residenciais.  Ainda hoje essa população de baixa renda é beneficiada com moradia, que para muitos custa apenas um valor simbólico, ou nem isso.  
     
Foram também erguidos vários colégios, como o Santo Inácio, e as primeiras residências que aglutinavam na Avenida Antônio Sales, sendo boa parte mansões, já que parte das elites manifestarem interesse pelo novo recanto. 

Aos poucos outras emissoras foram se instalando no bairro que atualmente concentra o maior número de empresas de comunicação da cidade.

 O bairro tem grande ocupação verticalizada, as residências térreas estão desaparecendo (foto Diário do Nordeste)

No dia 15 de março de 1968, foi dado oficialmente o nome de Dionísio Torres ao antigo bairro Estância, iniciativa do vereador Raimundo Linhares. 
O Dionísio Torres limita-se com os bairros Joaquim Távora, Aldeota, São João do Tauape, Cidade 2000, Cocó e das Graças.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

O Nascimento de uma futura Metrópole: os primórdios de Fortaleza

Vista da Praia Formosa em 1892 -  supõe-se que seja esta uma das fotos mais antigas da cidade (arquivo MIS)

Por resolução do soberano português D. João V, o povoado do Forte ganhou, em caráter definitivo, a condição de vila em 1725, cuja inauguração ocorreria no ano seguinte, oficializada pela fixação do pelourinho, monumento que simbolizava a implementação de um corpo cívico com jurisdição própria.

O período que antecede à emancipação da vila de Fortaleza permite elucidar o lento processo de ocupação das terras, e os desafios enfrentados nas paragens distantes: amplos espaços, população rarefeita, fauna e flora desconhecidas, extrema sujeição às intempéries, vulnerabilidade ao ataque de indígenas, dificuldade de transporte, comunicação incerta e morosa com os principais núcleos da administração colonial. Estes são alguns dos aspectos que distinguiam a condição em que viviam os contingentes sob a tutela do império luso, entre eles os que vieram para o Ceará, nos séculos XVII e XVIII.

vista do Porto de Fortaleza a partir da Ponte metálica - 1933 (arquivo MIS)

O interesse tardio da coroa pela capitania se prendeu, em especial, à necessidade de defesa militar e ao estabelecimento de pontos de apoio para embarcações que percorriam o litoral entre Pernambuco e Maranhão. De qualquer modo, tanto as incursões de Pero Coelho e Martim Soares Moreno, de que resultaram aglomerados de curta existência junto à barra do Rio Ceará, quanto ao largo da segunda expedição holandesa, nas cercanias do Riacho Pajeú, prevaleceu o interesse de cunho estratégico na formação inicial do povoado reunido em torno de um forte de nome estranho: Schoonenborch

A rotina daqueles primeiros colonos, em sua maioria soldados da guarnição, não deve ter sido fácil: marcado pela rusticidade do meio, a instabilidade dos assentamentos e a dura obtenção da subsistência. Além das atividades de caça, pesca e coleta de frutos, plantavam pequenos roçados de mandioca, milho e feijão. Criavam com alguma dificuldade animais de pequeno porte, como cabras, galinhas e porcos, e aprendiam com os nativos o emprego de certos recursos da natureza, principalmente ervas medicinais, buscando enfrentar as enfermidades, venenos e peçonhas, desconhecidos em solo europeu.

Nas modestas casas de farinha e nos engenhos se beneficiava a mandioca e a cana-de-açúcar, esta usada na fabricação de rapadura, que em 1783 o governador João Batista de Azevedo Coutinho de Montaury (1780-1789), pouco afeito às iguarias do lugar, descreveria como uns pães de açúcar muito mascavado e da mais ínfima qualidade, mais para incitar o nojo, que de servir para o paladar.

As habitações, em maioria, de chão batido, feitas de taipa e cobertas de palha, com madeiramento extraído da carnaúba, atestava a enorme simplicidade do padrão das moradias e a falta de acesso a materiais duradouros, como a pedra, a telha e o tijolo.
A escassez de pastagem nas proximidades do Forte inviabilizava a criação extensiva, que nas décadas seguintes promoveria a colonização dos sertões e responderia pela maior geração de riqueza na capitania.

Em 1695 a povoação contava mais ou menos duzentos habitantes, subjugados à vontade do capitão-mor e desassistidos do alcance efetivo da lei. Tal era o predomínio do arbítrio,  do abuso da força, do imperativo da autoridade que, em carta régia de 1699, determinava-se a criação de uma vila no Ceará, onde era salientado o propósito de por termo aos abusos cometidos pelos capitães-mores e se administrar melhor a justiça. 

Após uma série de disputas locais, a primeira vila acabou erguida em Aquiraz. Quando Fortaleza recebeu igual honraria, em 1726, manteve-se, porém, o aspecto de abandono e pobreza. Em tudo pairava um certo ar de desolação, isolamento e senso de contingência ante as adversidades do ambiente.

Compondo um traço fundamental dessa colonização, a violência era o meio usual de resolução dos conflitos. Na precariedade material que saltava à vista – com arruamentos grosseiros, casario modesto, mobiliário parco, padrão técnico rudimentar, carência de vias e pontes, um forte semidestruído – se colhiam indícios de um modo de vida permeado pelo improviso e acomodações provisórias.

Como se as coisas e os espaços fossem feitos para não durar além de duas ou três gerações, transmitindo uma impressão de fragilidade constitutiva que emanava dos núcleos estabelecidos nas bordas do empreendimento colonizador.

Passados pouco mais de três séculos desde os primórdios da ocupação aonde viria sedimentar-se uma das maiores metrópoles brasileiras, os vestígios materiais de então já não são visíveis na paisagem contemporânea. Mas algumas características das antigas parecem ainda influir sobre a maneira como hoje se vislumbra o modo de vida urbano. Pois Fortaleza exibe, com outra roupagem, aquela desconcertante fluidez, que se em tempos coloniais era resultado da penúria econômica, agora é plasmada na efemeridade programada, que fomenta a especulação imobiliária, professa a cultura do novo e impõe a seu espaço construído o estigma do envelhecimento precoce.

Praça Clóvis Beviláqua, em 1935 - um zelo no trato, uma beleza paisagística, um lugar para relaxar, como o cidadão da foto (arquivo Nirez)
Praça Clóvis Beviláqua atual - a arborização cresce de forma espontânea, sem poda e sem ajardinamento. O piso está quebrado, a insegurança está sempre rondando o local.   

A Coluna da Hora era um marco da cidade na Praça do Ferreira. Inaugurada à meia noite, na passagem do ano 1933/1934, na administração do prefeito Raimundo Girão, tinha 13 metros de altura, e um relógio movido a energia elétrica, com quatro faces, duas em algarismos romanos e duas em algarismos arábicos, adquirido nos Estados Unidos, da firma Biynton & Company. Foi demolida em 1966, na administração de Murilo Borges (1963-1967). 
(arquivo Nirez)
    
O monumento foi reconstruído em outro formato, de ferro, no governo de Juraci Magalhães, em 1991, projeto de Fausto Nilo e Delberg Ponce de Leon. 



Em 26 de agosto de 1941, foi demolido todo o quarteirão, onde estava o prédio da antiga Intendência Municipal, que ficava entre as ruas major Facundo, Pará. Floriano Peixoto e Guilherme Rocha, na Praça do Ferreira. O motivo alegado para a demolição foi que seria construído um edifício para uso da Prefeitura Municipal, que nunca foi construído. No local foi iniciada uma pequena praça, depois o Abrigo Central, que também foi demolido. (arquivo Nirez)

No local, foi construído o prolongamento da Praça do Ferreira.

A Praça José de Alencar, quando ainda se chamava Marquês de Herval e tinha o jardim Nogueira Accioly (arquivo Nirez)

Praça José de Alencar hoje. Camelódromo.

Sob a égide do moderno, projeta-se um horizonte longínquo a ser alcançado a qualquer preço. E essa remodelação incessante da fisionomia urbana, apagando rastros de outras épocas, não raro se processa lastreada numa presunção autoritária, segundo a qual tudo seria permitido aos detentores de recursos e de prestígio. Ranços da vila no âmago da metrópole.

Fontes:
o artigo Entre o Círculo e a Reta, de Antônio Luiz Macedo e Silva Filho.
Cronologia Ilustrada de Fortaleza, de Miguel Ângelo de Azevedo