quinta-feira, 29 de setembro de 2011

As lutas Sociais dos anos 1940 e 1950

Governador Faustino de Albuquerque 
imagem:http://cearaterradosol.blogspot.com/2008/09/ceara-memoria-faustino-albuquerque.html 

As décadas de 1940 e 1950 foram de muitas lutas sociais de muita repressão no Ceará, principalmente em Fortaleza. Greves dos operários das fábricas de tecidos de Fortaleza por aumento de salário; greve geral em Camocim contra a retirada dos trens da RVC; organização e luta dos trabalhadores do campo e contra a exploração patronal e pela reforma agrária; luta das mulheres contra o alto custo de vida, contra o envio de soldados brasileiros para a Guerra da Coréia e pela paz; luta dos estudantes e de todo povo em defesa da campanha O Petróleo é nosso.

trecho da Praça José de Alencar, anos 1950. A partir da esquerda o conjunto arquitetônico do Centro de saúde, o Theatro José de Alencar e o Lord Hotel. O bloco frontal do Theatro encobre o antigo prédio da escola Normal. A Praça era um dos locais prediletos para panfletagens e comícios-relâmpagos dos militantes ligados ao Partido Comunista (arquivo Marciano Lopes)
  
Saído da clandestinidade em que se encontrava desde o seu surgimento – no ano de 1922 – o Partido Comunista, depois de breve período de legalidade, retornava ao mesmo status de antes – a clandestinidade. A ilegalidade servira-lhe para esclarecer o povo acerca dos seus objetivos e aumentar consideravelmente suas bases. 

A Sede do PC em Fortaleza, sempre cheias de militantes, ficava no cruzamento das Ruas Guilherme Rocha com Barão do Rio Branco. O campo de ação eram as Praças do Ferreira e José de Alencar, onde aconteciam os comícios-relâmpagos, as panfletagens e as pichações.

Vivia-se a época do culto à personalidade. A data de aniversário do líder Luís Carlos Prestes, Secretário Geral do Partido, apesar da repressão policial, era festivamente comemorada  pelos militantes, com foguetórios, pichações e bandeiras vermelhas no alto dos prédios.

Para o cumprimento dessas tarefas, geralmente arriscadas, destacavam-se os militantes da juventude comunista. No dia 3 de janeiro de 1951, além da tradicional queima de foguetes e das panfletagens na Praça do Ferreira, foram hasteadas bandeiras vermelhas no alto da Rotisserie, e do prédio em construção do Cine São Luiz, verdadeira temeridade.
Numa das ações ousadas do Partido, militantes colocaram uma bandeira vermelha no alto do prédio da Rotisserie, na Praça do Ferreira. (arquivo Nirez)

Contudo, de todos esses desafios contra o governo, o que obteve maior repercussão, pela audácia, foram as pichações  exigindo a renúncia do presidente da República. Certa noite, logo após o fechamento do Partido, em 1948, as praças do Ferreira e José de Alencar  foram inteiramente pichadas com frases exigindo a renúncia do presidente Eurico Gaspar Dutra, e denunciando a interferência americana na política interna do Brasil. 

Com efeito, o ato proibitório do General Dutra valia como o engajamento do seu governo na guerra fria desencadeada pelos americanos com a antiga União Soviética e o socialismo.
Ações de massa mais enérgicas não se fizeram tardar. 

No ano seguinte, em agosto de 1949, o partido conclamava a população de Fortaleza a impedir a realização de um congresso dos integralistas, dirigido por Plínio Salgado, no Teatro José de Alencar.  O presidente Dutra havia solicitado ao governador  Faustino de Albuquerque (1947-1951), que garantisse a realização do evento. 

no hall de entrada do Theatro José de Alencar foi assassinado Jaime Calado, um dos dirigentes do partido em Fortaleza. (Foto inicio da década de 1940 - Aba Film)  

No hall do teatro, após um confronto com os integralistas, o dirigente comunista Jaime Calado foi assassinado a tiros. O crime serviu para acirrar ainda mais os ânimos. Convocada pelo partido, por parlamentares e por entidades democráticas, uma multidão com cerca de 10 mil pessoas se fez presente na Praça José de Alencar, a fim de protestar contra o congresso integralista, e a presença de Plinio Salgado em Fortaleza.

cartaz do movimento integralista

Faustino de Albuquerque,  dando cumprimento ao compromisso assumido com o presidente Gaspar Dutra,  não hesitou em jogar o Esquadrão de cavalaria e toda a polícia contra os manifestantes. Durante horas, polícia e manifestantes  se enfrentaram  na praça.  Os discursos foram interrompidos e a população dispersou-se, deixando um saldo de dezenas de feridos. 


Fonte:
 Alberto S. Galeno

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Bairros de Fortaleza: Otávio Bonfim (Farias Brito)


As torres da Igreja de Nossa Senhora das Dores dominam a cena e são vistas de todos os pontos. O templo é a principal referência do bairro.   

O nome oficial é Farias Brito, mas a população e os moradores  conhecem desde sempre, por Otávio Bonfim. Situado na região Oeste de Fortaleza, limita-se ao Norte com a Rua Antonio Drumond, Avenida Duque de Caxias e Rua Antonio Pompeu; a Leste, com as avenidas Padre Ibiapina e Imperador; Ao Sul, com a Rua Luis de Miranda e Avenida Jovita Feitosa e a Oeste, com a Rua Padre Frota e Rua Professor Castelo (limites definidos pelo IBGE-censo de 2010).


Em primeiro plano, o forno Crematório da Municipalidade, no local onde funcionava a SUMOV e hoje está a SER-I.  Ao fundo, o Matadouro Público, que ficava vizinho à estação da RVC - Foto de 1910 (arquivo Nirez)

O bairro surgiu de uma povoação que ladeava uma antiga estrada carroçável que rumava para Soure (Caucaia).  Em 1922, a Rede de Viação Cearense instalou no local a estação que foi chamada de Quilômetro 3, que logo em seguida foi alterado para Estação do Matadouro, por estar junto a uma abatedouro de gado. Mais tarde o nome da estação do Matadouro foi alterado para Otávio Bonfim, homenageando um engenheiro da RVC.


Estação do Matadouro, prédio original, demolido em 1979. 
imagem: http://gurgel-carlos.blogspot.com


O local da antiga estação ferroviária passa por grandes reformas. Do antigo local só o nome restou.  
 
Até o início do século XX, existia no bairro  a Capela de São Sebastião, erguida na Praça São Sebastião,  (onde hoje funciona o mercado com o mesmo nome),  depois  soerguida na Rua Justiniano de Serpa.  No local da capela, na antiga Estrada do Gado (atual Rua Dr. Justiniano de Serpa), os frades Franciscanos oriundos da Alemanha, construíram a Igreja de Nossa Senhora das Dores.


Paróquia das Dores no final da construção, década de 1930. (foto da Revista Verdes Mares)



A Paróquia de Nossa Senhora das Dores tem um longa tradição na realização de concorridas  procissões. Na foto, Procissão em homenagem a São Francisco na década de 1970 (acervo particular)

...e em louvor a Santo Antônio, em 2010.

Inaugurada em 1932, tanto a Igreja de Nossa Senhora das Dores,  quanto o Convento de São Francisco, anexo ao templo, foram construídos - além das doações de fiéis - com o auxilio do bispo Dom Manuel da Silva Gomes que fez a doação do terreno, correspondente a uma quadra entre as Ruas Justiniano de Serpa, Dom Jerônimo;   e do bispo Dom Antônio  Xisto Albano, que doou trinta contos de réis  para a igreja católica. Esses recursos foram repassados pelo Arcebispo de Fortaleza, para a obra dos franciscanos em Otávio Bonfim. 

Fachada do antigo Cine Familiar (arquivo Nirez)
 
O prédio que um dia abrigou o Cinema, acolhe hoje as atividades pastorais da Paróquia. 


O Cine Familiar foi fundado em 1935, por Frei Leopoldo Vonnegut , para fazer concorrência ao Cine Odeon, que exibia fitas que atentavam contra a moral e os bons costumes, indo de encontro a recomendação do Jornal O Nordeste, quanto ao conteúdo dos filmes. Funcionou até a década de 60 como opção de lazer para os moradores das adjacências. 



Por essa época, a praça fronteiriça era um imenso areal, cuja travessia incomodava muita gente. Chamava-se Praça dos Libertadores. Ganhou a denominação que hoje ostenta, de Praça de Otávio Bonfim, ao ser inaugurada no final do mês de maio do ano de 1941, na gestão do Prefeito Alencar Araripe, quando foi transformada a área, com a plantação de canteiros, construção de passeio e iluminada com lâmpadas elétricas.




O Salão Paroquial, denominado Casa de Santo Antônio, no lado leste do convento,  foi inaugurado em 13 de junho de 1959, guardando  os mesmos padrões arquitetônicos do Cine Familiar. Os recursos  para a obra vieram de doações, de listas, dos cofres da igreja, e de uma grande rifa. A festa de inauguração contou com a presença de D. Expedito Eduardo de Oliveira, que presidiu a solenidade em nome do Arcebispo.  Hoje, funciona como centro de reuniões dos vários movimentos da paróquia e como coadjutor dos trabalhos de assistência social a cargo da freguesia. 

foto da Usina: arquivo Nirez

A Usina Ceará, que depois passou a ser Siqueira Gurgel, se instalou no bairro em 1919, em solenidade que contou com a presença do presidente do Estado João Thomé de Saboia e Silva. Era fabricante de produtos que marcaram história no Ceará: Sabonete Sigel, o óleo Pajeú, a gordura de coco Cariri e o famoso sabão Pavão.  Hoje funciona um supermercado no local. 

O nome da escola Municipal é uma homenagem a Frei Lauro, um frade alemão que prestou relevantes serviços à comunidade de Otávio Bonfim nas décadas de 1960/1970.

Neste trecho da Avenida Bezerra de Menezes, onde funcionam um restaurante e um supermercado, existia na década de 1960, dois jardins, o Jardim Japonês, de Jusako Fujita, e ao lado, o Jardim São José.  

domingo, 25 de setembro de 2011

Saneamento e Higienização Social do Corpo

As primeiras intervenções médico-urbanas em Fortaleza surgiram por volta de 1850, e foram intensificadas no início no século XX. Enquanto engenheiros e urbanistas cuidavam da aparência da  cidade, médicos formados no Rio de Janeiro e na Bahia, cuidavam do corpo social. 

Consta que no século XIX, 80 médicos cearenses foram diplomados por aquelas faculdades de medicina, sendo que destes, cerca de 30, se estabeleceram na província. Nesse tempo, o médico praticamente fazia parte da família, os cuidados eram feitos nas casas dos doentes.

O médico vinha a cavalo, apeava, alguém tomava conta do animal, e o doutor ia participar dos assuntos da família. Os médicos tinham seus consultórios junto às farmácias. E os farmacêuticos usavam os consultórios deles para fazer curativos.

 Para controlar o charlatanismo no âmbito da saúde, o governo ameaçava multar proprietários de boticas que não tivessem licença ou que vendessem medicamentos não autorizados.

Ar e água preocupavam os gestores. As cacimbas dos quintais das residências e os chafarizes dos locais públicos viraram objeto de preocupação, e se tornaram questões de saúde pública. Por receio de contaminação do solo e do lençol aquífero, a medicina aconselhava o uso de água fervida e condenava o hábito de se jogar lixo próximo aos poços.

As mazelas eram debeladas com receitas formuladas pela sabedoria popular: garrafas de extrato de fígado, do Sombra farmacêutico, era um clássico. Todo quintal tinha chá: cidreira, capim santo, quebra-pedra. 

Quando os remédios caseiros não resolviam, sempre havia as novidades francesas, vindas pelos vapores: cigarros contra asma, pílulas contra as doenças de pele, curando impinges, o lichen, a eczema, o prurido, a lepra, a comichão e assemelhados. Havia ainda os medicamentos de Grimault & Cia. Manipulados por farmacêuticos.


A população pobre – tida como indolente, e propensa ao vício e à vadiagem pelas autoridades – era o alvo principal da medicina urbana e dos discursos governamentais. Na década de 1880 inauguram-se escolas na Cadeia Pública e o casamento entre amasiados é praticamente obrigatório. São idealizados o Asilo de Alienados São Vicente de Paulo e o Asilo de Mendicidade. 

No século XX surge a vacinação obrigatória e a inspeção de domicílios. Alguns moradores recebem intimações por falta de limpeza nos quintais, remoção de lixo e por criação de animais nocivos à saúde. Desconfiada daqueles procedimentos, a população escapa como pode, negando-se a a receber vacina, driblando normas, valendo-se do escárnio, do riso e da vaia.

A moléstia que mais aterrizou a capital - a Varíola - permaneceu endêmica até 1904, quando finalmente foi eliminada por ação da Inspetoria de Higiene,e principalmente, pelo farmacêutico Rodolfo Teófilo. 

Os pouquíssimos médicos do século XIX eram considerados heróis. Deparavam-se com secas e epidemias, usando como recursos sanguessugas e unguentos. De 1850 a 1860 ressaltam-se os feitos dos médicos José Lourenço de Castro e Silva e Liberato de Castro Carrera. O primeiro, denominado médico da pobreza, recomendou a mudança do matadouro público, a proibição do salgamento de couros em vias centrais, a eliminação das águas paradas em quintais, e a não criação de porcos nos limites do perímetro urbano. 

As normas de higiene recomendadas pelos médicos, eram passadas à população na forma de lei, conforme consta do Código de Posturas do Municipio de Fortaleza, de 1891.

Artigo 109 - É prohibido:

& 1° - é ter cães soltos nas ruas da cidade;
& 2° - crear ou conservar gado dentro do perímetro urbano;
& 3° - soltar nas ruas e praças da cidade, animal vaccum, cavallar, muar, ovino e caprino.  

 As recomendações foram reforçadas por Castro Carrera, que insistia na limpeza de becos, ruas, travessas, chafarizes e poços, além das inspeções constantes e rotineiras a todo e qualquer quintal. 

 A Santa Casa da misericórdia foi o primeiro hospital de Fortaleza

Nessa época foi inaugurado o primeiro hospital público de Fortaleza, único até a década de 1930 – a Santa Casa da Misericórdia, em 1861 – que acolhia portadores de doenças não contagiosas. Para estes reservava-se o Lazareto da Lagoa Funda, inaugurado em 1857, numa área remota, sete quilômetros depois da cidade.


Fonte:
Revista Fortaleza, fascículo 9.  
imagem Rodolfo Teófilo do livro Fortaleza Belle Epoque

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

A Criação da TV Ceará

 
Sede da TV Ceará em foto de 1960, na Estância, atual Dionísio Torres

Na década de 1950, Assis Chateaubriand instalou algumas emissoras de TV pelas cidades de São Paulo e Rio de janeiro. O fato despertou interesse de um grupo de cearenses que desejava a implantação de um canal de Televisão em Fortaleza. Nesta época existiam duas estações de rádio e dois jornais ligados aos Diários Associados: em Fortaleza a Ceará Rádio Clube e no interior a Rádio Araripe do Crato; e os jornais Correio do Ceará e Unitário.

Com o êxito da Ceará Rádio Clube (PRE-9) e o desenvolvimento deste complexo meio de comunicação pela região sudeste, o diretor João de Medeiros Calmon, desejava que os Diários Associados no Ceará tivessem também uma emissora de TV, fazendo a proposta a Assis Chateaubriand da implantação do canal.  

Aceito o desafio, foram iniciadas as vendas de ações populares pela cidade, e os Diários Associados entraram com a parte de fornecimento dos equipamentos, adquiridos nos Estados Unidos. Desse modo a estação foi construída e ficou pronta para funcionar no final de 1960, sob a direção dos Diários Associados.
Guilherme Neto, cantor e produtor
 
Para que as atividades e programação contassem com boa qualidade técnica, foram promovidos cursos de aperfeiçoamento para os profissionais que iriam operar o canal. O antigo diretor artístico da Ceará Rádio Clube, Guilherme Neto, compôs uma equipe que se deslocou para Recife, para fazer estágio em programação de TV. Quando a equipe retornou, a TV Ceará canal 2 foi inaugurada.

Péricles Leal acabou por assumir a direção artística da TV Ceará. Os ensinamentos de Péricles deram á emissora a certeza do profissionalismo, pois ele já estava com 10 anos de trabalhos, em teatro, cinema, rádio e artes em geral. Para Péricles televisão era um veículo, uma manifestação artística, com identidade própria.
 
Emiliano Queiroz, foi um dos profissionais que mais contribuiu para o aperfeiçoamento de artistas que estavam iniciando o trabalho na TV Ceará

Sob a direção do escritor Péricles Leal também foram realizados alguns cursos de aperfeiçoamento na própria TV Ceará, cujo destaque foi o CPET – Curso de preparação de estética de tv , destinado a formar profissionais aptos para o papel de realizador.  Este tinha a responsabilidade de administrar os espetáculos, cenários, figurinos, roteiro, ou seja, assumia o conjunto completo do espetáculo.


Nesse período foram contratados profissionais vindos de São Paulo e Rio de janeiro: um operador de vídeo, um operador de master e um iluminador, sendo os demais funcionários escolhidos em Fortaleza. 

A origem dos artistas contratados pela TV Ceará era o teatro e, principalmente, os programas de rádio. Os programas transmitidos eram ao vivo e em cenário preto e branco. Logo depois de inaugurada a emissora realizou novelas de curta duração, chamadas de TV Romance, que eram adaptações de clássicos da literatura e o Videorama, que eram novelas de caráter regional. 

anúncio da programação da TV Ceará em meados da década de 1960

Além das novelas foram realizados outros espetáculos e programas que tiveram grande relevância para o desenvolvimento da TV no Ceará. Dentre os principais espetáculos destacam-se Os Deserdados, de autoria do Superintendente da TV Ceará, Eduardo Campos e dirigido por Hildeberto Torres em 1967, e o programa Sete dias em Destaque, que homenageava com uma pequena jangada as pessoas que, durante a semana tivesse se destacado nas áreas econômica, política e social no Estado.



 Cena da peça Os Deserdados, de Eduardo Campos. No destaque, karla Peixoto
 
A TV Ceará, que funcionou até julho de 1980, inspirou e incentivou o aparecimento de outras estações de televisão em Fortaleza, e principalmente, formou um grande número de profissionais que passaram a contribuir com as demais emissoras criadas a partir de então, no Ceará. 

fonte:
Equipamentos Culturais no Ceará
Secult – 1966-2006
jornal Correio do Ceará, diversas edições
TV Ceará, a fábrica de sonhos, de Eduardo Campos
fotos dos livros
TV Ceará a Fábrica de Sonhos,
 Coisas que o Tempo Levou, a era do rádio no Ceará
e do jornal Correio do Ceará.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

A Festa de Libertação dos Escravos

Às oito horas da manhã do dia 25 de março de 1884, uma salva de tiros do 11° Batalhão e da Força Policial anunciou à população de Fortaleza o início das comemorações alusivas à libertação total dos escravos no Ceará. Uma data, ansiosamente aguardada pelos que lutaram  contra o tráfico de escravos na província, sofrendo em represália, perseguições políticas e demissões de cargos públicos. Defronte ao grande pavilhão instalado na atual Praça Castro Carreira, o povo começou a se reunir para a sessão solene que marcaria a história do Ceará.

 Sociedade Cearense Libertadora abolicionista, composta por Isaac Amaral, Papi Junior, William Ayres, João Cordeiro, Antonio Bezerra, Dragão do Mar, Alfredo salgado, Oliveira Paiva, João Lopes, José Amaral e Antônio Martins - 1880 (arquivo Nirez)

Ao meio-dia, chegaram o arcebispo D. Luiz dos Santos, o bispo diocesano D. Joaquim, o governador Sátiro de Oliveira Dias ago/1883 a mai/1884), representantes de outros países e de municípios que libertaram seus escravos.  Diante do público, estimado entre três e quatro mil pessoas, foi executado o Hino da Redenção, cantado por artistas locais. Sátiro de Oliveira Dias abriu a sessão, destacando a importância do evento e finalizando com a histórica declaração: A província do Ceará não possui mais escravos. 

 Os jornais divulgavam as boas e más noticiais. Defendiam ideias liberais e conservadoras

Segundo o Jornal Cearense, em edição de 29 de março de 1884, logo após o inflamado discurso de Sátiro de Oliveira, foi acionada a linha telefônica entre a praça e a fortaleza de Nossa Senhora de Assunção. E aos aplausos do povo uniram-se as salvas de artilharia, as descargas da guarda de honra do 11° Batalhão de Infantaria e girândolas de foguetes de todos os pontos da cidade.  Depois foram proferidos mais discursos e poesias, sempre ruidosamente aplaudidos.
Entre os oradores, representantes de instituições abolicionistas e governamentais, como Antônio Martins (Sociedade Perseverança e Porvir) Maria Tomásia (Cearenses Libertadoras), Gonçalo de Lagos (Jornal Constituição), Lassance Cunha (Província do Rio de janeiro), Guilherme Studart (consulado inglês). 

governador Sátiro de Oliveira Dias 
Falaram ainda João Lopes Ferreira Filho, representante da Abolicionista Cearense da Corte, Antonieta Gurgel representante do município de Messejana.  Antônio Bezerra, Sousa Melo e Francisca Clotilde recitaram poemas, encerrando às 15h30m a série de discursos.
O presidente da província e o bispo diocesano assinaram a ata da sessão, duas penas de ouro, em nome de todos os membros da Sociedade Libertadora. Em seguida, o povo gritou vivas a Sátiro de Oliveira Dias, ao Imperador, a Constituição do Império e à província do Ceará, em passeata até o Palácio do Governo.  A festa comemorativa não parou no dia 25 de março. Nos dias seguintes ainda foram realizadas passeatas e outras manifestações cívicas.
Diploma de sócio benemérito concedido a D. Pedro II, em 1882, pelo Clube dos Libertos
A repercussão do acontecimento foi imediata em todo o País, contribuindo para ampliar a causa abolicionista, apesar da oposição de latifundiários e comerciantes escravocratas. O exemplo do Ceará, promovendo, por iniciativa particular, a abolição do trabalho escravo, foi seguido apenas pela província do Amazonas, porquanto os demais só conseguiram libertar-se da aviltante instituição em virtude do decreto da Princesa Isabel, a Redentora, assinado  a 13 de maio de 1888, que extinguiu a escravidão no Brasil. 

Em Conferência no Congresso Antiescravista de Paris, em 1900, Joaquim Nabuco destacou a importância da luta cearense e o significado para a própria abolição em todo o País, recordando alguns fatos históricos. Lembrou que os escravos do Norte eram exportados em massa para o Sul, onde os preços eram maiores. No Ceará, para chegarem a bordo dos paquetes  onde seriam embarcados, tinham que ser transportados em jangadas. Movidos pelos abolicionistas, os jangadeiros, com Francisco José do Nascimento - o Dragão do Mar - à frente, negavam-se a transportar a carga humana. 

 Francisco Nascimento, conhecido como Dragão do Mar, teve papel relevante na abolição da escravidão no Ceará
A libertação dos escravos no Ceará foi resultado da ação de várias sociedades dedicadas à extinção do tráfico de negros. Algumas delas promoviam até furtos de escravos. A rejeição a este comércio teve maior ênfase a partir da grande seca de 1877-1879, quando fazendeiros foram à falência e tiveram que comercializar os escravos.
O número de escravos no Ceará era bastante reduzido em comparação com outras províncias do Império, sobretudo aquelas que exploravam o cultivo da cana de açúcar e do café, que ocupavam grandes latifúndios rurais. 
 trabalho escravo em uma fazenda de cana de açucar em Pernambuco
Tratados – em alguns casos – sem o excessivo rigor de que eram vítimas seus irmãos de cativeiro nos latifúndios do sul, viviam na sua humilhante e triste condição na província cearense, quando a grande seca iniciada em 1877, e perdurou três anos, veio dar nova fisionomia ao problema.
O alto preço do café, produzido no sul, onde faltavam braços para o trabalho, e a falta de trabalho no Nordeste, propiciou o surgimento de novos corretores que se entregaram ao comércio de escravos, incrementando o negócio no Ceará.

Tal ato provocou a revolta da população, que incentivada pelos abolicionistas, resultou num movimento emancipador iniciado em Fortaleza desde 1879, quando foi fundada a Sociedade Perseverança e Porvir.


Extraído dos livros
de Rogaciano Leite Filho e  Nélson Campos
ilustrações retiradas dos livros História do Ceará e Viagens ao Nordeste  do Brasil

domingo, 18 de setembro de 2011

Biblioteca Pública Governador Menezes Pimentel

A Biblioteca Pública de Fortaleza é o equipamento cultural mais antigo do Estado, tendo sua criação autorizada no governo provincial do Barão Homem de Melo (1865-1866), que projetou a criação do equipamento com o objetivo de auxiliar a população de Fortaleza a adquirir novos conhecimentos.  Foi inaugurada no dia 25 de março de 1867, e antecede a criação da Academia Cearense de Letras, a primeira do país, que data de 1894.

O surgimento de equipamentos culturais como este, já no início da segunda metade do século XIX, quando somente Rio de Janeiro, Pernambuco e Bahia possuíam bibliotecas públicas, comprova a grande importância dada pelos antigos governos locais, à cultura e a literatura.


Mas como já ocorria nas demais bibliotecas públicas criadas no país, a nossa também tinha um caráter elitista, com um acervo de obras clássicas trazido da Europa e voltado principalmente para as artes, literatura e ciências.

A mudança de critérios na escolha do acervo aconteceu a partir de 1922, tendo como marco A Semana de Arte Moderna, quando os gestores da biblioteca perceberam a necessidade de formar um acervo com obras ligadas à tradição e à cultura locais.

Cartaz da Semana de Arte Moderna

A Biblioteca Pública Governador Menezes Pimentel é hoje responsável pela coordenação de 194 bibliotecas municipais. Ocupa uma área de 2.272 metros quadrados, integrada ao complexo Dragão do Mar,  dividida  em 5 pavimentos que abrigam um acervo de aproximadamente 115 mil volumes e cerca de 300 mil periódicos.
A BPGMP dispõe das seguintes seções:
Audiovisual – acervo composto de catálogos de filmes recreativos e documentários que podem ser escolhidos pelos usuários. Mantém um cineclube fixo, que funciona de segunda a sexta, a partir de 14h30.
Braille – atende através de técnicas e equipamentos especiais, portadores de necessidades visuais. Os livros em braile podem ser consultados e ou retirados como empréstimo domiciliar.

Infantil – reúne acervo variado incluindo desde clássicos infantis até livros didáticos e obras de referência que auxiliam pesquisas e trabalhos escolares. Realiza programações pedagógicas com atividades de leitura, jogos, fantoches, teatro e música.
Laboratório de Conservação e restauração de papéis – executa serviços de conservação, preservação e restauração do acervo da instituição. Oferece cursos de conservação de livros e documentos.
Periódicos – põe à disposição dos leitores o Diário Oficial do Estado desde 1970 até os números atuais; jornais locais, revistas, boletins informativos, anais, anuários estatísticos, etc.

Obras Raras – conta com grande quantidade de obras escritas em grego, latim e francês. Guarda preciosidades como o incunábulo “Eclogas, Bucólicas, Georgicas, Eneida”,  do ano de 1492, do poeta Virgílio.

Obras Gerais/Empréstimos – oferece obras didáticas, literatura estrangeira e nacional, abrangendo todos os ramos do conhecimento e forma o maior setor da biblioteca. Todo esse acervo pode ser consultado no local ou ser levado como empréstimo, pelo prazo máximo de 15 dias.
Para ter acesso ao serviço de empréstimo é necessário ter a carteira do estabelecimento, bastando apresentar duas fotos 3x4, comprovante de residência, cópia do RG e CPF e pagamento de taxa no valor de R$ 4.

Ceará – atua como depositário da produção bibliográfica do Ceará, além de edições publicadas sobre o Estado, seu povo, suas histórias e costumes.
Espaço Martin Luther King Jr – doado pela Embaixada dos Estados Unidos, consiste de um rico acervo totalmente informatizado sobre diversos aspectos da cultura e civilização americana.
Iconografia – guarda importante coleção de livros de arte, edições de luxo, edições limitadas e/ou comemorativas.
Centro Digital do Ceará – facilita e incentiva a inclusão digital por meio do uso de bases referenciais e textuais disponíveis na rede. Acesso grátis.
Microfilmagem – microfilmagem de jornais cearenses e documentos da Assembleia Provincial e Legislativa do Ceará
Encadernação – tem a função de encadernar todos os periódicos e conservar as encadernações e brochuras de todo o acervo da biblioteca.

Funciona na Avenida Presidente Castelo Branco, 255 - De 2ª. a 6ª de 8h às 21 h
Aos sábados e domingos de 14h às 18h
Informações (85) 3101-2544 – www.secult.ce.gov.br 
fonte de dados: Secult

sábado, 17 de setembro de 2011

A Energia de Paulo Afonso

Até meados da década de 1960, a capital vivia sob uma severa crise energética.  A empresa  concessionária, a Ceará Light praticamente falira depois da 2ª. Guerra e não conseguia arcar com os custos de operação. 

Por descumprir uma determinação judicial relativa ao pagamento de salários dos empregados, a companhia sofreu intervenção  do governo federal.  Em 1948 a Light foi definitivamente encampada pelo governo do prefeito Acrísio Moreira da Rocha (1948-1951).

Gasômetro da Ceará Gaz no início do século

Daí surgem a Conefor, o Serviluz,  usinas térmicas, troca de combustível a lenha por óleo diesel, e remendos sem fim nas velhas caldeiras.  Apesar de tudo, a crise energética perdurava,  Fortaleza continuava sofrendo com a falta de energia, o crescimento industrial paralisado,  a economia estagnada, as residências às escuras.

A situação começou a ser contornada a partir de 1965, com a chegada da energia gerada a partir da cachoeira de Paulo Afonso, distribuída pela CHESF. 
As gestões para trazer para Fortaleza a energia distribuída pela CHESF, teve inicio no governo de Paulo Sarasate (1955-1958) e prosseguiu com Flávio Marcilio (1958-1959). Virgílio Távora, quando Ministro da Aviação do governo João Goulart, disponibilizou os primeiros recursos.

Em pronunciamento público durante a inauguração da energia de Paulo Afonso em Natal, o então Presidente João Goulart (1961-1964), garantia que a festa de inauguração em Fortaleza ocorreria no ano seguinte, em 21 de dezembro de 1964. A deposição do presidente e a instauração da ditadura militar em 1964, não alteraram o cronograma da obra.

No dia 25 de março de 1964, foi erguida em Mondubim, a primeira subestação de energia de Paulo Afonso, cujas obras foram percorridas em junho, em visita oficial ao Estado, pelo já então presidente Castelo Branco.

Em setembro ficou constatada a impossibilidade de conclusão da obra no prazo previsto.  No dia 21 de dezembro de 1964, data prevista para a inauguração, o governador Virgílio Távora e o engenheiro Amaury Menezes, diretor-técnico da Chesf, através de pronunciamento na TV Ceará, explicam à população, as razões do atraso no prazo de entrega das obras.


Por fim a festa inaugural foi marcada para o dia 1° de fevereiro de 1965. Dois dias antes da inauguração oficial, o governador e a primeira dama Luiza Távora acionam os disjuntores que liberavam a energia gerada em Paulo Afonso, e a transmitiam para a Usina do Passeio Público.






As comemorações oficiais, no dia 01 de fevereiro de 1965, tiveram lugar na Praça de Otávio Bonfim, com público estimado de 50.000 pessoas. Enquanto aguardava a chegada das autoridades, o público assistiu a shows de artistas como o do rei do baião, Luís Gonzaga e de Paulo Cirilo e suas pastoras, dentre outros.


O presidente e demais autoridades chegaram por volta das 19h30m. Ali falaram o governador do Ceará, o ministro das Minas e Energia e o Presidente.  A solenidade foi transmitida pela TV Ceará e pela Rádio Nacional em cadeia com todas as emissoras do Ceará e do País.




Às 20 horas o governador convidou o Presidente da República para acionar a chave que iluminou a Praça de Otávio Bonfim, dando-se por inaugurada a energia de Paulo Afonso em Fortaleza.



Logo em seguida, o Hino Nacional foi executado por diversas bandas militares; todas as igrejas fizeram repicar os sinos; fogos de artifícios enfeitaram o céu; carros buzinaram, navios e trens apitaram e girândolas foram queimadas, descobrindo os retratos do presidente Castelo Branco, do governador Virgílio Távora, do ministro Mário Thibau, do Sr. Apolônio Sales e  do engenheiro Amaury Menezes.





Dois poderosos holofotes do Exército iluminavam o céu de Fortaleza, naquela que foi denominada  A Festa do Século. A energia vinda de Paulo Afonso chegava à Fortaleza depois de viajar 653 quilômetros.


Pesquisa:
História da Energia no Ceará, de Ary Bezerra Leite.
Jornal Correio do Ceará, edições de 1, 2 e 3 de fevereiro de 1965
Jornal Unitário, edição de 2 de fevereiro de 1965 
fotos do 
lampião de gás, gasômetro e autoridades, retiradas do livro História da Energia no Ceará