quinta-feira, 28 de julho de 2011

O Tiro do Mucuripe

Até por volta do ano de 1930, havia no Mucuripe, não longe do farol e para o Poente, os restos de uma construção muito antiga. Acredita-se que essas ruínas fossem os últimos vestígios das três baterias que ali existiam em 1802, ( Baterias da Princesa Carlota,  de São João Príncipe e  de São Pedro Príncipe) citadas pelo Dr. Carlos Studart Filho, em uma matéria publicada na Revista do Instituto do Ceará.


construção do Porto do Mucuripe (final da década de 1930) - Arquivo Nirez

Explica o autor que, existia uma bateria mais elevada do que aquelas, com peças de rebate e bandeira amarela, servindo de sinal para os  navios sobre a direção do porto  (do Mucuripe). O historiador acha possível ter sido esta a fortificação a que mais tarde, chamaram de Forte da Bandeira.

Segundo João Brígido, Bernardo Manuel de Vasconcelos, primeiro governador do Ceará (1799-1802), prendeu por oito dias, no Forte São Luiz do Mucuripe, o capitão-mor Antônio José Moreira Gomes, poderoso chefe da colônia portuguesa.
O historiador C. Studart  não faz nenhuma referência a esse forte no poente; fala dos quartéis situados ao nascente daquela ponta, onde provavelmente esteve recluso Moreira Gomes, por não terem baterias nem fortes, acomodações para presos.

Desde 1837, do Mucuripe, se avisava por meio de um tiro a aproximação das embarcações.  Quando o Tenente-Coronel Inácio Correia de Vasconcelos presidiu o Ceará pela segunda vez,  (1844-1847), o governador (apelidado de canivetinho e Ferro Velho de Trem), proibiu o tiro do Mucuripe, que era correspondido por outro na fortaleza da capital.


postal do Mucuripe, década de 1940 - http://www.skyscrapercity.com

Não se sabe ao certo quanto tempo durou a proibição. O fato é que o Forte do Mucuripe não ficou, jamais, inativo. Tanto que no dia 7 de setembro de 1857, a explosão prematura da carga de uma peça, que mutilou dois soldados, deu lugar a que, daí em diante, se fizessem sinais somente com bandeiras. 


Forte de Nossa Sra. de Assunção, início do século XX - ofipro


É certo também que ainda depois de 1867, se havia restabelecido o tiro de aviso somente na Fortaleza de Nossa Senhora de Assunção. Ali havia no terreno contiguo ao Passeio Público uma pequena peça montada junto à muralha, ficando próxima a uma guarita de alvenaria. Disparado o tiro com aquela peça, içavam-se bandeiras de cores e formas convencionais: na ponta voltada para o Mucuripe, indicavam que o vapor vinha do Sul. Na ponta oposta – vapor do Norte. 


Passeio Público em 1907. No detalhe, um canhão montado sobre carro de transporte para campanha (Ofipro)

Em um momento a cidade sabia da chegada de um vapor. Este processo de anunciar deu lugar a uma frase muito em voga naquela época: Atirou o Vapor.  Era o comércio de Fortaleza que mantinha este sistema de sinais, que foi abandonado por volta de 1890.

Fonte: João Nogueira

Fortificações na Ponta do Mucuripe

Segundo historiadores,  foram construídos os seguintes fortes e baterias na ponta do Mucuripe:

Fortim de São Bartolomeu

Citado por apenas um historiador (Sousa, 1885) entre as fortificações que  existiram no Mucuripe.

Fortim de São Bernardo do Governador (Fortim de São Luis)

Já no início do século XVII, o Capitão-mor Martim Soares Moreno preconizava a fortificação da enseada do  Mucuripe, a quem os franceses denominavam "mocoripá". Em 1745 foi submetido à Coroa portuguesa um projeto para a construção de um forte no Mucuripe.  
Entretanto, apenas a partir de 1799, é que uma fortificação seria iniciada para a defesa da enseada, sob a forma de uma simples estacada de pau-a-pique, com a forma de um polígono octogonal regular, com vinte palmos de comprimento em cada lado. Os cinco ângulos voltados para o mar possuíam uma canhoneira cada um e os três pelo lado de terra abrigavam o quartel da tropa.
Seus muros eram tão baixos, que do mar podiam se divisar os soldados ali postados.  No ano de 1800, o governador da Capitania do Ceará, Bernardo de Manoel de Vasconcelos, propôs o aumento da artilharia do forte, que era de dezoito para vinte e seis peças. No ano seguinte, para reforço da sua defesa, ordena o levantamento de três baterias de pedra e cal, uma delas próxima ao ancoradouro. Por falta de peças para municiar as baterias recém-construídas, o mesmo governador faz guarnecê-las com algumas peças de ferro em cada uma, complementadas por imitações de madeira pintadas de preto, iludindo o observador externo.
Também conhecido como Fortim de São Bernardo do Governador, dessa estrutura e das que lhe foram complementares na defesa do ancoradouro de Mucuripe, nada mais resta atualmente.

Fortim da Bandeira

Studart Filho (1937) informa que este fortim tinha como função a defesa da enseada de Mucuripe e seu ancoradouro, estando equipado com oito peças. Aparentemente a função de suas peças era a de rebate, e a bandeira que lhe dava o nome, quando de cor amarela, avisava as embarcações em trânsito para fundearem no porto de Mucuripe para receberem notícias sobre a presença de embarcações inimigas cruzando a costa a norte. Este fortim contava com apenas uma peça de artilharia.

Bateria da princesa Carlota,  Bateria de São João Príncipe e Bateria de São Pedro Príncipe

As três  baterias foram erguidas para complemento da defesa da enseada de Mucuripe e seu ancoradouro. Provavelmente são contemporâneas,  erguidas a partir de 1802 por determinação do governador da Capitania do Ceará, Bernardo de Manoel de Vasconcelos.  

Fonte:
wikipedia

terça-feira, 26 de julho de 2011

Personagens de Fortaleza: O Cangulo

Na primeira década do século XX, nessa Fortaleza de Nossa Senhora de Assunção, o melhor divertimento da cidade era o cinematógrafo em edições melhoradas. 
Havia ao todo três, pequenos e pobres, com cadeiras austríacas e pulgas à vontade: o Pathé, de Vitor di Maio, italiano de cabeça branca e fala apressada, nos fundos da Maison Art-Nouveau, ao lado da Rua Municipal (atual Guilherme Rocha), com luz oxslite e fitas de Francisca Bertini. 


Quarteirão da Rua Major Facundo na Praça do Ferreira, na esquina ficava o "Maison Art-Nouveau", inaugurada em 1907. Por trás desta loja funcionou a partir de 1908, o primeiro cinema da Fortaleza, o cinematógrafo Pathé, do italiano Victo Di Maio. No mesmo local estiveram depois a "Maison-Riche", o Restaurante Chic, A Pernambucana, a "Broadway", a Rouvani,  e a Tok-Discos.  Hoje funciona no local uma loja de sapatos.


O mesmo imóvel da esquina com as Ruas Major Facundo e Guilherme Rocha. O Pathé, seu vizinho pela Guilherme Rocha, abrigava-se no prédio em frente ao sobradão, que foi demolido para a construção do Excelsior Hotel (arquivo Nirez) 

O Estereopticon, da empresa Cabral & Cia., mais tarde, de Júlio Pinto, que ficava nos fundos do comércio chamado O Palhabote, na Rua Major Facundo;  e o Rio-Branco, na Rua Formosa (atual Barão do Rio Branco), de propriedade do joalheiro Mesiano, nos fundos de sua loja, na Rua Major Facundo, 364, onde outrora funcionara a oficina de encadernação do polaco Louis Cholowiecki, que o povo chamava de Luís Chuvisco. 

Casa Mesiano na antiga Rua Formosa. Nos fundos, pela Rua Major Facundo, funcionava o Cinema Rio-Branco, ambos de propriedade do joalheiro Mesiano (foto: acervo particular de Darth Vader)   

Um jornalzinho satírico dizia que os cinemas de Fortaleza eram do calendário: um é de Maio, outro de Julho e o último de mês e ano. 
Pois um dos personagens mais assíduos destas salas de diversão era o Cangulo, nome de batismo ignorado, conhecido pelo apelido que ganhara nos tempos em que era aluno do Liceu do Ceará, onde cursara o primeiro ano. 
Popularíssimo no meio estudantil devido a feiura, um dia, resolveu largar a cidade natal e ir morar no Rio de Janeiro.  Durante muito tempo, ninguém ouviu falar dele. 
Em agosto de 1909, os cinemas exibiam a reportagem do sepultamento do Presidente Afonso Pena, que falecera no mês anterior. O Pathé estava literalmente cheio de estudantes, quando apareceu o Cangulo, na tela, no melhor estilo papagaio de pirata, de pé por trás do cordão de isolamento dos guardas civis à porta do Palácio do Catete, quando saía o cortejo presidencial. Um grito uníssono  sacudiu a plateia:
 – O Cangulo!!!
Seguiram-se estrepitosas salvas de palmas. Então, por mera coincidência, o Cangulo abriu a bocarra num sorriso sem dentes, como dirigido a seus antigos colegas. Grande aclamação abalou o cinema:

 – Viva o Cangulo! Viva o Cangulo no Catete! Viva o sucessor de Afonso Pena!

O escritor Gustavo Barroso o encontrou anos depois no Rio de Janeiro, vivendo como indigente, desiludido e acabado. O escritor conseguiu com um amigo, que o governo lhe cedesse uma passagem de volta para Fortaleza, onde vivia seu pai, vendedor de banana na feira.  Mas não levou sorte o Cangulo. Pouco tempo depois, já de volta à Fortaleza após uma discussão, foi assassinado, abatido a tiros de revólver, por um certo Barbosa Lapada.  

extraído do livro  de Gustavo Barroso

domingo, 24 de julho de 2011

Os americanos no Ceará e a ousadia das Coca-Colas

Com a entrada do Brasil na guerra contra o Eixo, Fortaleza encheu-se de soldados e marinheiros norte-americanos,  em trânsito para os campos de batalha europeus.  Enquanto permaneciam aqui, os gringos procuravam se divertir o mais que podiam, não sendo difícil para eles, atrair muitas moças da classe média alta, que logo se tornaram suas namoradas. Coube a essas ousadas mulheres,  realizar uma verdadeira revolução nos costumes da cidade provinciana de então. 

Praça do Ferreira, década de 1940

Puseram fim ao tabu de que  moças de família não deveriam sair desacompanhadas de pais ou irmãos, a sós com os namorados. E muito menos quando essas saídas fossem à noite, depois das nove batidas do relógio da Coluna da Hora. 
Pois as coca-colas – como foram apelidadas, talvez por ser esse um dos principais símbolos americanos – ousaram fazê-lo para desespero das mães,  espanto das avós e deleite da vizinhança, que tinha assunto para falatório durante muito tempo. 
Elas saíam de braços dados, com os namorados estrangeiros, fosse de dia, fosse de noite. O point elegante da cidade, frequentado pela juventude da época e que passou ser também um dos preferidos dos americanos, era o bar O Jangadeiro, na Praça do Ferreira. 

O Bar O Jangadeiro, na Praça do Ferreira era um front na batalha das Coca-Colas contra o preconceito. Ali elas tinham encontros com os soldados americanos (arquivo Marciano Lopes)

Outro ponto de encontro era na Praia de Iracema, onde se instalaria posteriormente o famoso restaurante Estoril, onde funcionava o USO, clube dos oficiais americanos, de muita frequência,  especialmente feminina.   
Coube também aos americanos o início de outra revolução de hábitos e usos em Fortaleza. Os filhos de Tio Sam tomavam cachaça sem o menor constrangimento. Chegavam ao Jangadeiro pedindo que lhes servissem uísque. 

Vila Morena, na Praia de Iracema, transformada em clube dos oficiais norte-americanos durante a 2a. guerra, era o reduto das moças da sociedade local que tinham coragem de enfrentar as criticas e reprovações e assumiam o namoro com os soldados americanos (arquivo Marciano Lopes) 

Ao ouvirem dos garçons que o produto estava em falta, pediam então outra bebida forte.  E os garçons empurravam aguardente.  A cachaça misturada com Coca-Cola era muito apreciada pelos americanos. 
E como no Ceará as elites costumam imitar tudo que fazem os estrangeiros, logo virou moda  tomar cachaça com Coca-Cola.  A partir daí a cachaça ganhou status de bebida de classe, perdeu o estigma de bebida de párias sociais para virar uísque nacional. 
Enquanto isso no bar e sorveteria O Jangadeiro, surgia sério desentendimento entre os rapazes do soçaite local e os garçons. Estes se esquivavam de atendê-los preferindo os americanos, porque os gringos, além de pagarem regiamente, ainda o faziam em dólares. 
Os antigos clientes reclamaram com o dono do estabelecimento, o sobralense José Frota Passou que não titubeou: a frequência não lhe interessava, preferia antes os americanos porque não olhavam para o montante das despesas. A resposta do comerciante irritou a rapaziada que em represália, tentou quebrar o estabelecimento. Mesas e cadeiras chegaram a ser quebradas, enquanto na Praça do Ferreira juntava gente pronta para colaborar com a depredação. No entanto, a turma do deixa disso entrou em ação conseguindo acalmar os ânimos. Tudo por conta do nosso esforço de guerra.
Terminada a guerra, os soldados americanos retornaram ao seu país de origem e as Coca-Colas ficaram desativadas. Mas continuaram a desfilar seu charme e elegância pelas ruas da cidade, motivando as mais variadas reações.  As crianças ficavam boquiabertas ante aquelas verdadeiras afrodites  que desafiavam os costumes e a moral da época
 – mãe que moça linda!
E a mãe, puxando o rebento pela orelha:
 – não olha, menino! É uma Coca-Cola!  

Segundo Blanchard Girão, circulava entre os alunos do Liceu, em cópias datilografadas, uma relação com os nomes das Coca-Colas, moças faladas, que os jovens cearenses  não aceitavam de modo algum para casar. Várias dessas moças acabaram casando com soldados e, ao término da guerra transferiram-se com eles para os Estados Unidos.



Depois dos americanos, vieram os produtos produzidos por eles: a Coca-Cola, as meias de nylon, a goma de mascar, o plástico, o pirex, a caneta esferográfica e outros. 

As tropas americanas permaneceram em Fortaleza entre 1943 e 1946. Terminado o conflito, a população entendeu que era hora deles deixarem nossa terra. E começaram a surgir desavenças entre gringos e nativos. 
Certo dia, ao cair da tarde, um senhor, aparentemente de posses, deixou o carro estacionado em frente a uma tabacaria, ao lado da Rotisserie (atual prédio da Caixa Econômica na esquina das Ruas Floriano Peixoto e Guilherme Rocha), na Praça do Ferreira.  A esposa permaneceu dentro do veículo, quando dela se aproximou  um marujo americano, muito alto e magro, que dirigiu um gracejo para a mulher. Ao perceber o assédio, o marido saltou como uma fera contra o galanteador, de faca em punho. 
O americano desabou em incrível velocidade, sob as vaias da população, indo homiziar-se no Excelsior Hotel para fugir da fúria do perseguidor.  

Fontes:
Alberto S. Galeno,
Blanchard Girão
Marciano Lopes

sexta-feira, 22 de julho de 2011

O Show da Fé: As Procissões em Fortaleza

As antigas procissões evitavam passar pela Praça do Ferreira, temiam a língua do povo. Esta precaução, entretanto, se livrava os religiosos das vaias e da ação da famosa molecagem que se aglutinava na praça, não os livrava da maledicência de seus críticos: o Bispo Dom Manoel, 1° Arcebispo de Fortaleza, era sempre chamado pelo apelido que ganhou no Aracati: Bolo Confeitado;  o seu sucessor era chamado de Envelope Aéreo

As procissões evitavam a passagem pela Praça do Ferreira (arquivo Nirez) 

Já a congregação Filhos de Maria tinha o apelido de Biscoitos de Monsenhor Tabosa,  o diretor da congregação no Ceará.  As beatas eram as Baratas de Sacristia. 
Desta forma os adversários da igreja – que não eram poucos – se vingavam das ofensas proferidas por padres furibundos, que apontavam todos que não pertenciam às suas fileiras, (maçons, protestantes, espíritas, livres-pensadores e comunistas) como criaturas demoníacas, indignas de conviver com católicos. 
Esta postura dos clérigos surtira efeito nas eleições do ano de 1934, influenciando o eleitorado  que votou em peso na Liga Eleitoral Católica – LEC, uma coligação formada pelo que havia de mais reacionário no Estado, em detrimento do Partido Social Democrata – PSD, agremiação que abrigava a burguesia liberal do Ceará. 
O fato acirrou os ânimos contra o clero e conta a própria igreja.  Naquela época a Igreja Católica ainda não havia perdido o ranço dos tempos medievais. Era exigida dos seguidores a mais absoluta obediência.  A excomunhão era recurso usado  regularmente, especialmente pelo bispo Dom Manuel.

A Praça atualmente conhecida como Filgueira de Melo, era o ponto final das procissões de Corpus-Christi (arquivo Marciano Lopes)

Certa vez ele convocou os bispos do Crato e Sobral, para juntos amaldiçoarem o jornalista Júlio de Matos Ibiapina, diretor do jornal O Ceará.
Em outra ocasião, em 1926, foi excomungada uma comissão formada de vinte e tantos moradores do município, a qual havia comparecido ao palácio para implorar ao bispo que reconsiderasse a interdição da Capela de São Pedro, de grande significação para aquela gente. 
O bispo não só não reconsiderou como impôs como castigo a maldição dos insatisfeitos com a medida episcopal. 
As procissões, por sua vez, até o final da década de quarenta, tinham toda a pompa, constituíam verdadeiros espetáculos. Movimentavam toda a população, faziam dobrar os sinos e os joelhos dos fiéis. 
Os cortejos desfilavam pelas ruas de Fortaleza anunciados pela barulheira ensurdecedora de uma matraca acionada pelo sacristão. Seguiam-se os Irmãos do Santíssimo empunhando enormes castiçais, colocando-se em redor do pálio sob o qual se abrigavam o bispo e os demais dignitários da igreja. 
Perto destes, as autoridades e por últimos os Filhos e Filhas de Maria, vestidos de branco, com fitas azuis ao pescoço. Acompanhava-os a massa de fiéis.

As procissões pareciam monumentais representações teatrais, com um coro grandioso entoando cantos gregorianos. Associações pias, colégios religiosos em suas fardas de gala, andores, pálios, banda de música. Um grandioso espetáculo. (arquivo Marciano Lopes) 

As duas procissões mais importantes eram a de Corpus-Christi  e a do Senhor Morto. A primeira, contava com representações de todos os colégios católicos de Fortaleza, com os estudantes em suas fardas de gala; guarnições militares, inclusive os elegantes cadetes da Escola Preparatória; todas as associações pias, o Seminário. 
A procissão de Corpus-Christi saía da Igreja do Pequeno Grande, que funcionava como catedral  provisória, dobrava a direita na Rua Coronel Ferraz e à esquerda na Rua Visconde de Sabóya, que passa a ser Rua São Paulo e seguia em frente até a General Sampaio, dobrando à esquerda, rumo à Praça José de Alencar, onde acontecia a primeira benção, em frente à Matriz do Patrocínio. 

Nas procissões de Corpus-Christi, todos os seminaristas e grande número de sacerdotes se faziam presentes. Sob o pálio, o arcebispo conduzia o ostensório de ouro com a Eucaristía. (arquivo Marciano Lopes)

Em seguida o cortejo contornava a praça, seguia pela Liberato Barroso, virava à direita na Senador Pompeu, dobrava à esquerda na Pedro Pereira, onde tinha a segunda benção em frente a sede do jornal católico O Nordeste, na esquina da Rua General Bezerril ao lado da Cidade da Criança.
Depois, a procissão seguia pela Pedro Pereira, 25 de Março e Praça da Escola Normal, acontecendo então a terceira e última benção, no adro da Igreja do Pequeno-Grande. 

Conjunto arquitetônico, Colégio da Imaculada Conceição, Igreja do Pequeno Grande (arquivo Nirez)

De irresistível beleza plástica, a procissão de Corpus-Christi era um espetáculo que merecia ser visto, independentemente de religiosidade.
Nessa ocasião a igreja usava o amarelo e branco, suas cores oficiais, que davam ao ato, um clima de festiva alegria. Por onde passava o cortejo religioso, as famílias estendiam nas sacadas, os seus panos mais preciosos em formas de toalhas, colchas e cortinas, escolhidos entre suas peças mais suntuosas. 
O percurso, escolhido criteriosamente, passava prudentemente, longe de quaisquer manifestações dos irreverentes frequentadores da Praça do Ferreira.

Extraídos dos livros:
de Alberto S. Galeno
e Marciano Lopes

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Fortaleza do Século XIX – Evocação da cidade antiga

Na Rua da Palma, que posteriormente recebeu o nome de Major Facundo, existia a Farmácia Teodorico, o estabelecimento comercial mais antigo da cidade, fundado no reinado de Dom João VI. A Farmácia pertenceu a quatro gerações sucessivas da família Costa: Elói, Antônio Teodorico, José Elói e  por último, Alberto Elói. Depois passou às mãos da família Benevides. 

Rua Major Facundo, na esquina onde funcionava a Farmácia Teodorico - 1970 (arquivo Nirez)

Durante muito tempo lá ainda se achavam as primitivas prateleiras, onde se avistavam os antigos frascos de água colorida de amarelo, de vermelho e de azul e um banco singelo em que a freguesia esperava o aviamento das receitas.

  Rua Major Facundo, trecho Praça do Ferreira (arquivo Nirez)

Naqueles tempos remotos era Fortaleza  uma cidade ingênua, mas viril. Povo ímpar, descendentes daqueles Capitães-do-Mato, bons, burros e bravos, na classificação de João Brígido. Sobretudo, uma gente honesta, como o velho Macaíba, de quem fala Gustavo Barroso em suas Memórias

Tendo recebido de um amigo do interior a incumbência de comprar e guardar um bilhete de loteria, comprou-o e guardou-o juntamente com outro, de sua propriedade, em envelopes separados. 
Mas não os mostrou a ninguém.  Corrida a loteria e premiado com 500 contos o bilhete que destinara ao amigo, o velho Macaíba não se sentiu tentado pela avultada quantia, pois mais do que o dinheiro, valia sua probidade. 

Abrir mão de 500 contos, quem era pobre e não tinha, além da própria consciência, nenhuma testemunha a embaraçar-lhes os passos, é exemplo que não se encontra facilmente nos dias de hoje. 
Bom e bravo povo de outrora, que enfrentava os potentados e defendia os fracos, como ocorreu com o velho cajueiro então existente no cruzamento das Ruas Pedro Borges, Major Facundo e Liberato Barroso, chamada do Cajueiro, em razão do episódio que, nos tempos do Brasil-Colônia, sob o reinado de D. Maria I, foi palco o Ceará, governado à época pelo oficial da marinha portuguesa Luiz da Mota Féo e Torres, conforme relato de Gustavo Barroso, que o ouviu do professor Lino da Encarnação.

Nesse tempo Fortaleza era uma pequena aldeia, muito embora ostentasse os foros de capital do Ceará. Onde hoje se acha a Praça do Ferreira, existia uma série de casas conhecida por Beco do Cotovelo, de cuja extremidade partiam três incipientes ruelas. 
A que saía para os lados do Garrote possuía, em certo ponto, um grande cajueiro, à sombra do qual ficava o açougue do Fagundes.  Um dia, ao passar o governador por ali, cavalgando o seu ginete, um galho baixo da árvore arrancou-lhe o chapéu, lançando-o ao chão. 
Como o açougueiro descansava ali perto, o governador ordenou-lhe:

- Apanhe esse chapéu! 

O Fagundes fez que nem ouviu.  Não gostava de ser mandado, acostumado que era nessa vida livre que sempre levaram os primitivos colonizadores. O governador insistiu, sendo ainda desobedecido. Então gritou, irritado:

- Não me apanhas o chapéu, vilão duma figa, pois eu, que ia somente mandar cortar o galho baixo do cajueiro, agora vou derrubar tudo, e adeus açougue!

Do Palácio, outrora aquela casa antiga e baixa guardada por uma muralha com pesados portões, na Rua Conde D’Eu, onde funcionou o Mercado Central, partiu a ordem de deitar abaixo o cajueiro. 
O açougueiro, auxiliado por outros moradores, não deixaram que os soldados executassem a ordem do governador. 
É que o Fagundes lançara pela provinciana cidade o seu grito de revolta. Em seu auxilio vieram outros açougueiros, flandeiros, merceeiros, ferreiros, quem quer que tivesse uma profissão definida, até mesmo os pescadores da Prainha, armados todos, de cacetes, pedaços de pau, pedras  e fações. 
A tropa carregou. 
 A prepotente  autoridade acabou desistindo de mandar derrubar o cajueiro.

A Residência dos Governadores, na Rua Conde D'Eu. Em 1929 o então prefeito Álvaro Weyne mandou demolir o imóvel, depois de mandar fotografá-lo (Arquivo Nirez) 

No mesmo local da residência dos Governadores foi construído o antigo Mercado Central - foto de 1932 (Arquivo Nirez) 

A velha residência dos Governadores, de onde partiu a ordem não cumprida, prédio  tradicional e histórico de nossa capital, foi demolido alguns anos depois, por ordem de quem, por obrigação deveria conservá-lo: o poder público.  

Naqueles tempos antigos, um pouco mais para o oeste, ficavam os terrenos baldios da Praça da Estação, onde se armavam os circos que eram a delícia da meninada. 

Praça José de Alencar, final do século XIX (arquivo Marciano Lopes)

Para o sul, a atual Praça José de Alencar, na qual existia um pequeno nicho que deu lugar à futura matriz do Patrocínio e em cujo centro haveriam de erguerem-se as paredes de inacabado teatro, finalmente destruído pela chuva e pelo descaso do s poderes públicos. 

 Prédio do batalhão de Segurança, depois Escola Aprendizes Artífices, na esquina da General Sampaio com a Liberato Barroso. (arquivo Nirez)

O Centro de Saúde, que ocupou o espaço onde antes esteve o Batalhão de Segurança, foi demolido em 1974, para dar lugar aos jardins do teatro José de Alencar (arquivo Nirez)

Ainda não existia, em 1887, a Escola Normal, depois Grupo Escolar José de Alencar e mais tarde Faculdade de Medicina, Odontologia e Farmácia, atual IPHAN, nem o Quartel de Segurança, destruído após a revolução de 1930 para, no mesmo terreno, ser edificado o prédio do Centro de Saúde, que também desapareceu para dar lugar ao jardim do Teatro José de Alencar.

Mais para o sul, a Praça São Sebastião, em cujo centro erguia-se a capelinha da mesma invocação, custodiada pelo padre Pedro. A morte do sacerdote ocasionou o desaparecimento do singelo templo, do qual não restam quaisquer  sinais, nem mesmo o cruzeiro do patamar.

aspecto atual da Praça Paula Pessoa,  antiga Praça São Sebastião

Resgatando em parte a história do logradouro, foi construído um pequeno santuário em louvor a São Sebastião, inaugurado em 20 de janeiro de 2003, na administração de Juraci Magalhães (1997-2005). Fica nas dependências do Mercado São Sebastião

O vasto areal que era a praça tinha no seu entorno o açude do Padre Pedro, construído logo após a nascente do riacho Jacarecanga. O açude também foi urbanizado entre quatro ruas e mais tarde, totalmente aterrado.

Outra tradição da Fortaleza do século XIX eram os apelidos, espirituosos, mal recebidos a princípio, para acabarem incorporados aos nomes de batismo. 
As Pedrocas, filhas de um tal Pedroca, Pedro de Tal; as Itapipocas, por terem vindo daquela localidade; as Mundórias, em razão do pai, professor de latim, ter sido alcunhado de Mundório, por viver declamando mundus, mundorum; as Garapas, tias de Gustavo Barroso, por causa do pseudônimo com que o avô do ilustre escritor assinava seus artigos políticos: Zé Garapa; as Mississipis, em razão do pai ter possuído uma bodega denominada Ao Mississipi, aproveitando o intercâmbio forçado do sul dos estados Unidos com o Nordeste brasileiro durante a Guerra de Secessão; as Palhabotes, em vista do chefe de família ter montado estabelecimento comercial com o nome de O Palhabote.

Na Fortaleza de 1887, vagar de madrugada pelas ruas desertas não era proibido, e podia-se largar a voz no mundo, fazer o barulho que quisesse, tendo por testemunha a lua mais bonita que Deus fez, econômica lua, com quem uma vez os administradores fizeram um incrível contrato, tão simples e peremptório, que só deu certo porque os filhos da cidade eram também meio lunáticos.

Extraído do livro
de Mozart Soriano Aderaldo.

domingo, 17 de julho de 2011

Praça da Lagoinha

Antes que venha a nova Praça da Lagoinha, que pelo andar das obras, deve estar prestes a ser entregue ao público, vamos fazer uma pequena viagem ao passado do logradouro, localizado no centro de Fortaleza. 

Praça da lagoinha - Século XIX (arquivo Nirez)

Naquele local havia uma praça de areia, sem nenhum tipo de urbanização, onde os escravos apanhavam água numa pequena lagoa existente no centro, e que de seca em seca, foi desaparecendo. Em 1850 foi cavada uma cacimba forrada de aduelas de madeira, que abastecia a população local. Com a inauguração dos poços do Benfica em 1860, a cacimba da lagoinha foi abandonada e o lixo da cidade passou a ser colocado ali. Em 1884, a estrada de ferro mandou aterrar o que restava da lagoa utilizando areias do Morro Croatá, com receio da provável contaminação da água, e para preservar a população do alastramento do cólera morbus. Foi colocado um cata-vento e uma caixa d’água para abastecimento das locomotivas que passavam pelo Trilho de Ferro, hoje Avenida Tristão  Gonçalves.

 Foto do dia da inauguração da Praça Comendador Teodorico, hoje Capistrano de Abreu, construída na administração Álvaro Weyne (arquivo Nirez)  

A Praça da lagoinha com o jardim Thomaz Pompeu. Ao fundo as duas casas de maior destaque da área a partir da esquerda: a casa em estilo normando, de Thomaz Pompeu, e ao lado a residência de Eduardo Girão. A fonte das sereias hoje encontra-se na Praça Murilo Borges (Praça do BNB) - arquivo marciano Lopes 

Na gestão do prefeito Álvaro Weine ( 1928-1930), o espaço foi urbanizado e construída uma  praça – inaugurada no dia 12 de julho de 1930 – que recebeu a denominação de Praça Comendador Teodorico. Com projeto do arquiteto Rubens Franco, o espaço foi embelezado com o jardim Tomás Pompeu e uma fonte importada, toda em bronze, ornamentada de sereias e cavalos, tornando-se um dos logradouros mais bonitos da cidade.  Mas o nome Comendador Teodorico, “não pegou” e o espaço continuou sendo chamado pelo nome que já havia sido consagrado pela população:  Praça da Lagoinha. 
Nos últimos 30 anos, por falta de políticas públicas para a área do centro, por omissão da prefeitura de Fortaleza  e suas instâncias ou por ausência de planejamento urbano,   área da praça foi totalmente ocupada vendedores ambulantes, que vendem toda sorte de quinquilharias.

O comércio ocupou todos os espaços da Praça da Lagoinha (foto jangadeiro online)

O logradouro que no passado  foi uma das melhores opções de lazer das famílias tradicionais da cidade, com o passar dos anos, foi ficando no mais completo abandono: bancos quebrados, estátuas pichadas, iluminação precária e muita sujeira acumulada. Aos poucos o lugar foi perdendo seu encanto natural e, ultimamente era refúgio para malandros, desocupados e meninos de rua.  À noite, são poucos os que se arriscam a passar sem serem abordados por marginais.


A Praça atual, cercada por tapumes e a construção da estação do metrô (fotos do blog)

Com a retirada dos camelôs, a Praça da Lagoinha foi  fechada por tapumes para a construção da primeira fase do Parque da Cidade, nome dado à obra de integração daquele logradouro à Praça José de Alencar, local da mais importante estação do metrô.

Fontes:
Nirez
Diário do Nordeste

Adolfo Caminha


Adolfo caminha nasceu em Aracati, no dia 29 de maio de 1867. Teve uma infância conturbada pela perda da mãe aos 10 anos de idade e devido a seca que assolou o Nordeste nesse mesmo ano. Fez os primeiros estudos em Fortaleza e depois passou a residir no Rio de Janeiro, com um tio materno.
Em 1883 matriculou-se na Escola Naval. Na Marinha sentiu o choque da instituição conservadora e monarquista, revelando-se   republicano e abolicionista. 
Em 1884, numa solenidade que contava com a presença do Imperador Dom Pedro II, o aluno então com 17 anos, declarou-se contra o anacronismo da escravidão e do império. Apesar da declaração formou-se em 1885 como guarda-marinha. 
Nesta profissão viaja pela Antilhas e pelos Estados Unidos. Durante a viagem redige um diário com anotações e observações sobre os países visitados, que resultará no livro no País dos Ianques, lançado em 1894.
Em 1888 passa a servir na Escola de Aprendizes Marinheiros do Ceará do Ceará. Participa ativamente da vida intelectual local, sendo membro fundador do Centro Republicano Cearense. 
Nesse mesmo ano, o já tenente Caminha se envolveu num grande escândalo amoroso: apaixonou-se por Isabel Jataí de Paula Barros, que deixou seu marido e foi viver com o escritor, caso de enorme repercussão na sociedade cearense.  É punido e pede demissão da Armada.
 Em 1890 é nomeado amanuense (escriturário de repartição pública que escrevia textos manualmente).  Embora retraído da vida social, continua a participar da vida literária cearense: escreve livros e participa das reuniões da Padaria Espiritual e do jornal do grupo O Pão. Em 1891 fundou a Revista Moderna. 
Em 1892 foi transferido para o Rio de janeiro, onde se dedica ao jornalismo, a crítica literária e à literatura.  Faleceu nesta cidade no dia 1° de janeiro de 1897, antes de completar 30 anos de idade, acometido de  tuberculose.

Obras:

1886 – Voos Incertos – poesias
1887 – Judite e lágrimas de um crente – contos
1893 – A Normalista – romance
1894 – No País dos Ianques  - crônicas
1895 – o Bom Crioulo – romance
1896 – Tentação – romance

Sobre  A Normalista

O autor está inserido no Naturalismo, vertente literária que se preocupa em denunciar o perfil moral dos personagens em sociedade. O caráter dos tipos humanos é retratado levando em conta o Determinismo, filosofia de H. Taine que assegura estar o homem – de maneira inexorável – atrelado à sua herança genética, ao seu meio social e ao seu momento histórico.  Interessa a esta vertente realista focalizar as camadas mais baixas da sociedade, ressaltar os vícios humanos, principalmente os seus desvios sexuais, suas taras, homossexualismo e adultério. 

Prédio da Escola Normal na Praça Marquês do Herval. O local abriga atualmente o Instituto do Patrimônio Histórico (arquivo Marciano Lopes)

Em A Normalista, a maioria das personagens femininas são adúlteras e dissimuladas; os homens são maledicentes, traídos e traidores.
Neste romance, Adolfo Caminha apresenta aos leitores,  sua visão da cidade de Fortaleza no final do século XIX.  Ao contar a trajetória da normalista Maria do Carmo, o autor vai delineando quadros da vida da capital cearense: o ambiente na Escola Normal, o footing no Passeio Público, um festa de casamento, um enterro, o cortejo,  os sinos da Igreja da Sé dobrando a finados, a relação familiar da adolescente e sua visão do mundo que a cerca.
Nesta espécie de painel de costumes, o autor parece querer mostrar aos leitores toda a mesquinha sordidez da vida social de Fortaleza no seu tempo.

Antiga catedral da Sé, demolida em 1938 para construção da Catedral Metropolitana (arquivo Nirez)

O mau humor para com a cidade é transparente e costuma ser apontado por críticos como uma espécie de vingança, por ter sido recriminado e criticado por seu amor adúltero.
O projeto naturalista de Adolfo caminha se insinua ainda pela insistência com que o autor sugere aos leitores a sexualidade ostensiva ou latente das personagens: a descrição minuciosa de um noivado complacente de portão, os sonhos eróticos de Maria do Carmo, as intenções mal disfarçadas do padrinho e os inúmeros casos de adultérios relatados na obra.

Igreja do Patrocínio, local frequentado pelos personagens de A Normalista (arquivo Nirez)

A história é toda ambientada em Fortaleza: o Trilho (atual Av. Tristão Gonçalves) descrito como um lugar ermo e mal iluminado, é onde os personagem centrais  residiriam no lado oeste da rua – lado da sombra – próximo à Praça Castro Carreira, pois de sua casa se via o prédio da Estação da linha férrea de Baturité.  Vários locais de Fortaleza de antigamente são identificados no romance: o Porto de embarque na Praia de Iracema, as missas na Igreja do Patrocínio, o prédio da Escola Normal na Praça Marquês do Herval,  o Oiteiro (atual Aldeota) e o Cocó, lugar distante e de muito verde.

Resumo

A normalista conta a história de João da Mata, um amanuense de Fortaleza que recebe a incumbência de criar a sua afilhada, Maria do Carmo.

Maria do Carmo é uma menina do interior que foge da seca com sua família e, por conta da morte da mãe e da migração do pai, passa a viver na casa de seu padrinho, o Sr. João da Mata, que vive em regime de concubinato com Dona Terezinha. Educada em colégio de orientação religiosa (Imaculada Conceição),  até tornar-se aluna da Escola Normal, ocasião em que se torna objeto de desejo, perante os olhos sedentos do padrinho, que vê na afilhada uma mulher já madura em seus atributos de feminilidade e extremamente atraente.

Inicia, contra a vontade de João da Mata que se mortifica de ciúmes, um namoro com Zuza, jovem estudante de Direito, filho de um dos coronéis da cidade. A relação, que a princípio tem a possibilidade de levar a um compromisso mais sério, é comentada maliciosamente em toda a cidade, e provoca a desaprovação do pai do rapaz, que exige o seu imediato retorno a Recife para concluir seus estudos.

Enquanto isso, João da Mata, que planeja um meio de conseguir seduzir a afilhada, rompe as relações com dona Terezinha, pois esta desconfiava de suas intenções, e hostiliza cada vez mais o pretendente  Zuza. Uma noite, entra sorrateiramente no quarto de Maria do Carmo e, fazendo  uso de argumentos enganosos, chantageando  e se  valendo da situação propícia em que se encontravam, consegue o que queria.

Maria do Carmo engravida, e tem que se afastar da cidade para evitar um escândalo maior, esperando o nascimento do bebê em uma casa isolada de uns amigos de João da Mata. O seu filho, morre logo após o nascimento, em decorrência de um acidente durante o parto. 
Apesar dos  comentários de toda a sociedade de Fortaleza, a normalista retoma sua vida de sempre e é redimida pela mesma sociedade ao preparar-se para o casamento com o alferes Coutinho.

Fontes:
A Normalista, de Adolfo Caminha. São Paulo: Editora Ática, 1994.