quinta-feira, 29 de outubro de 2009

A Praia Formosa e o Curral das Éguas

Praia Formosa em fotos de 1939 - foto reprodução
ponte dos ingleses  

Desde a década de 1920 até inicio dos anos 1960, a então Praia Formosa (atual Iracema) era habitada por pescadores e por pessoas de classe média, que ali se instalavam devido à facilidade de acesso à Praça do Ferreira – ponto de convergência de todo o comércio de Fortaleza, repartições públicas, linhas de ônibus e de bondes, correios, bancos, etc. O trajeto entre a Praia e a Praça do Ferreira era cumprido a pé.
Ao longo desse tempo a Praia Formosa sempre foi uma área bastante movimentada, com destaque para os anos 1940, quando por ali transitavam as moças que habitavam o “Curral das Éguas”; também circulavam jovens solteiras de boas famílias, que frequentavam o cassino dos americanos (no lugar do atual Estoril), ou ainda, o “La Conga” que ficava na descida da Rua Barão do Rio Branco, já na beira do mar. O La Conga era tipo uma boate, e servia de ponto de encontro dos soldados americanos que ficaram aquartelados na cidade no tempo da guerra.
Estima-se que, entre 1943 e 1946, um total de 50 mil americanos tenha passado por Fortaleza. Para suas distrações se faziam acompanhar das famosas “coca-colas”, como ficaram conhecidas as moças de Fortaleza que namoravam os americanos, mesmo sem conhecer o idioma.
Bastava saber dançar e dizer algumas palavras que permitisse os mais rápidos relacionamentos.
Na descida do Passeio Público em direção a praia estava o “Bar São Jorge”, palco de muitas desventuras humanas, e por esse motivo, muito conhecido da crônica policial da cidade; nas redondezas se aglomerava grande número de operários que trabalhavam na antiga “light”, lugar que acumulava enorme quantidade de cinza das caldeiras que forneciam eletricidade a Fortaleza.
Mais tarde o lugar passou a ser chamado pejorativamente de “Cinzas”.

No Arraial Moura Brasil, na descida da ladeira da Rua General Sampaio, ao lado da estação central e da casa de detenção (atual Encetur), em direção a Praia Formosa, ficava o muito famoso “Curral das Éguas”, local onde desde 1920, muitos rapazes, de todas as classes sociais, se iniciavam nas artes amorosas.
As casas, estilo chalés situados à esquerda de quem descia a Rua General Sampaio, estavam sempre feericamente iluminados. As mulheres, de todos os tipos, vinham de todo o estado do Ceará, boa parte delas fugindo das secas e da carência de oportunidades em suas cidades, para “fazer a vida” e assumir a profissão.
Na pensão onde fixavam residência, a primeira providência da madame (a dona da pensão) era levar a “mariposa” a chefatura de policia onde era registrada, com prontuário de ocorrência sanitária, obrigada a comparecer mensalmente para obter visto na carteira, e para ser examinada para saber se tinha contraído “doença do mundo” ou “curuba”,
um tipo de sarna muito comum na época.
Os homens solteiros, casados, comprometidos, ricos, pobres, pretos ou brancos, freqüentavam o local às escondidas, cuidando para evitar as “doenças do mundo” dada a inexistência de preservativos ou camisinhas.
Os que pegavam alguma doença venérea, consultavam urologistas de confiança em busca da cura, tudo no maior segredo, evitando-se chegar ao conhecimento das famílias e namoradas, porque tal ocorrência podia decretar até o fim do casamento, se fosse descoberta.
O trottoir era o ponto alto do assédio: as “damas da noite” vestiam-se com roupas de sedas chamativas, subiam e desciam a ladeira da Rua General Sampaio, a fim de atrair os fregueses que se postavam na parte alta da rua, ou que estavam nos botequins da área.
Arranjado o parceiro, levavam para o quarto do lupanar reservado para o oficio que não durava nem meia hora. Findo o encontro, a mulher já saía do quarto com traje diferente do que usara antes para não ser reconhecida pelos circunstantes, e recomeçava a lide de subir e descer a ladeira.
Ao lado do curral havia outras pensões, o “Oitão Preto” e a “Pensão da Olímpia”, ambas de categorias superiores e separadas do público que freqüentava o curral.
Muitas foram as promessas do poder do publico e de entidades da iniciativa privada, de mudar a tradição de uso e ocupação da Praia de Iracema, a outrora Praia Formosa. Campanhas de revitalização para integrar a área ao contexto sócio-cultural de Fortaleza e atrair maior movimentação de visitantes são quase constantes.
Em alguns trechos, até que esse objetivo foi parcial e relativamente alcançado. Mas o trecho onde se situavam até a década de 1960 as atividades acima relatadas, continua sendo até os dias atuais, área onde reinam a insegurança, a prostituição e o tráfico de drogas.
Pobre Fortaleza Bela



Fonte:

Almada, Zenilo. Histórias da Fortaleza Antiga. Revista do Instituto do Ceará. Fortaleza, tomo CXVIII, 2004.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Fortaleza na 2ª. Guerra: As Bases Americanas do Pici e do Cocorote

vista aérea de Fortaleza na década de 1930 - foto reprodução



Na década de 1940, durante a 2ª. Guerra mundial, Fortaleza abrigou duas bases americanas que serviam de apoio as forças aliadas. Uma base ficava no Pici, local que até aquela data nem era considerado como pertencente ao município de Fortaleza: era uma área com muito espaço verde que abrigava muitos sítios.
A paisagem começou a mudar com a construção de uma base aérea americana no ano de 1941, local escolhido para instalação de um posto de comando com uma pista de pouso de onde partiam aviões para bombardear países inimigos. Havia também uma torre para o pouso de zepelins.
O levantamento da área para a construção da pista do Pici foi iniciado em julho de 1941. O projeto previa uma pista de 500 pés de extensão para permitir o tráfego de aviões de médio porte, além de prestar apoio às aeronaves que patrulhavam o litoral do Nordeste. A pista foi inaugurada em fevereiro de 1942, com apenas 75% de extensão construída, para acolher um avião americano B-17 que estava perdido de sua rota original. A permanência da aeronave em Fortaleza foi de apenas 30 minutos.
Dados da época informam que o sobrevôo da aeronave causou pânico na população local em função das notícias que chegavam da Europa. O temor era causado pela possível participação brasileira na Segunda Guerra Mundial. De fato, o Brasil entrou na guerra em agosto de 1942.
As limitadas dimensões da pista do Pici e o avanço das forças alemãs na Europa e na África levaram os americanos a procurar outro local para a construção de uma nova pista em Fortaleza. A área escolhida foi o bairro Cocorote. Esse novo local permitiu o pouso dos aviões brasileiros estacionados no Alto da Balança. Foi construída ainda uma ampla pista de taxiamento, que facilitou a interligação com a pista do Alto da Balança.
Os trabalhos na base do Cocorote foram iniciados em julho de 1943, enquanto a Base do Pici era ampliada para atender a marinha americana. A Base do Cocorote, situada no mesmo local onde hoje funciona o Aeroporto Internacional Pinto Martins, praticamente só era separada da Base do Pici pela Avenida João Pessoa e um trecho da linha férrea. O acesso à pista do Cocorote pela Avenida João Pessoa era feito pelo Bar Avião, ainda existente na Avenida João Pessoa.
A pista de pouso do Pici ficava no bairro que lhe emprestou o nome, dentro do terreno que hoje pertence à Universidade Federal do Ceará.
Para dar suporte às obras das duas pistas (Pici e Cocorote) os americanos construíram uma fábrica de asfalto no Bairro da Itaoca.

sábado, 24 de outubro de 2009

Fortaleza em tempos de guerra: o quebra-quebra de 1942

Rua Major Facundo, no Centro de Fortaleza. Local onde começou o quebra-quebra e saques em lojas de alemães, italianos e japoneses. (Arquivo NIREZ)


Até 1942 o Brasil manteve-se neutro no confronto envolvendo duas coalizões militares: os Aliados (Estados Unidos, Inglaterra, França e União Soviética) e o Eixo (Japão, Alemanha e Itália). Os conflitos se deram na Europa, Norte da África e em países do Oceano Pacífico.

A neutralidade tinha uma motivação: havia uma simpatia entre o Brasil e o Eixo; além do mais o governo Getúlio Vargas não desejava a entrada do Brasil no confronto, inclusive pela presença no país de levas de imigrantes italianos, alemães, e (em número menor) japoneses, e pela vigência de um regime de exceção, o Estado Novo.

Mas após o afundamento de navios brasileiros por submarinos alemães, com perdas de centenas de vidas, uma parcela da população brasileira saiu às ruas em todo país exigindo um posicionamento do governo do Brasil com relação ao conflito.

Em Fortaleza o movimento, liderado por estudantes, começou com comícios e passeatas, até que no dia 18 de agosto de 1942 uma multidão invadiu o centro de Fortaleza para expressar sua revolta, principalmente depois da confirmação do torpedeamento de navios brasileiros na costa nordestina.
A passeata saiu da Faculdade de Direito e seguiu em direção à Praça do Ferreira.
Nas ruas do centro ocorreram ataques e depredações a estabelecimentos comerciais pertencentes a estrangeiros nascidos nos países inimigos: empresas como Casa Veneza, Bar Antártica, Café Iris e outros foram destruídos aos gritos de “morra a Itália” e “morra a Alemanha”. “A Pernambucanas” de propriedade de estrangeiros, foi incendiada. Não houve repressão por parte das autoridades policiais.

Depois desse acontecimento, vários estabelecimentos de propriedade de estrangeiros, passaram a publicar anúncios nos jornais, declarando-se brasileiros, por opção ou por local de nascimento, e repudiando os ataques a navios da marinha mercante brasileira.

Pressionado pela população e pelos acordos assinados com os países das Américas, o presidente Getúlio Vargas se viu obrigado a declarar primeiro, o Estado de Beligerância, e finalmente, em 31 de agosto de 1942, o Brasil declarou guerra ao Eixo.

fontes: 
Jornais O POVO e Diário do Nordeste


sábado, 17 de outubro de 2009

Nepotismo e Favorecimento: vergonha nacional

imagem: http://jacobsociologia.blogspot.com/2008/10/dominao-tradicional-nepotismo.html


Nepotismo termo derivado do latim nepos, nepotis (neto, sobrinho), é utilizado para designar favorecimento de parentes em detrimento de outro melhor qualificado, especialmente no que diz respeito a nomeação para cargos públicos.

Originalmente a palavra aplicava-se ao papa e sua relação com seus parentes, mas atualmente é utilizado como sinônimo da concessão de privilégios ou cargos a parentes no âmbito da coisa pública. Distingue-se do favorecimento simples porque este não envolve relações de parentesco com o beneficiário.

O nepotismo está estreitamente vinculado a estrutura de poder dos cargos e funções da administração, e se configura quando, de qualquer forma, a nomeação do servidor ocorre por influência de autoridades ou agentes públicos ligados a esse servidor por laços de parentesco.

No Brasil, a prática do nepotismo desembarcou junto com portugueses, e já tem a idade do País: consta que na carta que Pero Vaz de Caminha encaminhou a El Rei para comunicar a “descoberta” da nova terra, o escrivão da frota de Cabral encerra a missiva pedindo ao rei D. Manuel um emprego para um sobrinho, rapaz competente e cumpridor dos seus deveres.

E no país tropical o nepotismo junto com o parceiro fiel, o favorecimento, encontrou terreno fértil, se multiplicou, se estabeleceu e marca presença em tudo que é maracutaia, malandragem, mamata, incompetência e quejandos.
Não há um segmento do serviço público que esteja isento da mazela. Os beneficiários do nepotismo não têm compromisso com desempenho, pois qualquer que seja o resultado, seu emprego está garantido, o máximo que pode ocorrer, é mudar de posto. Além do mais, ele não está no cargo para mostrar serviço, se fosse, teriam posto alguém qualificado no lugar dele.

Esse casamento homossexual nepotismo – favorecimento, nunca gerou bons frutos; dessa união espúria nasce o funcionário incompetente e omisso, o administrador que não administra, o fiscal que não fiscaliza, o funcionário pago com com o dinheiro do erário que não trabalha, não comparece, e nada sabe do cargo que ocupa.

Em 18 de outubro de 2005, o Conselho Nacional de Justiça editou a Resolução nº 07, banindo definitivamente as práticas de nepotismo do Poder Judiciário Brasileiro. Após três anos da edição desta resolução, o Supremo Tribunal Federal, no julgamento da Ação Declaratória de Constitucionalidade nº 12, consolidou o entendimento de que a proibição do nepotismo é exigência constitucional, vedada em todos os Poderes da República.
É esperar pra ver.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Pelas Ruas da Cidade - Parte II

Rua Guilherme Rocha - centro - Trecho Praça do Ferreira


De acordo com a Lei Orgânica do Município de Fortaleza, cabe à Câmara Municipal denominar bairros, ruas, praças e logradouros públicos, bem como autorizar sua
modificação. Não é necessário que a prefeitura autorize ou aprove, basta que a câmara baixe o decreto com o novo nome e pronto.

Desde 2006, quando ganhou esse poder por alteração na lei, a câmara tem abusado do direito de trocar nomes de logradouros; são, em média, duas modificações por mês.
Cerca de 30 decretos legislativos desse tipo, determinando novos nomes a ruas antigas ou definindo nomes oficiais para lugares da cidade, foram redigidos
pelos vereadores de 2006 para cá.

Entre 1999 e 2005, pelo menos 71 projetos de lei sugeriam a alteração de nomes ou a denominação de ruas e praças da cidade, de acordo com o Jornal O POVO.
Na lei modificada foi inserida uma emenda que prevê uma consulta à população antes de alterar o nome da via. Mas não é assim que acontece: a população só toma conhecimento da mudança depois que o nome já foi trocado.

Para quem tem estabelecimento comercial, a mudança do nome da rua implica em burocracia e custos, porque é como se o comerciante tivesse mesmo mudado o local do comércio: tem que registrar o novo endereço na junta comercial.

Para as pessoas físicas, o transtorno não é menor: é necessário atualizar o endereço junto a bancos, prestadores de serviços públicos, cartões de crédito, escolas, etc.

Na maioria das vezes, a mudança atende interesses particulares dos vereadores e homenageiam pessoas que ninguém sabe quem é.
A matéria é regulamentada pelo Código de Obras e Posturas do Município de Fortaleza que determina em seu artigo 680:

Para denominação dos logradouros públicos serão escolhidos, dentre outros, nomes de pessoas, datas ou fatos históricos que representem efetivamente passagens de notória e indiscutível relevância; nomes que envolvam acontecimentos cívicos, culturais e desportivos; de obras literárias, musicais, esculturais e arquitetônicas consagradas; personagens de folclore; de acidentes geográficos, ou flora e fauna.

1º - Sob nenhum pretexto dar-se-ão às ruas, praças, avenidas, viadutos ou jardins públicos, nomes de pessoas vivas.

2º - Sob nenhum pretexto dar-se-ão aos bairros nomes de pessoas vivas ou mortas, ressalvadas as atuais denominações.

3º - Não serão admitidas modificações na denominação já tradicional de logradouros públicos ou bairros.

E no artigo 681, determina:


As propostas, em mensagem à Câmara, de modificações às denominações que constituam duplicata, sejam nomes de pessoas vivas ou possam originar confusão no tocante à identificação do logradouro.

1º - No caso de denominação em duplicata, deverá ser modificado o nome do logradouro considerado de menor importância, tendo em vista sua tradição, notoriedade, antiguidade, extensão ou situação.

2º - Poderão ser conservadas as denominações em duplicata, já existentes, quando logradouros que as contém sejam de categorias diversas, tais como praças, avenidas, ruas e viadutos.

Com relação aos nomes em duplicata, observamos que Fortaleza possui uma infinidade de vias nessa condição, conforme podemos observar a existência de:
02 Ruas Nossa Senhora Aparecida
(Bairros Genibaú e Mondubim);
02 Ruas Santa Clara
(Bairros Siqueira e Jacarecanga);
02 Ruas Nossa Senhora de Fátima
(Bairros Itaoca e Aerolândia
04 Ruas Nossa Senhora da Conceição
(Bairros Mondubim, Genibaú, Pici, Jangurussu);
05 Ruas Chico Mendes
(Bairros de Coaçu, Mondubim, Aerolândia, Jangurussu e Barra do Ceará);
05 Ruas Padre Cícero
(Bairros Jangurussu, Rodolfo Teófilo, Barra do Ceará, Passaré e Benfica);
05 Ruas Santo Antonio
(Bairros Quintino Cunha, Barra do Ceará, Jangurussu, Palpina e Farias Brito);
07 Ruas São Pedro
(Bairros Planalto Ayrton Sena, Dias Macedo, Barra do Ceará, Paupina, Cais do Porto, Jangurussu e Manoel Sátiro).
08 Ruas São José(Bairros Bom Jardim, Jardim Cearense, Mondubim, Lagoa Redonda, Centro, Passaré, Carlito Pamplona e Itaperi);
e
08 Ruas São Francisco
(Bairros Mondubim, com 2 ruas São Francisco - Pici, Messejana, Coaçu, Quintino Cunha, Bonsucesso e Jangurussu);

Deve haver em Fortaleza, centenas de outras ruas com nomes duplicados, causando confusão na população e nos entregadores de bens e serviços.

fontes 
Lei Orgânica do Município de Fortaleza
Jornais Diario do Nordeste e O Povo

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Pelas Ruas da Cidade

Não se sabe a data exata em que teve inicio a nomenclatura das ruas de Fortaleza. Das vias atuais, as únicas que mantiveram os mesmos nomes desde a época da colônia são as ruas do Rosário, que ganhou o nome em fins do Século XVIII, a do Pocinho e a Governador Sampaio, que datam de 1813.


Rua do Rosário, centro de Fortaleza, via com denominação mais antiga de Fortaleza

Os nomes das ruas foram dados por iniciativa da população e adotados pelo poder público do município. Até 1817 não havia na Vila de Fortaleza qualquer indicação relativa ao nome das ruas. No dia 18 de março desse ano, em sessão realizada na Câmara, foi aprovada a decisão de se colocar letreiros indicando a denominação da via.
Assim no ano de 1818, já se podia ler os nomes das ruas, colocadas nas esquinas das vias públicas da Vila: Rua do Rosário, da Palha, da Cadeia, Nova da Palha, de Cima, do Açougue, das Flores, do Monteiro, do Riacho, Nova da Boa Vista, do Pocinho, do Boticário, das Almas, da Cacimba dos Meirinhos, e outras.
Anos mais tarde, em 1861, foi aprovada pela Câmara uma resolução para que se fizessem tabuletas para identificação dos nomes das ruas e travessas da cidade, que deveria ser uma só e não diferentes nomes.A resolução decorreu do fato de existirem algumas artérias com mais de um nome. 
A atual Rua Floriano Peixoto tinha três denominações: Rua das Belas no trecho entre o Passeio Público até a praça onde hoje está o edifício do Banco do Brasil;daí até a Praça do Ferreira era Rua da Pitombeira, e da Praça do Ferreira em direção a Praça do Carmo era Rua da Alegria.
A Rua Major Facundo era Rua da Palma entre o Passeio Público e a Praça do Ferreira e Rua do Fogo, da Praça até o final.
A decisão de colocar numeração nos imóveis ocorreu junto com a denominação única das ruas, mas não foi implantada de imediato. A falta de números nas portas levava os comerciantes e prestadores de serviços que precisavam tornar seus endereços conhecidos, a utilizarem como referências o nome de pessoas conhecidas, como demonstram esses anúncios publicados em jornais da época:

Bazar Cearense
Na rua da palma
Confronte ao Quintino
Perto do Zeferino
Por grandes letreiros
Mui bem se conhece
A loja da moda
(Pedro II-Fortaleza, 24-3-1862)

Estabelecimento Photographico de Madame Fletcher
Rua Nova, na casa onde morou o Dr. Justa.
(A Constituição- Fortaleza, 25-2-1865)


Rua Formosa (atual barão do Rio Branco) em foto de 1925. Nota-se a total ausência de árvores. Foto Reprodução (Arquivo NIREZ)


Rua Barão do Rio Branco atual: no início 

e no final: uma profusão de placas e anúncios

No ano de 1890, nova decisão da Câmara causou controvérsias na cidade. Em sessão realizada em 29 de outubro de 1890, o Conselho de Intendência da Capital decidiu substituir o sistema de identificação das ruas, com a denominação dando lugar a números. O motivo alegado foi evitar as contínuas e sucessivas trocas de nomes, quase sempre motivadas por sentimentos partidários.
O critério de numeração utilizava a Rua Formosa como referência: para o nascente todas as ruas eram ímpares e para o poente, pares. Pouco durou, no entanto, a tal resolução: os comerciantes continuaram a anunciar o endereço dos seus estabelecimentos usando os antigos nomes das ruas e travessas. Poucos aderiram ao novo formato. As raras exceções foram:

Esplêndido sortimento de calçados BOSTOK
para homens, senhoras e crianças despachou a loja Magnólia.
Rua 3 n° 93
(Libertador, 17, 19 e 22-11-1890).

Em sessão de 28 de abril de 1891, novamente por determinação da Câmara Municipal, os números das ruas foram substituídos pelos seus respectivos nomes primitivos. A novidade durou cerca de seis meses (de 29.10.1890 a 28.04.1891). A Câmara voltou atrás na sua decisão porque a inovação não agradara a população.

Fonte:
PORDEUS, Ismael. Fortaleza-Casas e Ruas Numeradas. Revista do Instituto do Ceará. Fortaleza, tomo LXXVII, 1963 – pg. 335-352.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Histórias da Fortaleza antiga - O Cajueiro do Fagundes

Por volta do ano de 1797, no tempo do Brasil - Colônia, o Ceará era governado pelo oficial da marinha portuguesa Luiz da Mota Féo e Torres. Fortaleza era ainda uma pequena aldeia, muito embora tivesse o status de capital do Estado.
À época existia um frondoso cajueiro no cruzamento das Ruas Pedro Borges, Major Facundo e Liberato Barroso. No local onde hoje se encontra a Praça do Ferreira, havia uma vila de casas conhecida por Beco do Cotovelo, de cuja extremidade partiam três ruelas.
Na saída de uma delas estava o cajueiro, à sombra do qual ficava o açougue do Fagundes, que morava numa casinha em frente. Certa feita, ao passar o governador em seu cavalo, um galho baixo da árvore arrancou-lhe o chapéu, lançando-o ao solo.
Como o açougueiro descansava por ali, o governador ordenou-lhe que apanhasse o chapéu.
O Fagundes nem se alterou. Não gostava de ser mandado, muito menos quando o pedido não era feito com educação.
O governador insistiu colérico, mesmo assim, foi ignorado pelo açougueiro.
Irritado o governador foi embora, ameaçando mandar cortar a árvore.
Do palácio, na Rua Conde d’Eu, partiu a ordem de deitar abaixo o cajueiro. O açougueiro, com a ajuda dos seus magarefes, não deixou que os soldados executassem a ordem. É que o Fagundes já lançara por toda cidade o seu grito de revolta: vieram em seu auxílio outros açougueiros, flandeiros, merceeiros, ferreiros, até os pescadores da Prainha, todos armados com cacetes e facões, que fizeram a tropa recuar.
Levantaram-se então trincheiras na encruzilhada das três ruas perpetuando o episódio: Rua do Cajueiro (Pedro Borges), Rua das Trincheiras (Liberato Barroso) e Rua do Fogo (Major Facundo). Depois do episódio, o governador desistiu de derrubar o cajueiro.
Venceu a coragem de um povo que tinha dignidade e brio.

Extraído do livroHistória Abreviada de Fortaleza e Crônicas sobre a Cidade Amada
Autor: Mozart Soriano Aderaldo

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

A chegada do cinema à Fortaleza

Primeiro chegaram os bioscópios, uma espécie de lanterna mágica que projetava na tela imagens estáticas. O introdutor da novidade foi um italiano chamado Pascoal, que instalou a máquina na Rua Barão do Rio Branco.

Dado o êxito obtido, vários bioscópios foram instalados em diversos locais da cidade: um na Rua Major Facundo, outro na Praça do Ferreira, outro no antigo prédio do Clube Iracema e mais um no Beco das Trincheiras, esquina com a Rua Senador Pompeu. (Beco das Trincheiras era a antiga denominação da Rua Liberato Barroso).

kinetofone, ano de fabricação 1914 - imagem: http://www.answers.com/topic/kinetoscope-2#
Tempos depois, apareceu o kinetofone, que era uma combinação do bioscópio com o gramofone. O novo equipamento foi armado no teatro José de Alencar, e fez um sucesso retumbante.
Em 1907 chegava a Fortaleza o italiano Vitor di Maio, trazendo o animatógrafo, montando-o na Rua Guilherme Rocha. A partir daí teve inicio a fase de prosperidade do cinema em Fortaleza. No caminho aberto por Di Maio, outros cinematógrafos surgiram: em 1909, Henrique Messiano inaugurou o Cinema Rio Branco, na rua do mesmo nome; na mesma época Julio Pinto abriu o Cassino Cearense, na Rua Major Facundo. Eram exibidos filmes extraordinários como O Conde de Monte Cristo e a Dama das Camélias, este último, foi exibido quase trezentas vezes. Durante a apresentação dos filmes que eram mudos, um pianista tocava as músicas da moda.



O Majestic Palace ficava na Praça do Ferreira - foto reprodução
No ano de 1917 anunciava-se em Fortaleza a inauguração de mais uma casa de espetáculos: O Majestic Palace, de propriedade de Plácido de Carvalho.
O Cine Majestic tinha uma sala de projeção que também era teatro, toda em ferro, como o Teatro José de Alencar. Tinha 650 cadeiras no distribuidas no térreo, nos dois andares, onde ficavam os camarotes e na geral.
O Cine Majestic funcionou até 1968, quando foi consumido por um incêndio que destruiu a sala de projeção.
Fontes:
Menezes, Raimundo de. Coisas que o tempo levou: crônicas históricas da Fortaleza antiga. Fortaleza: Edições Demócrito Rocha, 2000.
Azevedo, Miguel Ângelo de. (NIREZ) Índice Analítico e Iconografia da Cronologia Ilustrada de Fortaleza: roteiro para um turismo histórico e cultural. Fortaleza: banco do Nordeste, 2001.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Rua Antonio Correia Lima


Rua Antonio Correia Lima, bairro Montese

O caminhão da coleta passa três vezes por semana: 3ªs, 5ªs e sábados, por volta de 20:30h.
Não falha nunca, pode ser feriado, pode ser dia santo, pode chover chuva ou canivete.
Então só a incivilidade e a falta de vocação para viver em comunidade, explica esse costume pré-histórico de se jogar lixo na rua.

O lixo é colocado a qualquer hora, e em qualquer lugar pelos próprios moradores;
como não é embalado, sobe e desce a rua, ao sabor da ventania que agita Fortaleza nesta época do ano.

Os restos lançados no meio ambiente, acabam retornando para dentro das casas, na forma de baratas, ratos, escorpiões, muriçocas e mosquitos da dengue, troféus que, por direito, deveriam ir tão somente, para as casas dos sem-educação, que pensam que a rua é lixeira.

E, para compor o cenário de sujeira e mau-gosto, ainda vemos a ação de uma das maiores pragas da modernidade: os pichadores